As diretrizes de 2025 da European Society for the Study of Coeliac Disease (ESsCD) atualizaram as suas recomendações de 2019, incorporando avanços no entendimento da história natural, seguimento clínico e manejo de formas complexas da doença celíaca.
Não basta a dieta sem glúten
A dieta sem glúten (DSG) permanece como espinha dorsal do tratamento, porém foi proposta uma abordagem mais estruturada e personalizada, com ênfase em acompanhamento multidisciplinar, monitorização objetiva da adesão dietética e avaliação sistemática de complicações e comorbidades.
Doença celíaca | |
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O conceito de DSG foi refinado, representando não apenas a exclusão do glúten (ingestão diária limitada a 10 mg), mas também a necessidade de garantir adequação nutricional e saúde metabólica, com seguimento por nutricionista especializado em toda a trajetória do paciente. A aveia certificada sem glúten pode ser incluída desde o diagnóstico e a dieta sem lactose ou pobre em FODMAPs pode ser indicada se houver sintomatologia refratária, apesar de adesão adequada à dieta.
Modelos de seguimento
As diretrizes reconhecem duas estratégias possíveis: um modelo padronizado com intervalos fixos; ou um modelo individualizado baseado no perfil de risco, sintomas e comorbidades, incluindo suporte psicossocial e intervenções voltadas para a qualidade de vida, com a possibilidade de integração de ferramentas digitais e telemedicina.
Doença celíaca: Aspectos primordiais da abordagem
Cuidados adicionais
A diretriz enfatizou os seguintes aspectos:
- Saúde óssea: densitometria óssea baseada em fatores de risco: diagnóstico tardio da doença celíaca, malabsorção intensa intensa, síndrome consumptiva, histórico de fraturas por fragilidade, síndrome da Down, fatores de risco adicionais para osteoporose ou idade > 35-40 anos;
- Asplenia funcional: vacinação antipneumocócica;
- Insuficiência pancreática exócrina: avaliar indicação de terapia de reposição enzimática com pancreatina e suplementações pertinentes: ferro, vitaminas lipossolúveis, B12, folato, cálcio, magnésio, zinco e cobre;
- Transição do cuidado pediátrico para o adulto, com proposta de um “passaporte celíaco”, para garantir a continuidade da assistência;
- Orientações para situações especiais, como a gestação e diagnóstico em idosos;
- Rastreamento familiar baseado em genotipagem HLA-DQ2/8 ou, na indisponibilidade, triagem sorológica a cada 5 anos;
- Vigilância de enteropatia sprue-like associada aos inibidores checkpoint e olmesartana.
Monitorização da adesão dietética
Outra novidade importante foi a incorporação de ferramentas para monitorização objetiva da ingestão de glúten, especialmente por meio da detecção de peptídeos imunogênicos do glúten (GIP) em urina ou fezes, persistentes por até 2-4 dias após a ingestão inadvertida. Esses testes podem auxiliar na identificação de ingestão inadvertida de glúten em pacientes com sintomas persistentes ou adesão incerta à dieta, funcionando como complemento à avaliação clínica-dietética e sorológica (IgA total + antitransglutaminase tecidual IgA), embora tenham valor preditivo negativo limitado.
A biópsia duodenal, embora seja o método definitivo para avaliar a recuperação mucosa, não é indicada de modo rotineiro na avaliação da adesão terapêutica, devendo ser considerada em sintomas persistentes ou refratários.
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Em quanto tempo se espera melhora com a dieta? | |
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Sintomas |
1-5 meses |
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Sorologia |
2-4 semanas a 12 meses |
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Recuperação mucosa |
1-5 anos |
Doença celíaca refratária
As diretrizes também revisam a abordagem de pacientes com resposta incompleta à dieta sem glúten e redefinem aspectos do diagnóstico e tratamento da doença celíaca refratária (DCR). Além do uso de budesonida como terapia inicial em DCR-I, o documento discute estratégias terapêuticas emergentes para casos mais complexos, incluindo agentes imunossupressores (azatioprina), quimioterápicos (cladribina ou fludarabina), inibidores da via JAK/STAT (tofacitinibe) e, em situações selecionadas, transplante autólogo de células-tronco hematopoéticas, como nos casos de DCR-II refratários à cladribina.
Saiba mais: Doença celíaca e o risco de evolução para doença hepática crônica
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Doença celíaca refratária (DCR) | |
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DCR-I |
Linfócitos intraepiteliais (LIE) com fenótipo normal, seja policlonal ou oligoclonal. |
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DRC-II |
LIE aberrantes/anormais em montante ≥ 20%, com perda de CD3/CD8, e expressão de CD3 intracitoplasmático, com clonalidade confirmada por rearranjo do gene TCR. |
Mensagens práticas: doença celíaca em adultos
- O cuidado moderno da doença celíaca deve ser multidisciplinar e individualizado, incorporando estratégias de educação, suporte psicossocial, participação de grupos de apoio e, quando necessário, encaminhamento para centros especializados no manejo de formas complexas ou refratárias da doença.
- A dieta sem glúten permanece o pilar fundamental da doença celíaca, porém o manejo não deve se limitar à exclusão do glúten. O acompanhamento deve incluir avaliação nutricional estruturada, monitorização sistemática da adesão dietética e vigilância para complicações e comorbidades, com ênfase para a saúde óssea e síndrome metabólica.
- A presença de sintomas persistentes apesar da dieta sem glúten exige investigação sistemática. Antes de considerar doença celíaca refratária, é essencial excluir ingestão inadvertida, intolerâncias alimentares, insuficiência pancreática exócrina, distúrbios funcionais e outras doenças gastrointestinais. Testes de peptídeos imunogênicos do glúten podem auxiliar na identificação de exposição recente ao glúten em casos selecionados.
Autoria

Leandro Lima
Editor de Clínica Médica da Afya ⦁ Residência em Clínica Médica (2016) e Gastroenterologia (2018) pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) ⦁ Residência em Endoscopia digestiva pelo HU-UFJF (2019) ⦁ Preceptor do Serviço de Medicina Interna do HU-UFJF (2019) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
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