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Gastroenterologia17 março 2026

Doença celíaca em adultos: Novas diretrizes da ESsCD 

O ESsCD buscou integrar evidências, aprimorar estratégias e promover uma abordagem personalizada e multidisciplinar para doença celíaca
Por Leandro Lima

As diretrizes de 2025 da European Society for the Study of Coeliac Disease (ESsCD) atualizaram as suas recomendações de 2019, incorporando avanços no entendimento da história natural, seguimento clínico e manejo de formas complexas da doença celíaca.  

Não basta a dieta sem glúten 

A dieta sem glúten (DSG) permanece como espinha dorsal do tratamento, porém foi proposta uma abordagem mais estruturada e personalizada, com ênfase em acompanhamento multidisciplinar, monitorização objetiva da adesão dietética e avaliação sistemática de complicações e comorbidades. 

Doença celíaca 

Complicações 

Comorbidades 

  • Anemia ferropênica;  
  • Desnutrição; 
  • Pancreatite crônica; 
  • Dermatite herpetiforme; 
  • Ataxia e neuropatia periférica; 
  • Linfoma de células T associado à enteropatia. 
  • Obesidade; 
  • Hipertensão; 
  • Dislipidemia; 
  • Resistência à insulina; 
  • Tireoidopatias; 
  • Diabetes mellitus tipo 1. 

O conceito de DSG foi refinado, representando não apenas a exclusão do glúten (ingestão diária limitada a 10 mg), mas também a necessidade de garantir adequação nutricional e saúde metabólica, com seguimento por nutricionista especializado em toda a trajetória do paciente. A aveia certificada sem glúten pode ser incluída desde o diagnóstico e a dieta sem lactose ou pobre em FODMAPs pode ser indicada se houver sintomatologia refratária, apesar de adesão adequada à dieta.  

Modelos de seguimento 

As diretrizes reconhecem duas estratégias possíveis: um modelo padronizado com intervalos fixos; ou um modelo individualizado baseado no perfil de risco, sintomas e comorbidades, incluindo suporte psicossocial e intervenções voltadas para a qualidade de vida, com a possibilidade de integração de ferramentas digitais e telemedicina. 

Doença celíaca: Aspectos primordiais da abordagem 

Cuidados adicionais 

A diretriz enfatizou os seguintes aspectos: 

  • Saúde óssea: densitometria óssea baseada em fatores de risco: diagnóstico tardio da doença celíaca, malabsorção intensa intensa, síndrome consumptiva, histórico de fraturas por fragilidade, síndrome da Down, fatores de risco adicionais para osteoporose ou idade > 35-40 anos;  
  • Asplenia funcional: vacinação antipneumocócica;  
  • Insuficiência pancreática exócrina: avaliar indicação de terapia de reposição enzimática com pancreatina e suplementações pertinentes: ferro, vitaminas lipossolúveis, B12, folato, cálcio, magnésio, zinco e cobre; 
  • Transição do cuidado pediátrico para o adulto, com proposta de um “passaporte celíaco”, para garantir a continuidade da assistência; 
  • Orientações para situações especiais, como a gestação e diagnóstico em idosos; 
  • Rastreamento familiar baseado em genotipagem HLA-DQ2/8 ou, na indisponibilidade,  triagem sorológica a cada 5 anos; 
  • Vigilância de enteropatia sprue-like associada aos inibidores checkpoint e olmesartana.  

Monitorização da adesão dietética 

Outra novidade importante foi a incorporação de ferramentas para monitorização objetiva da ingestão de glúten, especialmente por meio da detecção de peptídeos imunogênicos do glúten (GIP) em urina ou fezes, persistentes por até 2-4 dias após a ingestão inadvertida. Esses testes podem auxiliar na identificação de ingestão inadvertida de glúten em pacientes com sintomas persistentes ou adesão incerta à dieta, funcionando como complemento à avaliação clínica-dietética e sorológica (IgA total + antitransglutaminase tecidual IgA), embora tenham valor preditivo negativo limitado. 

A biópsia duodenal, embora seja o método definitivo para avaliar a recuperação mucosa, não é indicada de modo rotineiro na avaliação da adesão terapêutica, devendo ser considerada em sintomas persistentes ou refratários. 

Em quanto tempo se espera melhora com a dieta? 

Sintomas 

1-5 meses 

Sorologia 

2-4 semanas a 12 meses 

Recuperação mucosa 

1-5 anos 

Doença celíaca refratária 

As diretrizes também revisam a abordagem de pacientes com resposta incompleta à dieta sem glúten e redefinem aspectos do diagnóstico e tratamento da doença celíaca refratária (DCR). Além do uso de budesonida como terapia inicial em DCR-I, o documento discute estratégias terapêuticas emergentes para casos mais complexos, incluindo agentes imunossupressores (azatioprina), quimioterápicos (cladribina ou fludarabina), inibidores da via JAK/STAT (tofacitinibe) e, em situações selecionadas, transplante autólogo de células-tronco hematopoéticas, como nos casos de DCR-II refratários à cladribina. 

Saiba mais: Doença celíaca e o risco de evolução para doença hepática crônica

Doença celíaca refratária (DCR) 

DCR-I 

Linfócitos intraepiteliais (LIE) com fenótipo normal, seja policlonal ou oligoclonal.  

DRC-II 

LIE aberrantes/anormais em montante ≥ 20%, com perda de CD3/CD8, e expressão de CD3 intracitoplasmático, com clonalidade confirmada por rearranjo do gene TCR. 

Mensagens práticas: doença celíaca em adultos 

  • O cuidado moderno da doença celíaca deve ser multidisciplinar e individualizado, incorporando estratégias de educação, suporte psicossocial, participação de grupos de apoio e, quando necessário, encaminhamento para centros especializados no manejo de formas complexas ou refratárias da doença. 
  • A dieta sem glúten permanece o pilar fundamental da doença celíaca, porém o manejo não deve se limitar à exclusão do glúten. O acompanhamento deve incluir avaliação nutricional estruturada, monitorização sistemática da adesão dietética e vigilância para complicações e comorbidades, com ênfase para a saúde óssea e síndrome metabólica. 
  • A presença de sintomas persistentes apesar da dieta sem glúten exige investigação sistemática. Antes de considerar doença celíaca refratária, é essencial excluir ingestão inadvertida, intolerâncias alimentares, insuficiência pancreática exócrina, distúrbios funcionais e outras doenças gastrointestinais. Testes de peptídeos imunogênicos do glúten podem auxiliar na identificação de exposição recente ao glúten em casos selecionados.

Autoria

Foto de Leandro Lima

Leandro Lima

Editor de Clínica Médica da Afya ⦁ Residência em Clínica Médica (2016) e Gastroenterologia (2018) pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) ⦁ Residência em Endoscopia digestiva pelo HU-UFJF (2019) ⦁ Preceptor do Serviço de Medicina Interna do HU-UFJF (2019) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)

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Referências bibliográficas

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