A terapia de reposição hormonal (TRH) na mulher é tratamento de escolha para atenuação dos sintomas da menopausa. Apesar de tantos avanços na Medicina, ainda há certo receio em relação ao seu uso.
Recentemente, a JAMA lançou um artigo que avaliou a prevalência do uso da TRH em mulheres norte-americanas na menopausa em um período de quase 20 anos.
A menopausa é uma fase de transição natural na vida da mulher com a queda dos níveis hormonais de estrogênio e progesterona. Em até 80% dos casos, ela pode ser sintomática e se apresentar com sintomas genitourinários, vasomotores, alterações de humor, dificuldades no sono e déficit cognitivo.
A TRH é o tratamento de escolha para os sintomas vasomotores e genitourinários. Em 1990, ocorreu um pico em sua prescrição, porém a partir de 2002, houve um rápido declínio depois que alguns estudos mostraram que alguns riscos poderiam superar os benefícios.
O objetivo do presente estudo foi de entender as principais tendências na prescrição da TRH em mulheres norte-americanas na menopausa no período de 1999 a 2020 de forma a auxiliar na correta prescrição da mesma.
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Metodologia
Foram utilizados dados da Pesquisa Nacional de Exame de Saúde e Nutrição (NHANES), incluindo participantes não hospitalizadas de 10 NHANES no período de 1999 a 2020.
Foram coletados dados relacionados às prescrições, status da menopausa, características sócio-demográficas, cobertura ou não de seguro de saúde, peso e altura das pacientes e status de tabagismo.
Em relação às medicações, elas foram categorizadas em contraceptivos, TRH, contraceptivo ou TRH e outras ( ex: anabolizantes esteroides, doses elevadas de progesterona para prevenção de perda gestacional, entre outras).
As idades foram categorizadas em intervalos: < 52 anos, entre 52-65 anos e ≥ 65 anos. Em relação à raça e etnia: hispânicas, negras não hispânicas, brancas não hispânicas e outras. O nível educacional foi classificado em não conclusão de ensino médio, com ensino médio concluído e nível superior.
A renda foi definida como baixa renda quando inferior a 1,3 pelos cálculos utilizados. Quanto à cobertura de seguro de saúde: sem seguro, com seguro público ou com seguro privado. O status conjugal foi definido como: morando sozinha (viúva, divorciada, separada ou solteira) ou morando com alguém ( casada ou com parceiro/parceira). Foram avaliados peso, altura e feito o cálculo do índice de massa corporal (IMC) e classificadas em peso normal (IMC <25 kg/m2), sobrepeso (IMC entre 25 e 30 kg/m2) e obesidade (IMC > 30 kg/m2). Por fim, quanto ao status de tabagismo, foram classificadas em nunca fumantes, ex-fumantes e fumantes.
Resultados
Foram analisados os dados de 13048 mulheres na menopausa no período de 1999 a 2020 nos Estados Unidos. Ao longo desse período, a prevalência do uso de TRH caiu em todas faixas etárias analisadas caiu de 26,5% em 1999 para 4,7% em 2020.
Até o período de 2002, o uso era maior nas mulheres entre 52 e 65 anos, porém desde 2005 o uso passou a ser maior naquelas com idade < 52 anos. O seu declínio foi de 23,5% naquelas com idade <52 anos, de 31,4% naquelas com idade entre 52 e 65 anos e de 10,6% naquelas com idade > 65 anos.
Em relação à etnia, decaiu de 13,8% para 2,6% para hispânicas, de 11,9% para 0,5% para negras não hispânicas e de 31,4% para 5,8% para brancas não hispânicas. Essas últimas apresentaram a maior prevalência no uso de TRH.
O uso de apenas estrogênio contou com a maior parte das prescrições (52,8%) e as mulheres com nível social mais elevado e cobertura de seguro de saúde apresentaram uma maior prevalência de uso de TRH.
Veja também: Terapia de reposição hormonal em mulheres com histórico de trombose ou trombofilia
Discussão
Foi observado durante o período analisado um declínio geral da TRH nas pacientes em menopausa. A redução foi mais acentuada em mulheres negras não-hispânicas, com menor nível de escolaridade e com idade > 57 anos.
O estudo contou com algumas limitações como não documentação das vias de administração da TRH e também as razões pelas quais elas foram prescritas para as pacientes.
Ainda assim, a TRH continua sendo tratamento de primeira linha para os sintomas vasomotores e genitourinários da menopausa, além de claros benefícios em outros setores da saúde da mulher como saúde óssea, cognitiva e cardiovascular. No entanto, a TRH não deve ser utilizada como prevenção de doenças cardiovasculares.
A recomendação é de que ela seja iniciada tão logo a menopausa seja diagnosticada ou com idade inferior a 60 anos, sempre na menor dose possível que traga benefícios à paciente.
Conclusão e mensagem prática
O estudo mostrou um declínio importante no uso de TRH nas mulheres norte-americanas em menopausa analisadas no período de 1999 a 2020.
Cabe a reflexão da razão desse declínio ocorrer, visto que a TRH é a primeira linha de tratamento para os sintomas da menopausa quando não há contra-indicações.
Importante que o estudo sirva de alerta para auxiliar profissionais de saúde na prescrição adequada da TRH, sempre pesando risco x benefício, sem deixar as mulheres desassistidas nessa fase tão desafiadora da vida.
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