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Endocrinologia17 agosto 2026

Semaglutida e tirzepatida versus gastrectomia vertical no diabetes tipo 2

Estudo comparou semaglutida, tirzepatida e gastrectomia vertical no diabetes tipo 2, com foco em perda de peso e HbA1c.

Obesidade e diabetes mellitus tipo 2 (DM2) são doenças crônicas inter-relacionadas, associadas à elevada morbidade, mortalidade e utilização de serviços de saúde.

A perda ponderal melhora a sensibilidade à insulina, o controle glicêmico e fatores de risco cardiovascular.

Embora a cirurgia metabólica e bariátrica permaneça como a intervenção mais efetiva para redução de peso e melhora metabólica, semaglutida e tirzepatida ampliaram significativamente as possibilidades de tratamento farmacológico.

Apesar dos resultados favoráveis demonstrados em ensaios clínicos, ainda eram escassas as comparações diretas, em condições de prática clínica, entre esses medicamentos modernos e a gastrectomia vertical.

Este estudo de mundo real teve como objetivo comparar, após um ano, a perda ponderal, o controle glicêmico e desfechos selecionados de segurança associados ao uso de semaglutida, tirzepatida e gastrectomia vertical em adultos com obesidade e DM2.

O estudo foi conduzido por pesquisadores norte-americanos e publicado no periódico The Lancet Diabetes & Endocrinology em 2026.

Como foi conduzido o estudo?

Foi realizado um estudo retrospectivo de coorte utilizando o Epic Cosmos, banco de prontuários eletrônicos desidentificados proveniente de 1.633 hospitais e 37.900 clínicas, distribuídos por 280 sistemas de saúde dos Estados Unidos.

Foram identificados pacientes elegíveis entre janeiro de 2011 e janeiro de 2025.

Foram incluídos adultos com índice de massa corporal (IMC) ≥ 35 kg/m² e HbA1c > 6,4% nos seis meses anteriores à intervenção.

Nos grupos farmacológicos, exigiu-se prescrição contínua por pelo menos 365 dias e alcance de dose de manutenção:

  • 1,0 a 2,4 mg para semaglutida;
  • 5,0 a 15,0 mg para tirzepatida.

O grupo cirúrgico incluiu pacientes submetidos à primeira gastrectomia vertical, sem cirurgia bariátrica prévia.

Qual foi o desfecho primário?

O desfecho primário composto foi a obtenção simultânea de:

  • perda ≥ 20% do peso corporal;
  • HbA1c < 5,7% entre 9 e 15 meses após a intervenção.

Também foram analisados separadamente perda ponderal, variação da HbA1c e outros desfechos metabólicos.

Os desfechos de segurança predefinidos incluíram visitas ao departamento de emergência e novas prescrições de medicamentos para doença do refluxo gastroesofágico ou náusea.

As probabilidades estimadas para os desfechos foram corrigidas para idade, sexo, raça, IMC e HbA1c basais, índice de comorbidades de Charlson, índice de vulnerabilidade social e carga medicamentosa inicial para diabetes, dislipidemia e hipertensão.

Quais foram os principais resultados?

Após a triagem inicial de mais de 400.000 pacientes, 45.649 participantes compuseram a análise primária:

  • 33.846 tratados com semaglutida;
  • 4.231 tratados com tirzepatida;
  • 7.572 submetidos à gastrectomia vertical.

O grupo cirúrgico era, em média, mais jovem, apresentava maior IMC e menor HbA1c basal, além de maior proporção de mulheres.

A probabilidade ajustada de alcançar o desfecho composto primário foi de:

  • 3,0% com semaglutida;
  • 13,2% com tirzepatida;
  • 24,0% após gastrectomia vertical.

Comparativamente à semaglutida, a chance de atingir esse desfecho foi 4,45 vezes maior com tirzepatida e 8,03 vezes maior com gastrectomia vertical.

Pacientes submetidos à cirurgia apresentaram chance 1,80 vez maior de atingir o desfecho em relação à tirzepatida.

Como foram os resultados de peso e HbA1c separadamente?

A probabilidade de perda isolada ≥ 20% foi de:

  • 7,4% com semaglutida;
  • 22,3% com tirzepatida;
  • 70,7% com gastrectomia vertical.

Em contraste, a obtenção de HbA1c < 5,7% foi mais frequente com tirzepatida:

  • 14,0% com semaglutida;
  • 31,1% com tirzepatida;
  • 26,2% com gastrectomia vertical.

A perda ponderal média ajustada foi de:

  • 9,34% com semaglutida;
  • 14,20% com tirzepatida;
  • 25,28% com gastrectomia vertical.

As reduções médias da HbA1c foram, respectivamente:

  • 1,85 ponto percentual com semaglutida;
  • 2,09 pontos percentuais com tirzepatida;
  • 1,21 ponto percentual com gastrectomia vertical.

E quanto aos desfechos de segurança?

As visitas ao departamento de emergência ocorreram em:

  • 23,2% dos pacientes tratados com semaglutida;
  • 21,7% dos pacientes tratados com tirzepatida;
  • 35,3% dos submetidos à cirurgia.

A gastrectomia vertical associou-se a aumento estatisticamente significante dessas visitas em comparação a ambos os medicamentos.

Novas prescrições para refluxo ocorreram em aproximadamente 10% dos participantes dos três grupos.

O uso de medicamentos para náusea em um ano foi mais frequente após a cirurgia.

Eventos graves, como pancreatite aguda, tromboembolismo, sepse e lesão renal aguda, apresentaram baixa frequência em todos os grupos.

Quais são as limitações?

Os achados devem ser interpretados com cautela devido:

  • ao desenho observacional;
  • às diferenças basais entre os grupos;
  • à possibilidade de confundimento residual;
  • aos dados ausentes;
  • à avaliação limitada de segurança;
  • ao seguimento de apenas um ano.

Estudos prospectivos e de maior duração são necessários para avaliar a durabilidade dos resultados, a efetividade comparativa em longo prazo e eventos adversos raros.

Mensagem prática

Após um ano, a gastrectomia vertical associou-se à maior probabilidade de alcançar simultaneamente perda ≥ 20% do peso corporal e HbA1c < 5,7%, seguida pela tirzepatida e pela semaglutida.

A cirurgia produziu a maior perda ponderal, enquanto a tirzepatida apresentou a maior probabilidade de normalização glicêmica isolada e a maior redução média da HbA1c.

Na prática, os dados reforçam que cirurgia e medicamentos modernos não devem ser interpretados como estratégias intercambiáveis simples: a gastrectomia vertical teve maior impacto ponderal, enquanto a tirzepatida se destacou no controle glicêmico isolado.

A escolha terapêutica deve considerar perfil clínico, metas de peso e glicemia, risco cirúrgico, preferências do paciente, tolerabilidade, acesso, custo, contraindicações e necessidade de acompanhamento em longo prazo.

Autoria

Foto de Fernando Giuffrida

Fernando Giuffrida

Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com residência médica em Endocrinologia (2003) e doutorado em Ciências (2008) pela mesma instituição. Pós-doutorado no Joslin Diabetes Center/Harvard Medical School. Atua também na graduação médica no Centro Universitário Afya Salvador.

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