A obesidade e o diabetes tipo 2 continuam aumentando em todo o mundo, contribuindo significativamente para morbidade cardiovascular, complicações microvasculares e mortalidade. O efeito cumulativo da obesidade iniciada na juventude contribui para o agravamento deste panorama. Embora intervenções comportamentais e farmacológicas possam melhorar o controle metabólico, a cirurgia metabólica permanece o tratamento mais eficaz para obesidade grave e para obtenção de remissão prolongada do diabetes tipo 2.
O bypass gástrico em Y de Roux (RYGB) promove melhora da homeostase glicêmica por múltiplos mecanismos, incluindo perda ponderal sustentada e restauração da secreção de GLP-1 intestinal, contribuindo para preservação da função das células beta pancreáticas.
Estudos anteriores sugeriram que pacientes mais jovens apresentam maior probabilidade de remissão do diabetes após cirurgia bariátrica. Entretanto, a realização precoce da cirurgia em adultos jovens frequentemente é adiada devido a preocupações relacionadas a riscos cirúrgicos, complicações nutricionais e potenciais vulnerabilidades psicossociais. Os autores propuseram a hipótese de que adultos entre 18 e 35 anos apresentariam taxas mais elevadas de remissão do diabetes após RYGB, sem aumento correspondente de morbidade.
Deste modo, um grupo de pesquisadores franceses e suíços realizou o presente estudo, com o objetivo de comparar os resultados do RYGB em adultos jovens com adultos mais velhos. Os achados foram publicados no periódico Diabetologia em 2026.

Métodos
Foi realizado um estudo multicêntrico de coorte pareada utilizando registros prospectivos de três centros especializados localizados na Suíça e na França. Foram incluídos adultos com obesidade e diabetes tipo 2 que não utilizavam insulina, submetidos a RYGB entre 1998 e 2018.
Os participantes jovens (18–35 anos) foram pareados em proporção 1:2 com indivíduos acima de 35 anos de acordo com duração pré-operatória do diabetes, sexo, IMC e escore de estado físico da American Society of Anesthesiologists (ASA). Pacientes em uso de insulina foram excluídos, pois geralmente apresentam doença mais avançada e maior comprometimento da função das células beta.
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A remissão do diabetes foi definida de forma rigorosa como glicemia de jejum inferior a 100 mg/dL e HbA1c inferior a 6,0%, na ausência de qualquer medicação antidiabética. Os participantes foram acompanhados em consultas periódicas até cinco anos após a cirurgia. Também foram avaliadas perda de peso, remissão de comorbidades relacionadas à obesidade, deficiências nutricionais e complicações cirúrgicas.
Resultados
Foram incluídos 201 pacientes: 67 adultos jovens (idade média 29,5 anos) e 134 adultos mais velhos (idade média 48 anos). As características utilizadas para pareamento foram semelhantes entre os grupos no início do estudo.
A taxa de comparecimento ao acompanhamento de cinco anos foi elevada e semelhante entre os grupos: 79,1% nos adultos jovens e 76,9% nos adultos mais velhos. A remissão do diabetes tipo 2 foi significativamente mais frequente nos adultos jovens. Após cinco anos, 79,2% dos pacientes jovens encontravam-se em remissão, comparados a 56,3% dos pacientes mais velhos.
Além de ocorrer com maior frequência, a remissão foi alcançada mais precocemente. O tempo mediano até a remissão foi de apenas 6 meses nos adultos jovens, em comparação com 24 meses nos adultos mais velhos.
Na análise multivariada, idade abaixo de 35 anos foi um preditor independente de remissão do diabetes, aumentando em praticamente 3 vezes a chance deste desfecho. Esse efeito permaneceu mesmo após ajuste para fatores tradicionalmente associados à remissão, como HbA1c pré-operatório, duração do diabetes e número de medicamentos antidiabéticos.
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A perda de peso foi praticamente idêntica entre os grupos. A redução percentual média do peso corporal foi de 27,7% nos adultos jovens e 27,1% nos adultos mais velhos. Da mesma forma, não houve diferenças significativas em outras métricas de perda de peso. Entre as comorbidades relacionadas à obesidade, os adultos jovens apresentaram taxas superiores de remissão da apneia obstrutiva do sono (100% versus 48,5%) e da hipertensão arterial (100% versus 72,4%).
Quanto à segurança, não foram observadas diferenças significativas nas taxas de complicações cirúrgicas precoces ou tardias. Complicações graves ocorreram em 15,1% dos adultos jovens e em 13,6% dos adultos mais velhos durante os cinco anos de acompanhamento, sem diferença estatisticamente significativa. As deficiências nutricionais apresentaram frequência semelhante nos dois grupos para vitamina B12, ferro, vitamina D e ácido fólico. Apenas a deficiência de vitamina A foi mais comum entre os pacientes jovens (30,2% versus 9,7%). Nenhum óbito relacionado a causas externas, incluindo suicídio ou uso de substâncias, foi registrado durante o acompanhamento.
Conclusões
Neste estudo multicêntrico, a remissão do diabetes tipo 2 após RYGB ocorreu de forma mais precoce e com maior frequência em adultos com menos de 35 anos do que em pacientes mais velhos ao longo de cinco anos de seguimento. A idade jovem mostrou-se um preditor independente de remissão do diabetes após a cirurgia.
Apesar do maior benefício metabólico observado nos adultos jovens, não houve aumento significativo do risco de complicações cirúrgicas, falha de perda ponderal ou deficiências nutricionais globais em comparação com os pacientes mais velhos.
Os autores concluem que o RYGB pode ser realizado com segurança em adultos jovens com obesidade e diabetes tipo 2 não usuários de insulina, oferecendo maiores taxas de remissão do diabetes sem aumento relevante da morbidade pós-operatória.
Autoria

Fernando Giuffrida
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com residência médica em Endocrinologia (2003) e doutorado em Ciências (2008) pela mesma instituição. Pós-doutorado no Joslin Diabetes Center/Harvard Medical School. Atua também na graduação médica no Centro Universitário Afya Salvador.
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