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Endocrinologia24 setembro 2026

O que explica a resposta à semaglutida neste paciente?

Teste seus conhecimentos sobre os fatores que influenciam a variabilidade da perda de peso entre usuários de semaglutida e outros agonistas de GLP-1.
Por Redação Afya

Homem de 58 anos comparece a consulta de seguimento em ambulatório de endocrinologia para reavaliação do tratamento farmacológico da obesidade com semaglutida. Tem diabetes mellitus tipo 2 (DM2) diagnosticado há 11 anos, em uso de metformina. Também tem apneia obstrutiva do sono (AOS) moderada, tratada com pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP), e doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica (MAFLD), identificada por ultrassonografia abdominal que evidenciou esteatose hepática difusa. 

Nega tabagismo, relata etilismo social esporádico e mantém estilo de vida sedentário. Não tem antecedentes de transtorno depressivo ou de ansiedade, e a anamnese dirigida não identifica episódios de compulsão alimentar nem padrão de alimentação emocional.

Há 32 semanas, iniciou semaglutida subcutânea semanal, com escalonamento progressivo até a dose de manutenção de 2,4 mg, associada à orientação nutricional e prescrição de atividade física. Refere adesão regular às aplicações, confirmada pelo registro de dispensação. A tolerância gastrointestinal é satisfatória, com náuseas leves e transitórias restritas ao período de titulação. Relata saciedade precoce, porém percebe perda ponderal inferior à esperada.

Ao exame físico, apresenta peso de 107,5 kg (peso basal de 112 kg), estatura de 1,70 m, índice de massa corporal (IMC) de 37,2 kg/m², circunferência abdominal de 121 cm e pressão arterial de 134/84 mmHg. Observa-se acantose nigricans em região cervical posterior. Os exames laboratoriais mostram hemoglobina glicada (HbA1c) de 7,8% (8,4% antes do início da semaglutida) e glicemia de jejum de 142 mg/dL.

A redução ponderal acumulada corresponde à aproximadamente 4,0% do peso basal, abaixo do limiar de 5%. Isso ocorre apesar de adesão documentada, dose plena e ausência de eventos adversos limitantes.

Saiba mais: Agonistas de GLP-1 na redução de peso e na saúde cardiovascular em obesos

Homem segura nas mãos caneta de semaglutida

Qual é o diagnóstico mais provável?

O diagnóstico mais provável é resposta ponderal subótima à semaglutida, definida neste caso por perda inferior a 5% do peso basal, em paciente com obesidade e sobreposição de comorbidades metabólicas (DM2, AOS e MAFLD). A adesão documentada, a dose plena de 2,4 mg e a boa tolerância afastam falhas de uso como explicação principal. O raciocínio se volta, portanto, para fatores clínicos do próprio paciente que atenuam a eficácia dos agonistas de GLP-1.

Fatores que modulam a resposta terapêutica

A resposta à semaglutida e aos demais agonistas de GLP-1 é modulada por quatro fatores: comorbidades metabólicas, estado emocional, duração do tratamento e classe do fármaco. Essa é a principal conclusão de uma metanálise com metarregressão publicada em 2026 na Clinical Obesity, que incluiu 32 ensaios clínicos randomizados e 40.408 participantes com sobrepeso ou obesidade. 

A redução ponderal média em relação ao controle foi de 9,36%, com heterogeneidade muito elevada entre os estudos. Mesmo a tirzepatida não produziu perda superior a 5% em todos os pacientes.

As comorbidades metabólicas reduzem a eficácia. A prevalência basal de DM2, AOS e MAFLD correlacionou-se negativamente com a perda de peso. Os autores relacionam esse achado a dois mecanismos. O primeiro é a função das células beta pancreáticas, já que o status não diabético e a função beta preservada se associam a maior sucesso terapêutico. O segundo é a resistência insulínica, intimamente ligada à AOS e à MAFLD. 

Ensaios específicos reforçam o padrão: pacientes com esteato-hepatite associada à disfunção metabólica perderam menos peso com semaglutida do que a população do STEP 1, e pacientes com AOS perderam menos com tirzepatida do que os do SURMOUNT-1.

O estado emocional atua em sentido oposto. Ansiedade e depressão basais associaram-se à maior perda ponderal. Uma explicação possível é que esses pacientes apresentam mais alimentação emocional, e os agonistas de GLP-1 reduzem a liberação de dopamina no núcleo accumbens em resposta a alimentos ricos em gordura e açúcar. Esse achado, porém, deriva de apenas três ensaios clínicos.

A duração do tratamento e a classe do fármaco também pesam. Estudos com 72 semanas ou mais mostraram efeito cerca de duas vezes maior que os estudos com menos de 48 semanas. O agonista duplo GLP-1/GIP (tirzepatida) superou os agonistas isolados do receptor de GLP-1.

No caso descrito, vários elementos apontam para menor resposta esperada: DM2, AOS e MAFLD simultâneas, ausência de transtorno do humor e apenas 32 semanas de uso. Essa resposta, no entanto, ainda não é definitiva. A fonte recomenda avaliar de forma abrangente o estado emocional e as comorbidades metabólicas para individualizar o plano terapêutico com fármacos baseados em incretinas. Ela não estabelece critérios formais de troca de medicação.

Vale salientar que fatores como IMC e peso basal, idade e sexo não apresentaram evidência estatística clara de modificação da resposta. Além disso, mesmo entre os fatores que apresentaram associação positiva estatisticamente significativa, os resultados não permitem estabelecer uma relação de causalidade.

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.

Autoria

Foto de Redação Afya

Redação Afya

Equipe de Jornalistas da Afya.

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