Cada vez mais escutamos falar em suplementos para repor possíveis carências nutricionais. É difícil encontrar alguém que não tome alguma cápsula diariamente para corrigir alguma possível deficiência ou como forma de prevenção. Baseado na importância desse tema, a The New England Journal of Medicine, divulgou um artigo sobre a abordagem dos micronutrientes, desde a suas necessidades e correção de seus níveis quando são insuficientes. Segue abaixo um breve resumo dele.
O principal objetivo do artigo foi promover uma visão geral das principais questões na avaliação, intervenção e pesquisa em relação aos micronutrientes para os profissionais de saúde.
Os micronutrientes são definidos como nutrientes essenciais para saúde e sobrevivência em ínfimas quantidades. Eles são categorizados em vitaminas hidro e lipossolúveis e minerais vestigiais cuja quantidade mínima diária é inferior a 100 mg.
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Historicamente, a partir da década de 80, a importância dos micronutrientes passou a ser bem reconhecida, visto que deficiências severas demonstraram ser capazes de gerar sintomatologia relevante. Desde então, múltiplos estudos vêm sendo realizados com o intuito de avaliar a importância da ingestão diária adequada e intervenções efetivas quando há carência deles.
A avaliação da adequação de micronutrientes é geralmente feita pela ingestão de alimentos-fontes.
Biomarcadores
Biomarcadores do status dos micronutrientes têm valores de corte que podem refletir deficiência, depleção ou status limítrofe. Muitos desses biomarcadores ainda são pobres em refletir o status nutricional e, na maioria das vezes, devemos avaliar uma faixa de valores considerada adequada e não um valor absoluto.
A seguir seguem alguns níveis que podem ser considerados de ingestão inadequada:
- Vitamina A < 0,7 µmol/l
- Vitamina D < 30 nmol/l
- Vitamina E < 12 µmol/l
- Vitamina B2 < 1.2 a 1.4 (marcador: coeficiente de atividade da eritrócito-glutationa redutase).
- Vitamina B3 < 5.8 µmol/dia
- Vitamina B6 <20 a 30 nmol/l
- Vitamina B9 < 400 nmol/l
- Vitamina B12 < 221pmol/l
- Ferro –Ferritina < 30 µg/l
- Zinco < 11 µmol/l
- Iodo <100 µg/l
Nos Estados Unidos, os suplementos considerados impactantes na saúde são: cálcio e vitamina D para redução da perda de massa óssea, ácido fólico para redução do risco de espinha bífida, ômega 3 para redução de doenças cardíacas e complexo envolvendo vitaminas C, E e zinco para redução de degeneração macular relacionada à idade.
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Em 2018, a Academia de Nutrição e Dieta Norte-americana publicou que os suplementos de micronutrientes devem ser prescritos quando não obtidos de forma suficiente apenas pela dieta. Fatores que aumentam a demanda incluem crescimento, doenças crônicas, alguns medicamentos, doenças disabsortivas, gestação, lactação e idade. O uso indiscriminado como forma de prevenção de doenças não é recomendado devido a falta de evidência científica suficiente que suporte tal uso.
Segue abaixo alguns fatores que podem contribuir para tais deficiências e as principais considerações sobre tais micronutrientes.
- Vitamina D: Baixa ingesta de cálcio, pele escura, baixa exposição à raios UVB.
A deficiência de vitamina D é uma das carências mais comuns nos EUA. Ainda há uma certa polêmica sobre os níveis ideais, porém a Academia Nacional de Medicina dos EUA, a Fundação Nacional dos EUA de Osteoporose e a Sociedade Americana de Geriatria definem que valores inferiores a 30 nmol/litro são classificados como deficiência. A recomendação é de uma ingestão diária de 400 UI para crianças até 2 anos, 600 UI de vitamina D para pessoas até 70 anos e de 800 UI para aqueles com mais de 70 anos. Uma dose diária de até 4000UI é considerada segura, porém doses superiores a essa estão associadas a aumento de nefrolitíase, fraqueza muscular e transtornos gastrointestinais.
- Vitamina B12: Dieta vegana ou vegetariana, doenças disabsortivas, anemia perniciosa e uso de metformina.
Como a vitamina B12 é oriunda apenas de alimentos de origem animal, pessoas com dieta vegana ou vegetariana precisam de suplementação. A deficiência materna de B12 acaba gerando baixas concentrações também no leite materno com consequências de atrasos permanentes no desenvolvimento das crianças. Outras condições associadas a sua deficiência são doenças disabsortivas e pacientes submetidos a cirurgia gástrica de by-pass. As doses diárias recomendadas variam de 500 a 1000 µg/dia.
- Antioxidantes: Baixa ingesta de frutas de vegetais.
Alguns antioxidantes como vitamina C e E foram estudados em diversos ensaios clínicos para avaliação de redução do risco de câncer, doença cardíaca de outras doenças crônicas, porém tais benefícios ainda não foram elucidados. Até o momento, o benefício mais claro é de retardar a perda visual em pacientes com degeneração macular associada a idade.
- Ferro: Baixa ingesta de carne e peixe, fluxo menstrual intenso, gestação e infância.
A depleção de ferro na gestação pode afetar os estoques fetais de ferro com risco para baixo peso ao nascimento. A Academia Pediátrica Americana recomenda suplementação de ferro oral na dose de 1mg/kg de peso até introdução de alimentos contendo ferro.
- Folato: Desordens relacionadas ao uso de álcool, raça hispânica, doenças disabsortivas e mutações na enzima metilenotetrahidrofolato- redutase.
A deficiência de folato é uma desordem mais rara atualmente. Doses acima de 100ug/dia geram preocupações sobre os níveis de vitamina B12 e não são recomendadas de rotina.
Conclusão e mensagem prática
Em suma, a suplementação de micronutrientes não deve ser feita de maneira rotineira e indiscriminada se o paciente for saudável e ingerir as fontes adequadas diariamente dos alimentos que os contém.
Cabe ao profissional de saúde estar a par sobre as principais atualizações sobre os micronutrientes e indicar a suplementação quando de fato for necessária.
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