A obesidade no Brasil cresceu 118% entre 2006 e 2024, segundo dados atualizados do Vigitel, inquérito anual do Ministério da Saúde. Atualmente, 25,7% dos adultos brasileiros vivem com a doença, o equivalente a 1 em cada 4 pessoas. Quando considerado o sobrepeso (IMC acima de 25 kg/m²), o índice atinge 62,6% da população.
O avanço foi mais expressivo entre adultos de 25 a 34 anos e entre mulheres, além de indivíduos com ensino médio completo ou superior incompleto. O cenário acende um alerta para o impacto futuro nas doenças crônicas associadas, como diabetes tipo 2, hipertensão e enfermidades cardiovasculares.

Brasil acima da média global
Os números brasileiros superam a média mundial. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 16% dos adultos no planeta vivem com obesidade e 43% apresentam sobrepeso, proporções inferiores às registradas no país.
Dados de 2025 do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), baseados nos atendimentos da atenção primária do SUS, sugerem um quadro ainda mais grave fora das capitais: 36,3% dos adultos acompanhados tinham obesidade e 70,9% estavam acima do peso.
Entre os estados, o Rio Grande do Sul lidera o ranking, com 42% de adultos com obesidade, seguido pelo Rio de Janeiro (40,6%). Maranhão (26,8%) e Piauí (29,5%) apresentam os menores percentuais.
Jovens, mulheres e o fator tempo
Do ponto de vista clínico e metabólico, o crescimento acelerado entre adultos jovens e mulheres tem explicações comportamentais e estruturais.
Segundo a endocrinologista Dra. Juliane Braziliano, entre os jovens há uma cultura marcada pelo imediatismo e pela busca por praticidade. “Observamos menor envolvimento com o preparo da própria comida, enquanto as redes sociais ampliam a exposição constante a alimentos ultraprocessados, altamente calóricos e de fácil acesso. Essa combinação favorece o ganho de peso”, diz.
No caso das mulheres, soma-se o impacto da chamada “tripla jornada” – trabalho formal, cuidado com a família e responsabilidades domésticas. “Essa rotina intensa dificulta organizar a alimentação e manter atividade física regular. A sobrecarga contribui para o crescimento expressivo da obesidade nesse grupo”, ressalta Dra. Juliane.
Ultraprocessados, sono ruim e sedentarismo
Mudanças no padrão alimentar ajudam a explicar o fenômeno. O consumo regular de feijão caiu de 66,8% em 2007 para 56,4% em 2024. Já 25,5% dos brasileiros relatam ingerir cinco ou mais grupos de ultraprocessados por dia, enquanto apenas 21% consomem a quantidade recomendada de frutas e hortaliças.
Menos da metade pratica atividade física no lazer (42,3%) e apenas 12% se exercitam no deslocamento diário. O sono também preocupa: 20,2% dormem menos de seis horas por noite e 31,7% relatam sintomas de insônia, fatores associados à resistência à insulina e à desregulação hormonal da fome e saciedade.
Para a endocrinologista, as políticas públicas ainda falham ao ignorar um determinante central: o tempo. “Problemas como transporte público ineficiente fazem com que muitas pessoas passem horas em deslocamento, reduzindo o tempo disponível para preparar refeições e praticar atividade física. Sem tempo, é difícil sustentar mudanças de estilo de vida”, afirma.
Ela defende maior articulação entre poder público e setor privado, com flexibilização de jornadas e políticas que promovam qualidade de vida.
Tratamento, inovação e desigualdade de acesso
O tratamento da obesidade envolve mudanças no estilo de vida, acompanhamento multiprofissional, medicamentos e, em casos mais graves, cirurgia bariátrica. As novas terapias injetáveis ampliaram as opções, mas o custo – que pode chegar a R$ 2 mil mensais – ainda limita o acesso. Dos seis medicamentos aprovados pela Anvisa, nenhum está disponível no SUS.
“Medicamentos mais recentes tendem a ser caros e não são incorporados imediatamente ao sistema público. Mas a ausência dessas terapias não pode significar ausência de tratamento”, afirma a especialista. Ela destaca a importância de ampliar o acesso a medicamentos já consolidados, além de fortalecer programas estruturados de acompanhamento nutricional e psicológico.
“Equilibrar inovação, custo e justiça social exige priorização estratégica: ampliar o que já é viável hoje, enquanto se avalia a incorporação gradual das terapias mais avançadas”, reitera a endocrinologista.
De acordo com a especialista, o avanço da obesidade no Brasil não é apenas reflexo de escolhas individuais, mas de um ambiente que dificulta decisões saudáveis. Combater essa tendência exige, portanto, ação coordenada, clínica, social e política.
Autoria

Roberta Santiago
Roberta Santiago é jornalista desde 2010 e estudante de Nutrição. Com mais de uma década de experiência na área digital, é especialista em gestão de conteúdo e contribui para o Portal trazendo novidades da área da Saúde.
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