Esse estudo busca avaliar a Dapagliflozina na doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, bem como controle glicêmico, peso e segurança em pacientes com diabetes tipo 2, ao longo de 12 meses.
A coexistência entre diabetes tipo 2 (T2DM) e a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD) é frequente e, muitas vezes, subestimada na prática clínica: entre pacientes com T2DM, a prevalência de MASLD varia de 55% a 65%. A ligação fisiopatológica entre o DM2 e a MASLD é explicada principalmente pela resistência à insulina, uma característica central de ambas as condições. Ela favorece o acúmulo de triglicerídeos no fígado e, com o tempo, a progressão para esteato-hepatite (MASH), fibrose avançada e cirrose, sendo o estágio de fibrose o principal preditor histológico de mortalidade nesses pacientes.
Diante da ausência de terapia farmacológica aprovada globalmente para MASH ou fibrose hepática, o reaproveitamento de antidiabéticos com efeitos pleiotrópicos tem ganhado espaço. Como os inibidores do cotransportador sódio-glicose 2 (SGLT2) já possuem benefícios renais e cardiovasculares, até pelo seu mecanismo de ação, questiona-se que esses agentes possam também promover melhora da esteatose e da fibrose hepáticas por meio de diferentes mecanismos, incluindo a redução da resistência à insulina, a diminuição da lipogênese hepática, a atenuação da glicotoxicidade, o aumento da excreção calórica e a atuação sobre processos inflamatórios e fibróticos.
Este é um estudo pré-especificado de braço único, derivado de um ensaio clínico randomizado conduzido na Índia, que avaliou por 12 meses o impacto da Dapagliflozina (10 mg ao dia) sobre a esteatose e a fibrose hepática, além de parâmetros metabólicos, em pacientes com T2DM e MASLD.

Avaliação dos pacientes e da esteatose e fibrose hepática com elastografia
O estudo incluiu 54 adultos com T2DM e esteatose hepática confirmada por ultrassonografia: idade entre 18 e 70 anos, com ou sem elevação de aspartato aminotransferase (AST) ou alanina aminotransferase (ALT), foram elegíveis para inclusão, randomizados para Dapagliflozina 10 mg/dia associada a orientação dietética estruturada. Foram excluídos pacientes com HbA1c acima de 9%, uso recente de outros agentes com efeito hepático, como Pioglitazona, Saroglitazar ou vitamina E, consumo significativo de álcool e outras hepatopatias crônicas. Dos participantes alocados para Dapagliflozina, 50 (92,6%) completaram os 12 meses de acompanhamento e compuseram a análise por protocolo.
Os desfechos primários foram a esteatose hepática, medida pelo parâmetro de atenuação controlada (CAP), e a fibrose, avaliada pela rigidez hepática (LSM), ambos obtidos por elastografia hepática transitória nos meses 0, 3, 6 e 12. Desfechos secundários incluíram peso, índice de massa corporal, circunferência abdominal, glicemia, HbA1c, perfil lipídico, transaminases e dois escores séricos de fibrose, o NFS e o FIB-4. As comparações entre o início e o fim do seguimento foram feitas por teste t pareado, com análise de variância para as quatro medidas repetidas.
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Então a Dapagliflozina reduz rigidez hepática em diabéticos?
Ao final de 12 meses, o CAP caiu de 316,7 para 245,7 dB/m, variação média de −71,02 dB/m (IC95% −63,4 a −78,6; p < 0,001), deslocando a maioria dos pacientes da faixa de esteatose moderada a grave para graus leves: ao final do estudo, 78% apresentavam ausência de esteatose ou grau leve pelo CAP, contra nenhum paciente nessa faixa no início do seguimento. A rigidez hepática, medida pelo LSM, também diminuiu de forma significativa, de 8,59 para 7,28 kPa, variação média de −1,31 kPa (IC95% −0,92 a −1,70; p < 0,001), valor que se aproxima do limiar habitualmente associado à fibrose avançada.
Os escores séricos de fibrose acompanharam essa tendência, com redução estatisticamente significativa do NFS e do índice FIB-4. Houve ainda melhora consistente no controle glicêmico, com HbA1c caindo de 7,78% para 6,73%, redução de peso de 4,30 kg, de circunferência abdominal, de colesterol total, triglicerídeos e LDL, além de normalização parcial das transaminases. Mudanças que, segundo os autores, sugerem um efeito pleiotrópico da molécula sobre o fígado, e não apenas um reflexo do melhor controle glicêmico. Quanto à segurança, infecções genitourinárias foram os eventos adversos mais frequentes, ocorrendo em 32% dos participantes, principalmente infecção urinária e balanopostite, todas leves a moderadas e sem necessidade de internação; nenhum paciente interrompeu o tratamento por efeitos adversos e não houve eventos adversos graves.
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Se benefícios se sustentarem, inibidor de SGLT2 ganha espaço no diabetes tipo 2 e possível benefício adjuvante na MASLD
Os próprios autores destacam limitações relevantes: trata-se de uma análise de braço único, sem grupo comparador concorrente, o que impede atribuir com certeza os resultados exclusivamente à Dapagliflozina, já que a orientação dietética estruturada, a regressão à média e a evolução natural da doença também podem ter contribuído. O desenho foi aberto, a amostra foi obtida em um único centro na Índia, e a fibrose foi avaliada apenas por métodos não invasivos, sem confirmação por biópsia hepática. Ainda assim, os desfechos primários, CAP e LSM, são medidas objetivas e quantitativas, o que reduz o risco de viés de aferição mesmo em um estudo aberto.
Para o médico que acompanha pacientes com diabetes tipo 2 em ambulatório, o estudo reforça um racional já sugerido por evidências prévias: entre as opções antidiabéticas, o inibidor de SGLT2 se destaca por associar controle glicêmico a benefícios hepáticos e ponderais em quem também tem MASLD.
Na prática, isso reforça a importância de investigar esteatose hepática em todo paciente diabético e de considerar a Dapagliflozina como parte do arsenal terapêutico nesse perfil, com aconselhamento ativo sobre sintomas geniturinários, especialmente em climas quentes e úmidos como o brasileiro. Estudos comparativos e de maior duração ainda são necessários para confirmar se esse benefício se traduz em menor progressão para cirrose.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
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Autoria

Júlia Terra Knifis
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