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Endocrinologia27 fevereiro 2026

Dados sobre rebote metabólico após interrupção de análogos do GLP-1

Um estudo avaliou a interrupção dos análogos do GLP-1 e seus efeitos nos principais parâmetros metabólicos.
Por Ícaro Sampaio

A interrupção do tratamento com agonistas do receptor de GLP-1 é um tema cada vez mais relevante na prática clínica, especialmente diante da ampla expansão do uso dessas medicações no manejo da obesidade e do diabetes mellitus tipo 2 (DM2). Embora os benefícios metabólicos durante o tratamento sejam bem estabelecidos, sempre existiu a dúvida sobre o que ocorre após a suspensão do fármaco. O estudo Metabolic rebound after GLP-1 receptor agonist discontinuation buscou responder a essa questão, trazendo dados que merecem atenção cuidadosa.

Rebote metabólico após GLP-1

Trata-se de uma revisão sistemática com meta-análise que incluiu 18 ensaios clínicos randomizados, totalizando 3.771 participantes, acompanhados por pelo menos 12 semanas após a descontinuação planejada de agonistas de GLP-1. Foram avaliados indivíduos com obesidade, DM2 e, em menor número, diabetes mellitus tipo 1 (DM1). O objetivo foi quantificar a magnitude do rebote metabólico após o término do tratamento, analisando desfechos antropométricos, glicêmicos, hemodinâmicos e lipídicos.

Os resultados mostram de forma consistente que a suspensão do GLP-1 RA está associada à perda relevante dos benefícios previamente alcançados. Em indivíduos com obesidade, observou-se um ganho médio de peso de aproximadamente 5,6 kg após a interrupção, acompanhado por aumento do IMC, da circunferência abdominal e da pressão arterial sistólica. Além disso, houve piora do controle glicêmico, com elevação média da HbA1c em torno de 0,25%. Esses achados reforçam que o efeito do GLP-1 RA sobre peso e metabolismo não se sustenta na ausência do estímulo farmacológico contínuo.

No DM2, embora o ganho ponderal tenha sido numericamente menor, em torno de 2 kg, a repercussão glicêmica foi mais expressiva, com aumento médio da HbA1c de 0,65%. Curiosamente, a glicemia de jejum não apresentou elevação significativa, o que sugere que a retirada do GLP-1RA impacta mais o controle glicêmico global do que parâmetros pontuais, possivelmente em função da perda do efeito sobre glicemia pós-prandial e secreção dependente de glicose. Nos poucos estudos envolvendo diabetes tipo 1, também se observou piora da HbA1c após a suspensão, embora os dados devam ser interpretados com cautela devido ao tamanho amostral reduzido.

Leia também: Agonistas de GLP-1 em idosos: metanálise traz novidades

Um aspecto particularmente relevante do estudo foi a análise de subgrupos. O rebote metabólico foi mais intenso quanto maior o tempo de seguimento após a interrupção, sugerindo que a recuperação de peso e a deterioração metabólica são progressivas e não um fenômeno transitório. Além disso, a suspensão da semaglutida esteve associada a maior ganho de peso, maior aumento da circunferência abdominal e elevação mais acentuada da pressão arterial sistólica quando comparada à liraglutida. Esse achado levanta a hipótese de que agentes mais potentes e de ação prolongada possam induzir adaptações fisiológicas que resultam em maior dificuldade de manutenção dos benefícios após a retirada.

Do ponto de vista fisiopatológico, o estudo reforça a ideia de que o rebote observado não se deve apenas à perda de adesão a mudanças comportamentais, mas sim a mecanismos biológicos bem descritos, como aumento do apetite, reversão do atraso do esvaziamento gástrico e ativação de respostas contrarregulatórias após a retirada do estímulo do GLP-1. A estabilidade observada nos grupos placebo fortalece essa interpretação.

Esse estudo contribui de maneira importante para reforçar que, no manejo da obesidade e do diabetes, a discussão não deve se limitar ao início da terapia, mas também à sua continuidade e, quando necessário, à forma como será interrompida.

Veja mais: Diretriz ADA 2026: GLP-1 no diabetes tipo 1 e obesidade

Autoria

Foto de Ícaro Sampaio

Ícaro Sampaio

  • Graduação em medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco
  • Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro - BA
  • Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE
  • Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
  • Médico Assistente e Preceptor no Serviço de Endocrinologia do Hospital das Clínicas da UFPE

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