Em dezembro de 2025, foram publicadas as diretrizes anuais para tratamento do diabetes mellitus da American Diabetes Association (ADA). As recomendações da ADA são válidas para o ano de 2026 e costumam nortear as condutas adotadas para manejo da hiperglicemia, suas complicações e condições associadas. No documento publicado uma grande novidade chamou a atenção: uma recomendação sobre uso de medicamentos agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1 RA) em pacientes com diabetes tipo 1 e obesidade.

GLP-1 e diabetes tipo 1
A prevalência de sobrepeso (30–40%) e obesidade (15–30%) em pessoas com DM1 é semelhante à da população geral. No entanto, em indivíduos com DM1, a obesidade se associa a maior carga de doença cardiovascular e complicações microvasculares. Infelizmente, ainda há grande necessidade de intervenções específicas baseadas em evidência para o tratamento da obesidade no DM1, mas estudos transversais e ensaios iniciais mostram resultados positivos do uso de GLP-1 RA e cirurgia metabólica em pessoas com DM1 e obesidade.
Embora pessoas com DM1 tenham sido excluídas da maioria dos grandes ensaios clínicos sobre perda de peso com GLP-1 RA em obesidade ou DM2, dados do “mundo real” sugerem benefícios em redução de peso, melhora de HbA1c e menores necessidades de insulina.
Os ensaios ADJUNCT ONE e ADJUNCT TWO avaliaram liraglutida em diferentes doses por 52 e 26 semanas em pessoas com DM1 de longa duração. A dose de 1,8 mg/dia associou-se a redução de aproximadamente 6% do peso. Entretanto, houve aumento de 20–30% nas taxas de hipoglicemia em todas as doses e duplicação do risco de hiperglicemia com cetose na dose de 1,8 mg. Fatores como redução do apetite, menor ingestão calórica e redução das doses de insulina parecem contribuir para o risco de cetose associado ao uso de GLP-1 RA.
Podem favorecer o benefício do tratamento com GLP-1 RA no DM1:
– Apneia obstrutiva do sono;
– MASH (doença hepática metabólica com inflamação);
– Doença arterial coronariana.
Condições que geralmente desestimulam o início da terapia:
– Gastroparesia preexistente;
– Histórico de hipoglicemias assintomáticas;
– Episódio recente de cetoacidose diabética ou cetoacidose euglicêmica.
Conclusões
A decisão de iniciar um GLP-1 RA em paciente com DM1 deve ser precedida de revisão detalhada dos efeitos adversos e conversa centrada na pessoa sobre objetivos e expectativas. Os protocolos de escalonamento de dose validados para DM2 não devem ser aplicados ao DM1. A titulação deve ser mais cautelosa e acompanhada de monitorização frequente de insulina e hipoglicemias.
Autoria

Ícaro Sampaio
- Graduação em medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco
- Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro - BA
- Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE
- Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
- Médico Assistente e Preceptor no Serviço de Endocrinologia do Hospital das Clínicas da UFPE
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