O lipedema passou a ser formalmente reconhecido como uma doença crônica. A definição foi consolidada no primeiro consenso internacional da Lipedema World Alliance, que estabelece critérios comuns para diagnóstico e manejo e pode mudar a forma como a condição é compreendida na prática clínica.
Além de padronizar conceitos, o documento diferencia de forma objetiva o lipedema da obesidade, ponto considerado central para evitar classificações inadequadas e condutas imprecisas.
“O consenso é de extrema relevância para nossa prática clínica e oferece critérios clínicos mais bem delimitados para os médicos. O lipedema passa a ser reconhecido de forma mais estruturada como uma doença crônica do tecido adiposo, com base inflamatória, componente microvascular e influência hormonal, e não apenas como uma variação estética ou uma forma de obesidade desproporcional”, afirma a Dra. Júlia Knitis, endocrinologista e editora do Afya Whitebook.
A construção do consenso reuniu especialistas de 19 países e resultou em 59 afirmações consensuais que abordam definição, fisiopatologia, critérios diagnósticos, impacto na qualidade de vida, estratégias terapêuticas e perspectivas futuras de investigação.
Nesse contexto, o documento busca impulsionar a pesquisa relacionada ao lipedema ao destacar a necessidade de critérios diagnósticos claros, enfatizar a importância da padronização dos relatos e servir como um recurso para engajar grandes e tradicionais agências de fomento à pesquisa em saúde no reconhecimento da doença como uma desigualdade em saúde da mulher que demanda atenção.
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Diagnóstico permanece clínico
Não existem exames laboratoriais, genéticos ou de imagem oficialmente validados para confirmação do lipedema. A ausência de testes objetivos, portanto, contribuiu historicamente para atrasos diagnósticos, associados a maior carga de sintomas, pior qualidade de vida e aumento de custos para pacientes e sistemas de saúde.
O aumento da divulgação do lipedema na mídia trouxe mais um desafio: o diagnóstico da doença pode ser tendencioso, sendo necessário considerar os diagnósticos diferenciais, como a lipohipertrofia, obesidade, linfedema, fleboedema, edema de estase e fibromialgia.
Para a Dra. Júlia, considerar o lipedema como doença crônica é importante para o tratamento direcionado para a patologia, abordagem multidisciplinar e estruturada, individualizada e baseada em evidências. Além disso, ajuda a reduzir estigmas e culpabilização do paciente.
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Relevância epidemiológica
No Brasil, uma pesquisa publicada em 2022 constatou que a prevalência do lipedema na população de mulheres brasileiras é de 12,3%. Estima-se que 8,8 milhões de mulheres adultas brasileiras entre 18 e 69 anos podem ser portadoras dos sintomas sugestivos do diagnóstico de lipedema.
Além disso, dados do Jornal Vascular Brasileiro indicam que 38,7% das brasileiras com lipedema relatam sintomas de depressão e 61,3% de ansiedade, evidenciando o impacto funcional e psicossocial da condição.
Ao consolidar o reconhecimento do lipedema como doença crônica, o consenso estabelece base conceitual para aprimorar o diagnóstico, orientar condutas e fortalecer o debate sobre organização assistencial e políticas de saúde voltadas à população feminina.
“Pacientes antes que eram tratados apenas como obesidade, ou tendo um padrão de distribuição de gordura diferente, hoje podem ter o diagnóstico mais precoce”, diz a Dra. Júlia. “Isso pode evitar quadros mais graves e avançados do lipedema, que comprometem a qualidade de vida e muitas vezes grau de mobilidade e funcionalidade do paciente”.
Autoria
Gabriela Costa
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