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Endocrinologia14 outubro 2026

Agonistas de GLP-1: o que influencia a perda de peso na obesidade?

Meta-análise investiga como comorbidades metabólicas, fatores emocionais e duração do tratamento influenciam a resposta aos agonistas de GLP-1 e duplos agonistas

Os análogos de GLP-1/GIP vêm ganhando papel de grande destaque no tratamento do diabetes mellitus tipo 2 e da obesidade. No entanto, a heterogeneidade da perda de peso entre os pacientes que fazem uso de tais medicações ainda permanece incerto. Nesse cenário, uma recente meta-análise foi publicada com o intuito de tentar identificar os fatores que pudessem influenciar nessa diversidade. Vamos ver o que temos de informações relevantes. 

Por que a perda de peso com agonistas de GLP-1 varia entre pacientes? 

Os análogos de GLP-1/GIP emergiram como primeira linha de tratamento para pacientes com obesidade e DM2. Além do efeito hipoglicemiante por meio da melhora da secreção de insulina estimulada pela glicose, eles também atuam no hipotálamo por aumentar a saciedade e retardar o esvaziamento gástrico, reduzindo a ingestão de alimentos e levando à perda ponderal. 

A presente meta-análise tem como objetivo identificar potenciais fatores associados à eficácia da perda de peso em pacientes com sobrepeso ou obesidade e em uso de análogos de GLP-1/GIP. 

Meta-análise avalia fatores associados à resposta aos agonistas de GLP-1 

Em base de dados eletrônicos, foram pesquisados artigos até a data de 01 de fevereiro de 2026.  

Os critérios de inclusão foram: ensaios clínicos randomizados (ECRs) que tinham pacientes com sobrepeso/obesidade diagnosticados com base nos critérios reconhecidos (ex: sobrepeso  =  IMC ≥ 25 kg/m² e Obesidade =  IMC ≥ 30 kg/m²); os grupos de intervenção deveriam estar em uso de algum análogo de GLP-1/GIP aprovado pelo FDA; os grupos-controle recebiam placebo ou Metformina; os desfechos primários eram focados na perda de peso e o a duração do tratamento era de pelo menos 12 semanas. 

Já os critérios de exclusão foram: revisões, editoriais, comentários, resumos; estudos com participantes com menos de 18 anos; estudos não humanos e que não foram publicados na língua inglesa. 

Tirzepatida e duplos agonistas apresentam maior perda de peso 

Foram selecionados 32 ECRS para análise do desfecho de interesse. 23.369 participantes com sobrepeso/obesidade participaram dos grupos de intervenção, enquanto 17.039 participaram do grupo placebo. 

3.457 receberam Liraglutida, 13.667 receberam Semaglutida, 344 receberam Semaglutida oral, 232 Survodutida, 740 Mazdutida e 4.939 Tirzepatida. 

A perda de peso variou com as medicações, sendo a Tirzepatida com a perda de peso mais significativa. Apesar da heterogeneidade de cada subgrupo analisado, os duplos agonistas se mostraram superiores na perda de peso quando comparados aos agonistas de GLP-1. 

A duração dos estudos foi outro fator importante, sendo os estudos com duração > 72 semanas, os que mostraram maior benefício na perda ponderal. 

Ansiedade e depressão foram transtornos associados a sobrepeso/obesidade que demonstraram impacto positivo na perda ponderal. Esse resultado indicou que, para cada aumento de 1% na proporção de pacientes com ansiedade ou depressão basal, a porcentagem de perda de peso aumenta, em média, 0,024% em comparação com o grupo controle. 

Já outras condições como DM2, esteatose hepática e síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS), demonstraram impacto negativo. Quando a proporção de pacientes com diabetes no início do estudo aumentou 1%, e a eficácia na perda de peso diminuiu, em média, 0,036% em comparação com o grupo controle. Já para a SAOS, quando a proporção basal de SAOS aumentou em 1%, a eficácia da perda de peso diminuiu em 0,088%. Por fim, para esteatose hepática, para cada aumento de 1% na proporção de pacientes com MAFLD, a eficácia da perda de peso diminuiu 0,123%. 

Ansiedade e depressão podem modificar a resposta ao tratamento da obesidade 

Os análogos de GLP-1/GIP revolucionaram o tratamento da obesidade. No entanto, mesmo em vigência de excelentes medicações ainda há um percentual pequeno de pacientes que falha no processo de perda ponderal. 

Pesquisadores acharam que níveis baixos de leptina estavam correlacionados com melhor efeito de perda ponderal em adolescentes e adultos em uso de análogos, indicando que  os hormônios relacionados a apetite e saciedade contribuem para a modulação de comportamentos alimentares diferentes. 

A presente meta-análise constatou que pacientes com obesidade, acompanhados de depressão e ansiedade, respondiam melhor ao tratamento do que aqueles acompanhados de DM2, SAOS ou esteatose hepática, sugerindo que fatores psiquiátricos e condições metabólicas podem afetar a eficácia das drogas anti-obesidade em caminhos biológicos distintos. 

Para pacientes com ansiedade e depressão, os análogos de GLP-1/GIP atuam não só na supressão do apetite a nível hipotalâmico, bem como ao penetrar na barreira hemato-encefálica, agem no centro de recompensa; reduzindo a liberação de dopamina em resposta à alimentos riscos em gordura e açúcar, podendo explicar a diferença da perda de peso nesse perfil de pacientes. 

Já os pacientes com DM2, SAOS e/ou esteatose hepática, a menor perda de peso pode ser justificada por uma menor reserva de células β pancreáticas, aumentando a resistência insulínica e dificultando a perda ponderal. 

Como qualquer estudo, esse também contou com algumas limitações tais como: muita heterogeneidade entre os estudos, tempos de seguimento muito variáveis , diferentes abordagens em relação à mudança de estilo de vida, entre outros. 

Como individualizar o tratamento da obesidade na prática clínica? 

Em suma, o presente estudo sugere que condições emocionais e metabólicas como DM2, SAOS, ansiedade, depressão e MAFLD são fatores importantes que podem influenciar as diferenças interindividuais dos pacientes em tratamento de perda de peso com análogos de GLP-1/GIP. 

No âmbito clínico, é fundamental compreender o paciente como um todo, tanto no sentindo emocional quanto na análise de comorbidades metbólicas associadas de forma a promover um plano terapêutico personalizado para perda de peso efetiva baseada no uso dos análogos.

Autoria

Foto de Juliane Braziliano

Juliane Braziliano

Editora médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atuação na Afya e em consultório particular, além de telemedicina.

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