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Endocrinologia18 maio 2026

Agonistas de GLP-1 e levotiroxina: uma interação silenciosa na prática clínica

Uso crescente de agonistas de GLP-1 pode impactar o manejo do hipotireoidismo, alterando a necessidade e a absorção da levotiroxina.

O uso de agonistas do receptor de GLP-1 tem crescido exponencialmente nos últimos anos, impulsionado pelos seus benefícios robustos no tratamento do diabetes tipo 2 e, sobretudo, da obesidade. Esse cenário traz novos desafios clínicos, especialmente em pacientes com hipotireoidismo em uso de levotiroxina, já que a perda ponderal significativa e os efeitos farmacológicos desses agentes — como o retardo do esvaziamento gástrico — podem interferir tanto na necessidade quanto na absorção do hormônio tireoidiano. Assim, compreender como a função tireoidiana vem sendo monitorada após a introdução dessas terapias torna-se cada vez mais relevante na prática clínica. 

Nesse contexto, um estudo recente publicado no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism (JCEM) avaliou os padrões de monitorização do TSH após o início de agonistas de GLP-1 em pacientes em uso de levotiroxina . Trata-se de um estudo de coorte retrospectivo que utilizou dados do Medicare norte-americano, aplicando o modelo de “target trial emulation” para simular um ensaio clínico randomizado. Foram incluídos pacientes com diabetes tipo 2, com idade ≥65 anos, em uso estável de levotiroxina, comparando aqueles que iniciaram GLP-1 RA com pacientes em uso de inibidores de SGLT-2, considerados um grupo controle clinicamente relevante. 

Leia mais: Levotiroxina no tratamento do hipotireoidismo: realmente precisa de jejum?

Após pareamento por escore de propensão, a coorte final incluiu 5.370 pacientes, com características basais equilibradas entre os grupos. Os resultados mostraram que aproximadamente 83% dos pacientes realizaram ao menos uma dosagem de TSH ao longo de um ano de seguimento, com tempo médio até a primeira dosagem de cerca de 130 dias em ambos os grupos. Não houve diferença significativa entre usuários de GLP-1 RA e SGLT-2i quanto à frequência ou ao tempo de monitorização do TSH, apesar da maior probabilidade teórica de necessidade de ajuste da levotiroxina no grupo exposto aos agonistas de GLP-1 . 

Esses achados são particularmente interessantes quando analisados à luz da literatura existente. Sabe-se que a perda de peso está diretamente associada à redução da necessidade de levotiroxina, fenômeno já bem descrito após cirurgia bariátrica e outras intervenções intensivas. Além disso, o possível impacto dos agonistas de GLP-1 na absorção intestinal, mediado pelo retardo do esvaziamento gástrico, reforça a plausibilidade biológica de alterações no controle do TSH. Ainda assim, o estudo evidencia um desalinhamento entre o conhecimento fisiopatológico e a prática clínica, sugerindo que a monitorização da função tireoidiana não está sendo intensificada como seria esperado nesses pacientes. 

Na prática, esses dados levantam uma reflexão importante: estamos subestimando o impacto sistêmico das terapias modernas para obesidade e diabetes. A incorporação dos agonistas de GLP-1 exige uma abordagem mais integrada e dinâmica do paciente endocrinológico, indo além do controle glicêmico e ponderal. Na minha visão, há uma clara necessidade de maior conscientização sobre esse tema, com protocolos mais proativos de monitorização do TSH, idealmente individualizados conforme a magnitude da perda de peso. Em um cenário de medicina cada vez mais personalizada, ignorar essas interações pode significar perder oportunidades de otimizar o tratamento e evitar efeitos adversos evitáveis.

Autoria

Foto de Luciano de França Albuquerque

Luciano de França Albuquerque

Graduação em medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco • Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro – BA • Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE • Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia • Médico Endocrinologista no Hospital Esperança Recife e Hospital Eduardo Campos da Pessoa Idosa

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