O hipotireoidismo é uma das doenças endócrinas mais prevalentes na população adulta, especialmente entre mulheres e idosos, representando importante impacto em saúde pública. A levotiroxina (LT4) é o tratamento de escolha e permanece como padrão terapêutico há décadas, devido à sua eficácia na normalização dos níveis hormonais e na reversão dos sintomas. No entanto, a recomendação tradicional de ingestão do medicamento em jejum, com intervalo antes da alimentação, constitui um fator limitante para a adesão ao tratamento, dificultando a rotina diária de muitos pacientes.
Nesse sentido, um estudo recém-publicado no JCEM traz novidades interessantes. Trata-se de um ensaio clínico randomizado que buscou avaliar a possibilidade de tomada da levotiroxina sem jejum. As doses foram ajustadas durante um período inicial de 12 semanas. Após esse período os dois grupos realizaram dosagens de TSH, T4livre e T3 total a cada 6 semanas. Pacientes que previamente tomavam a medicação em jejum e passaram a tomá-la junto ao café da manhã tiveram acréscimo de 15% na dose, e vice-versa.
Os participantes foram adultos com hipotireoidismo primário estável, em uso de doses ≥ 1mcg/Kg/d, randomizados para receber a levotiroxina em jejum ou junto às refeições, com ajustes de dose guiados pelos níveis séricos de TSH. O desfecho primário foi a manutenção do controle bioquímico da função tireoidiana, enquanto desfechos secundários incluíram qualidade de vida, sintomas relacionados ao hipotireoidismo e necessidade de ajustes posológicos.
Os resultados demonstraram que, quando a dose de levotiroxina é adequadamente ajustada, a administração não em jejum foi não inferior à administração em jejum no controle do TSH. Ambos os grupos atingiram níveis semelhantes de controle hormonal ao longo do seguimento de 24 semanas, sem diferenças clinicamente relevantes nos parâmetros laboratoriais.
Observou-se que o grupo que utilizou a levotiroxina fora do estado de jejum necessitou, em média, de doses ligeiramente maiores para manter o mesmo grau de controle bioquímico. Contudo, esse aumento posológico não se associou a maior incidência de eventos adversos ou a piora clínica, sugerindo segurança da estratégia quando monitorada adequadamente.
Além disso, não houve diferenças significativas entre os grupos em relação à qualidade de vida ou à intensidade dos sintomas relacionados ao hipotireoidismo. Esses achados reforçam que o controle clínico não depende exclusivamente do horário ou da condição alimentar, desde que haja acompanhamento e ajuste terapêutico apropriado. Vale reforçar que, ao final do estudo, a maioria dos pacientes referiu preferir tomar a medicação sem jejum.
Em conclusão, o estudo fornece evidências de que a ingestão de levotiroxina fora do jejum é uma alternativa viável e segura para pacientes com hipotireoidismo, desde que acompanhada de ajuste individualizado da dose. Essa estratégia pode contribuir para maior adesão terapêutica e flexibilização do tratamento, sem prejuízo do controle da doença.
Autoria

Luciano de França Albuquerque
Graduação em medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco • Residência em Clínica Médica pelo Hospital Regional de Juazeiro – BA • Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da UFPE • Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia • Médico Endocrinologista no Hospital Esperança Recife e Hospital Eduardo Campos da Pessoa Idosa
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