Recentemente, foi publicada uma nova diretriz conjunta da Associação Americana de Diabetes (ADA) e da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD) sobre o manejo do diabetes mellitus tipo 1 (DM1) em adultos. Vamos ver quais são as informações relevantes sobre o tema.

Manejo do DM1 amplia foco em tecnologia e complicações
O DM1 em adultos resulta da destruição autoimune das células β, com deficiência grave de insulina. Trata-se de uma doença crônica que afeta 9 milhões de pessoas no mundo, correspondendo a 1%–2% de todos os casos de diabetes. Apesar dos avanços no tratamento da condição, muitos pacientes seguem acima das metas terapêuticas capazes de prevenir complicações.
Nesse cenário, a ADA e a EASD atualizaram o consenso de 2021, com ênfase em novas tecnologias e na incorporação de intervenções que retardem o estágio clínico, além de ampliar o escopo para complicações crônicas, obesidade e risco cardiovascular. O documento não se concentra nos ajustes das insulinas subcutâneas, cujos princípios pouco mudaram.
O consenso ADA/EASD seguiu a estrutura ACCORD. Nele, 14 especialistas das duas sociedades revisaram estudos publicados entre 2021 e julho de 2025, sobretudo observacionais e intervencionais, dada a escassez de ensaios clínicos randomizados. O documento, então, passou por consulta pública e revisão por pares.
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Como autoanticorpos e peptídeo C confirmam o diagnóstico?
Mais de 40% dos pacientes diagnosticados após os 30 anos são inicialmente tratados como portadores de diabetes tipo 2, o que atrasa o início da insulinoterapia e eleva o risco de cetoacidose. Os indícios mais fortes de DM1 no adulto são: idade abaixo de 35 anos, IMC inferior a 25 kg/m², perda de peso não intencional, cetoacidose diabética, glicemia acima de 360 mg/dL e progressão para o uso de insulina em menos de três anos após o diagnóstico.
Quanto à dosagem dos autoanticorpos, recomenda-se iniciar pelo anti-GAD e, se negativo, pesquisar anti-IA-2 e/ou anti-ZnT8. A sensibilidade chega a 90%–95% com os três anticorpos, e dois ou mais resultados positivos indicam DM1, mesmo sem necessidade imediata de insulina.
Caso não haja possibilidade de dosagem de autoanticorpos, considera-se o peptídeo C aleatório, com glicemia concomitante, em até cinco horas após a refeição. Valores abaixo de 200 pmol/L confirmam deficiência insulínica, enquanto valores persistentemente acima de 600 pmol/L sugerem diabetes tipo 2.
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Avalie teplizumabe, CGM e AID no cuidado do DM1
Em pessoas com dois ou mais autoanticorpos positivos, descrevem-se três estágios glicêmicos: normoglicemia, disglicemia e diabetes clínico. O rastreamento pode reduzir a ocorrência de cetoacidose diabética ao diagnóstico. No estágio 2, foi demonstrado que um curso de 14 dias do anti-CD3 teplizumabe retardou o desenvolvimento do diabetes clínico em uma mediana de dois a três anos, em participantes majoritariamente jovens.
A monitorização contínua de glicose (CGM) continua sendo o padrão-ouro do cuidado glicêmico. Em metanálise de 24 estudos, reduziu a HbA1c em 0,24%, aumentou o tempo no alvo em 5,6% e reduziu o tempo abaixo do alvo em 2,4% em comparação com a glicemia capilar. Entretanto, todos os pacientes devem dispor de material para aferição da glicemia capilar e das cetonas, e os dados do sensor devem ser revisados em todas as consultas.
Para a maioria dos adultos, as metas glicêmicas são HbA1c abaixo de 7%, tempo no alvo acima de 70%, tempo abaixo de 70 mg/dL inferior a 4%, tempo abaixo de 54 mg/dL inferior a 1% e coeficiente de variação abaixo de 36%. Metas menos rígidas são pertinentes para pacientes mais idosos, frágeis, com doenças terminais ou hipoglicemia de difícil controle.
Os sistemas AID, que integram bomba, sensor e algoritmo, são o método ideal de infusão quando utilizados de forma consistente, por melhorarem a HbA1c e/ou o tempo no alvo sem aumentar a hipoglicemia. Bombas e múltiplas doses diárias permanecem como alternativas, com preferência por análogos e por canetas em vez de seringas.
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Pressão e LDL definem metas do risco cardiovascular
Para a hipertensão arterial sistêmica, recomenda-se pressão arterial abaixo de 130/80 mmHg ou de 120/80 mmHg em pacientes com maior risco cardiovascular ou renal, além de evitar betabloqueadores sem indicação clara de benefício.
O uso de estatinas deve ser considerado após os 40 anos ou entre 20 e 39 anos se o risco em 10 anos superar 10%, com redução mínima de 50% do LDL e alvo abaixo de 70 mg/dL, ou de 55 mg/dL em caso de doença estabelecida.
Quanto às outras medicações, os agonistas do GLP-1 e a tirzepatida reduzem o peso e, modestamente, a HbA1c, mas exigem ajuste da insulina e podem ser considerados em casos selecionados na coexistência de obesidade. Já os inibidores de SGLT elevam em 2,57 a 5,96 vezes o risco de cetoacidose, frequentemente euglicêmica, restringindo seu uso a decisões individualizadas, como na insuficiência cardíaca.
Quando há acompanhamento do DM1, o tratamento é revisto
É importante oferecer educação e suporte aos pacientes para que aprendam a lidar com a nova condição, o que inclui acompanhamento nutricional e psicológico, prática regular de atividade física e manejo dos episódios de hiper e hipoglicemia.
Com base nos exames laboratoriais de glicemia e hemoglobina glicada (HbA1c), os pacientes devem ser reavaliados a cada três a 12 meses, a depender também de suas condições clínicas. Nesses momentos, o tratamento deve ser reavaliado e novas metas terapêuticas devem ser traçadas. Além disso, é importante que, uma vez ao ano, os pacientes sejam rastreados para complicações micro e macrovasculares relacionadas ao DM1.
Os autores reconhecem algumas limitações: predomínio de dados observacionais, evidências diagnósticas derivadas sobretudo de populações europeias brancas e variabilidade entre os ensaios de peptídeo C.
A nova diretriz influencia significativamente o manejo clínico do diabetes tipo 1 em adultos, tornando-se uma referência importante para profissionais de saúde e orientando políticas nacionais e internacionais sobre o diabetes, além de reforçar a conscientização sobre o DM1 de início na idade adulta. O documento reflete a evolução contínua do manejo do diabetes tipo 1, com a incorporação de novos avanços em diagnóstico, terapia e tecnologia, embora ainda existam lacunas no que diz respeito à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento.
Para o médico de ambulatório, a mensagem é objetiva: suspeitar de diabetes tipo 1 em adultos com perfil sugestivo, confirmar o diagnóstico com autoanticorpos e peptídeo C, oferecer CGM e AID quando viáveis, além de tratar ativamente pressão arterial, lipídios e peso. Como o consenso foi concebido para diferentes sistemas de saúde e níveis de recursos, cabe ao médico brasileiro adaptar essas condutas à estrutura de cada serviço.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Juliane Braziliano
Editora médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atuação na Afya e em consultório particular, além de telemedicina.
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