Logotipo Afya
Anúncio
Dermatologia1 abril 2026

Tratamento da acne: o que muda com a nova diretriz europeia EuroGuiDerm?

Neste artigo trazemos um breve resumo da Diretriz EuroGuiDerm baseada em evidências para o tratamento da acne

Do ponto de vista fisiopatológico, a acne resulta da interação entre hiperqueratinização folicular, produção sebácea, inflamação e participação do microbioma cutâneo; por isso, diretrizes atuais tendem a privilegiar estratégias combinadas e a reduzir a dependência de antibióticos. Desse modo, foi publicada no Journal of the European Academy of Dermatology and Venereology, esta atualização da diretriz EuroGuiDerm, que reposiciona temas centrais do tratamento da acne em um momento em que resistência antimicrobiana, uso mais criterioso de isotretinoína e incorporação de terapias hormonais ganharam peso na prática clínica. O documento foi desenvolvido no âmbito do European Dermatology Forum (EDF), seguindo o manual metodológico do próprio programa EuroGuiDerm.

Objetivo, escopo e metodologia

Trata-se de uma atualização focal da versão de 2016, concentrada em três perguntas consideradas mais relevantes para a prática clínica: escolha entre isotretinoína e antibióticos sistêmicos, duração da antibioticoterapia sistêmica, papel de terapias hormonais/espironolactona e posicionamento de novos tópicos, como trifaroteno e clascoterona.

As recomendações foram formuladas com base em evidência disponível e consenso de especialistas, ponderando eficácia, segurança, preferência do paciente e confiabilidade do corpo de evidência. O sistema de força de recomendação foi expresso em linguagem padronizada — de “fortemente recomendado” a “não recomendado” ou “sem recomendação no momento” —, e várias decisões foram explicitamente classificadas como “evidence and consensus based”, com forte consenso em tópicos-chave.

Tratamento da acne: o que muda com a nova diretriz europeia EuroGuiDerm?

Principais recomendações e o que muda na prática no tratamento da acne

A principal mensagem prática é o fortalecimento da isotretinoína sistêmica como tratamento de escolha para acne papulopustulosa grave/nodular moderada e para acne nodular grave/conglobata, com recomendação forte. Para a acne papulopustulosa grave/nodular moderada, recomenda-se a dose de 0,3 – 0,5 mg/Kg/dia. Para a acne nodular grave/conglobata, recomenda-se dose maior ou igual a 0,5mg/Kg/dia. É recomendado a duração minima de 6 meses, e o critério de sucesso terapêutico é a ausência de lesões inflamatórias por 1 a 2 meses antes da suspensão.

Os antibióticos sistêmicos permanecem como opção, mas preferencialmente por até 3 meses, com doxiciclina e limeciclina favorecidas em relação a minociclina e tetraciclina. A azitromicina não é endossada de rotina, embora possa ser considerada na gestação quando alternativas são limitadas. O tratamento da acne com períodos mais longos de antibióticos tópicos ou sistêmicos pode aumentar a probabilidade de induzir resistência aos antibióticos e isso contribui para o aumento da mortalidade e hospitalizações prolongadas atribuídas a patógenos resistentes a antibióticos, representando um desafio crítico de saúde pública em todo o mundo.

Entre as novidades, terapias hormonais combinadas e espironolactona entram como alternativas adjuvantes para mulheres com formas moderadas a graves, sobretudo quando há influência hormonal. Recomenda-se dose de 50mg/dia, seguida de reavaliação após 4 semanas e, posteriormente, se for bem tolerada, 100 mg/dia. Os pacientes devem ser informados sobre o início gradual da eficácia e a melhora contínua foi observada em ensaios clínicos ao longo de 6 meses de duração. Não é necessário monitoramento laboratorial para pacientes saudáveis com menos de 45 anos, mas fatores individuais podem justificar exceções.

Já o trifaroteno passa a ser contemplado, mas ainda sem estudos comparativos robustos, enquanto o clascoterona foi avaliado, porém não incorporado ao algoritmo por limitações regulatórias e escassa experiência clínica no momento do consenso.

De acordo com a diretriz, algumas opções terapêuticas para acne podem ser consideradas seguras durante a gestação. No tratamento tópico, recomenda-se o uso de ácido azelaico e peróxido de benzoíla, podendo esre último ser associado a antbióticos tópicos, como clindamicina ou eritromicina, quando necessário. Em relação à terapia sistmica, o zinco e a azitromicina aparecem como alternativas possíveis, desde que haja uma avaliação de risco-benefício.

Análise crítica: qualidade da evidência, limitações e coerência interna

Metodologicamente, a diretriz é transparente ao reconhecer que parte das recomendações decorre de evidência indireta, opinião especializada ou consenso clínico, especialmente em gestação, contraceptivos hormonais, espironolactona e posicionamento relativo de novos tópicos. Isso confere honestidade ao texto, mas também limita a robustez de algumas inferências. Faltam, em especial, ensaios head-to-head para comparar trifaroteno e clascoterona com terapias tópicas estabelecidas, além de dados mais sólidos para definir o melhor lugar da espironolactona e de diferentes formulações contraceptivas no algoritmo terapêutico. Ainda assim, a coerência interna é boa: o documento alinha suas recomendações ao princípio de máxima efetividade com menor pressão seletiva para resistência bacteriana e com maior atenção à segurança reprodutiva e ao contexto regulatório.

Comparação com versões anteriores ou outras referências

Em relação à diretriz de 2016, a atualização não refaz todo o guideline, mas revisa pontos estratégicos que mudaram com a literatura recente e com o cenário regulatório. O texto aproxima-se de outras referências contemporâneas ao enfatizar limitação rigorosa do uso de antibióticos, preferência por esquemas combinados e maior valorização de abordagens hormonais em mulheres selecionadas. Também chama atenção a revisão do debate sobre segurança do peróxido de benzoíla: embora reconheça a preocupação recente com degradação em benzeno sob altas temperaturas, a diretriz conclui que a evidência atual não demonstra aumento de risco de câncer em usuários com acne. Essa postura é prudente e consistente com o estado atual da literatura, sem alarmismo nem banalização do tema.

Implicações práticas, generalização e mensagem final

Para internos, residentes e especialistas, a utilidade maior desta atualização está em organizar decisões do consultório: indicar isotretinoína mais cedo nas formas graves, usar antibiótico sistêmico pelo menor tempo possível, considerar terapias hormonais e espironolactona como adjuvantes em mulheres bem selecionadas e interpretar novidades tópicas com cautela quando a evidência comparativa ainda é insuficiente. A generalização é boa para contextos dermatológicos e de atenção especializada, mas deve ser adaptada à disponibilidade local, ao status regulatório dos fármacos, ao risco gestacional, ao custo e ao perfil do paciente. Em síntese, é uma atualização metodologicamente séria, clinicamente útil e conservadora.

Autoria

Foto de Marselle Codeço Barreto

Marselle Codeço Barreto

Médica pela Faculdade de Medicina Souza Marques e Dermatologista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Preceptora de Dermatologia e Dermatoscopia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF-UFRJ). Possui Título de Especialista em Dermatologia e é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Grupo Brasileiro de Melanoma (GBM) e International Dermoscopy Society (IDS).

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Dermatologia