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Dermatologia3 abril 2026

Transmissão não felina da esporotricose: uma revisão sistemática de casos

Revisão sistemática organizou o conhecimento atual sobre a esporotricose adquirida por transmissão zoonótica não felina.

A esporotricose é uma micose subcutânea causada por espécies pertencentes ao gênero Sporothrix, com transmissão zoonótica associada principalmente a gatos. Essa rota de transmissão atingiu proporções hiperendêmicas com milhares de relatos publicados, a ponto de ser considerada uma zoonose emergente, além de representar um desafio epidemiológico e de saúde pública.  

Sabe-se que a atenção médica e epidemiológica tem se concentrado na transmissão felina, preterindo outras formas menos frequentes de transmissão zoonótica associadas a animais não felinos, independentemente delas serem realmente zoonóticas ou ambientalmente mediadas, incluindo aquelas relacionadas a aves, cães, tatus, mosquito, morcegos, roedores, formigas, aranhas e esquilos, que permanecem subestimadas e pouco sistematizadas. 

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Estudo 

Os autores, então, realizaram esta revisão sistemática que organiza o conhecimento atual sobre a esporotricose adquirida pela transmissão zoonótica não felina, com uma revisão abrangente da literatura de janeiro de 1980 a março de 2025, utilizando bancos de dados proeminentes como PubMed, SciELO, Web of Science e EBSCO para identificar casos da doença transmitidos por animais não felinos. 

Metodologia 

A revisão incluiu 78 casos provenientes de 26 estudos publicados entre 1980 e 2025. Observou-se que a maioria das infecções (76%) esteve associada a animais vertebrados, principalmente cães, enquanto 24% envolveram invertebrados, como insetos. O perfil epidemiológico revelou predomínio de homens jovens, frequentemente relacionados a atividades ocupacionais ou recreativas com maior exposição ambiental, como caça e pesca. A forma clínica mais comum foi a linfocutânea (80,7%), seguida pelas formas fixa e disseminada. Quanto à distribuição geográfica, 90% dos casos foram relatados em regiões hiperendêmicas (Brasil e México), coincidindo com os casos relatados devido ao surgimento zoonótico da esporotricose transmitida por gatos, destacando a presença de vetores alternativos nessas áreas. 

Sporothrix schenckii foi a espécie mais frequentemente isolada, enquanto Sporothrix brasiliensis esteve restrita aos casos associados a vertebrados, refletindo possivelmente tanto diferenças biológicas quanto limitações diagnósticas, especialmente no acesso a métodos moleculares em algumas regiões. 

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Um dos principais pontos discutidos pelos autores refere-se à complexidade dos mecanismos de transmissão. Nem todos os casos associados a animais representam necessariamente zoonose verdadeira. Em muitos casos, principalmente em áreas hiperendêmicas como o Brasil, os animais podem atuar apenas como vetores mecânicos, transportando o fungo presente no ambiente (transmissão sapronótica ou saprozoonótica), sem estarem efetivamente infectados. Esse aspecto é particularmente relevante para cães e outros animais, cuja participação na cadeia epidemiológica pode refletir mais a contaminação ambiental do que a infecção ativa. Além da transmissão direta e indireta mediada por animais, a exposição ambiental por fômites contaminados também foi considerada. 

Transmissão não felina da esporotricose: uma revisão sistemática de casos publicados 

Resultados: transmissão não felina da esporotricose 

O tratamento mais utilizado foi o itraconazol, com altas taxas de resposta clínica corroborando seu papel como terapia de primeira linha. Outras drogas como iodeto de potássio, terbinafina e anfotericina B também demonstraram eficácia em contextos específicos. 

Do ponto de vista clínico, o estudo reforça a necessidade de considerar a esporotricose no diagnóstico diferencial de lesões cutâneas crônicas, especialmente em pacientes com história de contato com animais diversos ou picadas de insetos, mesmo na ausência de exposição a gatos.  

O artigo possui contribuições importantes, porém destaca algumas limitações, como a heterogeneidade dos dados, a predominância de relatos de caso e a baixa qualidade metodológica de muitos relatos, o que impede análises quantitativas mais robustas. 

Mensagem prática 

  • A revisão evidenciou que a transmissão da esporotricose por vetores não felinos é um fenômeno relevante, porém subdiagnosticado; 
  • O reconhecimento desses mecanismos alternativos de transmissão é fundamental para aprimorar a vigilância epidemiológica, orientar o raciocínio clínico e ampliar estratégias de prevenção; 
  • Mais estudos são necessários, especialmente com abordagem molecular, para elucidar os verdadeiros reservatórios e diferenciar de forma mais concreta a transmissão zoonótica de exposição ambiental mediada por animais. 

Autoria

Foto de Marselle Codeço Barreto

Marselle Codeço Barreto

Médica pela Faculdade de Medicina Souza Marques e Dermatologista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Preceptora de Dermatologia e Dermatoscopia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF-UFRJ). Possui Título de Especialista em Dermatologia e é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Grupo Brasileiro de Melanoma (GBM) e International Dermoscopy Society (IDS).

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