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Dermatologia28 maio 2026

Picadas de percevejos: como reconhecer as manifestações clínicas?

Revisão sistemática descreve o espectro clínico da cimidíase: lesões, topografia, padrão breakfast-lunch-dinner e impacto psicológico.

Os percevejos são ectoparasitas hematófagos de importância crescente em saúde pública, porém a caracterização clínica de suas picadas ainda é limitada, pois a literatura disponível é composta de relatos de casos e pequenas séries. Nesse contexto, o artigo em questão aborda as manifestações clínicas associadas às picadas de percevejos do gênero Cimex, especialmente Cimex lectularius e Cimex hemipterus. O objetivo foi sintetizar os casos publicados para descrever as manifestações dermatológicas, sistêmicas e psicológicas relacionadas às picadas de percevejos, buscando estabelecer um panorama mais completo do espectro clínico da cimidíase.

Picadas de percevejos: como reconhecer as manifestações clínicas?

Imagem de um bed bug (percevejo de cama; Cimex lectularius), sob um microscópio eletrônico. CDC/Janice Haney Carr (2009).

Como a revisão foi conduzida e quais estudos foram incluídos

A revisão foi realizada de acordo com as diretrizes PRISMA, com busca sistemática em bases como PubMed/Medline, Scielo, Bireme/LILACS, Scopus e Google Scholar, incluindo publicações até 15 de novembro de 2025. Foram utilizados termos relacionados a “bed bug”, Cimex lectularius, Cimex hemipterus, “case report” e “case series”. Foram incluídos relatos de caso e séries de casos com infestação humana confirmada por percevejos e descrição clínica suficiente. Artigos de revisão, editoriais, evidências anedóticas, estudos em animais, casos duplicados ou com envolvimento apenas especulativo de percevejos foram excluídos. Os autores extraíram dados demográficos, espécie envolvida, distribuição anatômica, morfologia das lesões, sintomas sistêmicos, manifestações psicológicas e contexto de exposição.

Cimex lectularius predomina e exantema papular é a lesão mais comum

Foram incluídos 64 estudos, correspondendo a 84 pacientes com a doença. A maioria dos casos envolveu Cimex lectularius (90,5%), enquanto Cimex hemipterus representou 9,5% dos casos. A distribuição por sexo foi equilibrada, com 47,6% de mulheres e 52,4% de homens, sem diferença significativa de idade entre os grupos.

As extremidades foram os locais mais acometidos, com braços, pernas e tronco sendo as topografias mais citadas. A apresentação dermatológica mais comum foi o exantema papular, presente em 76,2% dos pacientes, seguido por lesões maculares em 53,6%. O padrão linear conhecido como “breakfast-lunch-dinner” foi observado em menos da metade dos casos, correspondendo a 45,2% dos pacientes. Manifestações bolhosas, hemorrágicas, vesiculosas, targetoides e petequiais também foram descritas, mas com menor frequência.

Saiba mais: Revisão de ectoparasitas: sarna, percevejos e piolhos

Por que o diagnóstico clínico da cimidíase é desafiador

Os autores destacaram que o diagnóstico clínico da doença é desafiador, pois suas manifestações podem se sobrepor às de outras picadas de artrópodes e a diversas dermatoses. O padrão linear “breakfast-lunch-dinner” é citado como sugestivo, porém não é exclusivo dos percevejos, e não é caracterizado como patognomônico pelos autores.

A predominância de lesões em topografias expostas, como as extremidades, é compatível com o comportamento alimentar noturno dos percevejos, mas localizações incomuns também foram relatadas, como face, pálpebras, couro cabeludo, canal auditivo, nádegas, dentre outros. Nas crianças, houve maior acometimento facial e palpebral, enquanto idosos tiveram maior acometimento de nádegas. As manifestações sistêmicas foram incomuns e atribuídas ao contexto de infestações graves e pacientes frágeis. As repercussões psiquiátricas foram citadas, mas consideradas subnotificadas, já que poucos relatos avaliaram sistematicamente o impacto psicológico das infestações.

Saiba mais: Afecções dermatológicas na infância: Prurigo estrófulo

Lesões pruriginosas em extremidades sem causa clara pedem investigação ambiental

Os autores concluem que, diante de lesões pruriginosas em extremidades sem explicação alternativa plausível, é recomendado considerar a infestação por percevejos e investigar o ambiente domiciliar. A qualidade geral da evidência foi considerada baixa, pois a maioria dos relatos de caso foi classificada como evidência de nível muito baixo pelo sistema GRADE, com documentação clínica heterogênea, pouca padronização e escassez de seguimento longitudinal. O estudo fornece uma base inicial para reconhecimento clínico da doença, mas reforça a necessidade de estudos prospectivos maiores e mais padronizados.

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Autoria

Foto de Marselle Codeço Barreto

Marselle Codeço Barreto

Médica pela Faculdade de Medicina Souza Marques e Dermatologista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Preceptora de Dermatologia e Dermatoscopia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF-UFRJ). Possui Título de Especialista em Dermatologia e é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Grupo Brasileiro de Melanoma (GBM) e International Dermoscopy Society (IDS).

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