A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou “Poluição do Ar (AP) e mudanças climáticas” como as principais dentre as dez ameaças à saúde global. Além disso, um número crescente de estudos epidemiológicos sugeriu uma ligação causal entre a poluição do ar e várias doenças comuns da pele. Entretanto, há considerável variação no desenho dos estudos e resultados heterogêneos, que dificultam para os dermatologistas julgarem a verdadeira relevância da poluição do ar como fator de risco para doenças cutâneas.
Desse modo, o artigo em questão realiza uma revisão sistemática ampla sobre a associação entre exposição à poluição atmosférica e doenças dermatológicas frequentes, incluindo dermatite atópica, psoríase, urticária, acne, melanoma e envelhecimento cutâneo.
Metodologia da revisão e principais poluentes atmosféricos analisados
Os autores incluíram estudos observacionais entre 1990 e abril de 2025, identificados nas bases PuMed e Scopus. Após a triagem de 1.393 artigos elegíveis, 77 estudos foram incluídos na análise final. Os poluentes avaliados compreenderam principalmente material particulado (PM10 e PM2.5) e poluentes gasosos, como dióxido de nitrogênio, dióxido de enxofre, ozônio e monóxido de carbono.
A dermatite atópica foi o desfecho mais estudado, com mais da metade dos estudos incluídos, seguida por psoríase, urticária, acne, melanoma e envelhecimento cutâneo. A maior parte das evidências veio de países de média-alta e alta renda, principalmente do Leste Asiático e da Europa, com grande escassez de estudos provenientes da América do Sul, África e outras regiões de baixa e média renda.

Impacto da poluição do ar em dermatoses inflamatórias e envelhecimento cutâneo
Os autores observaram que a maioria dos estudos aponta para um possível efeito prejudicial da poluição atmosférica sobre doenças cutâneas. Nas doenças inflamatórias, como dermatite atópica, psoríase e urticária, vários estudos sugeriram associação positiva com poluentes, especialmente em exposições de curto prazo. Houve maior tendência a associação entre poluentes gasosos e exacerbações ou atendimentos relacionados a essas dermatoses em comparação ao material particulado em alguns cenários. Na acne, os estudos disponíveis, em sua maioria provenientes da China, também sugeriram associação de curto prazo. Já para melanoma, os resultados foram mais heterogêneos e inconclusivos. Em relação ao envelhecimento, os estudos incluídos indicaram associações positivas entre poluição e sinais como hiperpigmentação e rugas, mas a evidência ainda é limitada.
Avaliação do risco de viés e certeza da evidência científica
Apesar desses dados, os autores realizaram avaliação de risco de viés e demonstraram que, para a maioria das doenças analisadas, a certeza da evidência foi baixa ou muito baixa. Os principais problemas metodológicos foram viés de seleção, controle insuficiente de fatores de confusão e limitações na avaliação da exposição. Muitos estudos utilizaram dados de atendimentos hospitalares ou ambulatoriais, o que pode não representar a população geral de forma adequada. Além disso, a exposição à poluição foi estimada por médias ambientais ou dados de estações de monitoramento, sem medida da exposição individual real. Isso limitou a inferência causal e dificultou a afirmação de que a poluição seja responsável direta pelo surgimento ou agravamento dessas dermatoses.
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O papel do expossoma cutâneo e perspectivas para a saúde pública
A poluição pareceu exercer efeitos de curto prazo, muitas vezes no mesmo dia ou poucos dias após a exposição, principalmente nas dermatoses inflamatórias. Porém, os períodos avaliados variaram entre os estudos e foram pouco exploradas as interações entre a poluição, clima, radiação ultravioleta, áreas verdes e fatores genéticos dentro do expossoma cutâneo.
O estudo sugere que a poluição atmosférica pode influenciar diversas doenças cutâneas, mas a evidência disponível ainda é baixa ou muito baixa, limitada por vieses metodológicos, controle insuficiente de confundidores e avaliação imprecisa da exposição. Os autores também destacam a necessidade de estudos mais robustos para orientar a prática dermatológica a saúde pública e as políticas de prevenção.
Autoria

Marselle Codeço Barreto
Médica pela Faculdade de Medicina Souza Marques e Dermatologista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Preceptora de Dermatologia e Dermatoscopia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF-UFRJ). Possui Título de Especialista em Dermatologia e é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Grupo Brasileiro de Melanoma (GBM) e International Dermoscopy Society (IDS).
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