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Dermatologia21 julho 2026

Estudo analisa impacto de experiências traumáticas em doenças dermatológicas

Revisão analisou evidências sobre as associações entre exposições relacionadas com estresse e doenças dermatológicas ao longo da vida

As doenças dermatológicas estão entre as principais causas de morbidade não fatal no mundo e apresentam impacto expressivo na qualidade de vida. Evidências recentes sugerem que diferentes formas de estresse psicológico e trauma, incluindo experiências adversas na infância, eventos estressores ao longo da vida e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), podem influenciar o desenvolvimento e a gravidade de dermatoses inflamatórias e responsivas ao estresse.

Diante da heterogeneidade de estudos disponíveis, esta revisão sistemática teve como objetivo sintetizar as evidências sobre a associação entre essas exposições psicossociais e doenças dermatológicas ao longo da vida. Foram enfatizadas a influência do momento da exposição, da cronicidade e da carga cumulativa de estresse.

Estudo analisa impacto de experiências traumáticas em doenças dermatológicas

Metodologia

A revisão foi conduzida conforme as recomendações do PRISMA 2020. Foram pesquisadas as bases Scopus, PubMed e PsycINFO, abrangendo publicações entre janeiro de 2000 e novembro de 2025. Foram incluídos estudos observacionais envolvendo crianças ou adultos que investigassem a relação entre exposições relacionadas ao estresse ou trauma e desfechos dermatológicos. Foram incluídos apenas estudos classificados como de baixo ou moderado risco de viés e, ao final, 30 estudos foram incluídos.

Adversidades na infância aumentam o risco de dermatoses inflamatórias

Os estudos demonstraram associação consistente entre exposições relacionadas ao estresse e maior risco, início mais precoce e maior gravidade de diversas dermatoses, como psoríase, dermatite atópica, alopecia areata, urticária crônica e prurido crônico. As associações foram mais robustas para adversidades ocorridas na infância e para exposição cumulativa ao estresse. Também foi observado que o maior número de experiências adversas esteve associado a maior probabilidade de doença precoce ou persistente. Em indivíduos com TEPT, verificou-se aumento da morbidade dermatológica, incluindo maior risco de doenças cutâneas inflamatórias e autoimunes e pior qualidade de vida atrelada à pele.

Negligência emocional está associada à alopecia areata e psoríase grave

Esses achados reforçaram a hipótese que o estresse atua como modulador da expressão clínica das doenças dermatológicas, sendo relevante quando ocorre precocemente na vida ou de forma persistente. Entre as experiências adversas na infância, destacou-se a importância da negligência emocional e física, mais associada a alopecia areata, maior gravidade da psoríase e menor resiliência psicológica e perfis psicodermatológicos. Os estudos também sugeriram que o estresse cumulativo está mais relacionado à atividade e exacerbação das doenças do que ao seu surgimento isoladamente.

Desregulação neuroendócrina explica o vínculo entre estresse e pele

Os autores também discutem que os mecanismos envolvidos provavelmente incluem desregulação neuroendócrina e imunológica, com alterações do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, desequilíbrio autonômico, inflamação crônica de baixo grau e comprometimento da função de barreira cutânea. Além disso, fatores comportamentais, como distúrbios do sono, maior percepção dos sintomas, comportamento de coçar e menor adesão ao tratamento podem contribuir para a gravidade das dermatoses.

Embora os resultados sustentem a integração da avaliação psicossocial na prática dermatológica, especialmente em casos graves, recorrentes ou resistentes ao tratamento, os autores ressaltam que os fatores relacionados ao estresse devem ser considerados moduladores da doença, e não explicações determinísticas ou causais. Também destacam limitações importantes, como a predominância de estudos observacionais, heterogeneidade metodológica e ausência de registro prévio do protocolo da revisão.

Os autores concluem que esta revisão demonstrou que exposições ao estresse psicossocial e ao trauma ao longo da vida estão associadas a maior carga de doença dermatológica. As adversidades precoces, particularmente quando cumulativas e caracterizada por negligência, mostraram-se relacionadas ao início, gravidade e à persistência das dermatoses, enquanto estressores na vida adulta e o TEPT parecem influenciar a atividade de doença e seu impacto subjetivo.

Leia também: Psiquiatras debatem vieses culturais e sociais dos diagnósticos

Mensagem prática

Os achados apoiam uma abordagem baseada na sensibilidade ao estresse e no curso de vida, reforçando a necessidade de integrar aspectos psicossociais à pesquisa e ao cuidado dermatológico. Os autores também reforçam a necessidade de realização de estudos longitudinais que esclareçam as relações temporais e os mecanismos envolvidos.

Autoria

Foto de Marselle Codeço Barreto

Marselle Codeço Barreto

Editora médica da Afya. Formada pela Faculdade de Medicina Souza Marques e Dermatologista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Além da atuação na Afya, também é preceptora de Dermatologia e Dermatoscopia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF-UFRJ). Possui Título de Especialista em Dermatologia e é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Grupo Brasileiro de Melanoma (GBM) e International Dermoscopy Society (IDS).

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