A fístula anastomótica permanece como uma das complicações cirúrgicas de maior gravidade após a esofagectomia, estando diretamente associada ao prolongamento da internação, ao aumento da utilização de recursos de terapia intensiva e a uma morbimortalidade expressiva na recuperação pós-operatória. Historicamente, o uso do omento para reforçar a anastomose esofagogástrica tem sido investigado como uma tática para diminuir o risco de deiscência, oferecendo aporte vascular, suporte mecânico e propriedades angiogênicas locais.
Embora o racional fisiológico da omentoplastia seja consolidado, a literatura apresentava limitações metodológicas e concentrava-se predominantemente em séries de cirurgias abertas convencionais. Com a transição para técnicas modernas, existia uma lacuna evidente sobre a eficácia deste envoltório biológico anatômico quando aplicado em plataformas robóticas e minimamente invasivas, exigindo atualização das evidências. O artigo publicado na revista de doenças do esôfago, revisita este tema.
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Métodos utilizados
Revisão sistemática e metanálise desenhada sob as normativas PRISMA e delineada pela estratégia PICO. A estratégia de busca englobou as bases de dados PubMed, Embase e Web of Science até dezembro de 2025, focando em ensaios clínicos randomizados e estudos de coorte comparativos que avaliaram o reparo com retalho omental frente à anastomose padrão não reforçada em pacientes adultos submetidos à esofagectomia oncológica.
O desfecho primário definido foi a ocorrência de fístula anastomótica. Secundariamente, analisou-se a incidência de fístulas graves com necessidade de intervenção, o desenvolvimento de estenoses e a mortalidade operatória. A qualidade metodológica foi aferida pelas ferramentas Cochrane Risk-of-Bias 2 e Newcastle-Ottawa Scale.
Principais achados
A metanálise integrou nove estudos comparativos envolvendo 2.227 pacientes, dos quais 1.170 foram alocados para o reforço omental e 1057 compuseram o braço controle. A incidência global de fístula foi de 4,7% no grupo de intervenção contra 12,6% nos controles, traduzindo-se em uma redução absoluta de risco de 7,9% e um número necessário para tratar de 13 pacientes.
O reforço reduziu a falha anastomótica com uma razão de risco de 0,32 e intervalo de confiança de 95% entre 0,23 e 0,44. O teste de diferenças de subgrupo não demonstrou interação estatística, confirmando que o efeito protetor é consistente tanto nas anastomoses cervicais quanto intratorácicas (p = 0,78), assim como na comparação entre o acesso laparotômico tradicional e as vias minimamente invasivas ou robóticas (p = 0,79). Nas análises restritas apenas aos ensaios randomizados, a eficácia foi ainda mais pronunciada, com razão de risco de 0,21.
Em relação aos parâmetros secundários, a omentoplastia diminuiu os vazamentos graves de grau III que exigem reoperação, com razão de risco de 0,22 e intervalo de confiança de 95% entre 0,09 e 0,52. As taxas de estenose cicatricial e mortalidade pós-operatória foram numericamente inferiores no grupo reforçado, mas não alcançaram diferença estatística.
Discussão
Os dados demonstram que a mobilização do pedículo omental atenua a incidência e a repercussão clínica das deiscências esofagogástricas, prevenindo falhas estruturais catastróficas que impõem reintervenções de urgência. A superação das limitações de metanálises anteriores, que excluíam ensaios metodologicamente relevantes devido a cortes arbitrários de tamanho amostral, confere maior robustez a esta análise.
Um ponto de extrema relevância para a prática cirúrgica atual é a comprovação de que as restrições espaciais e técnicas inerentes à videocirurgia e à robótica não comprometem a viabilidade ou a eficácia do envoltório, replicando os graus de proteção observados na cirurgia aberta. A adesão tecidual e a perfusão contínua do retalho atuam no selamento de microperfurações antes que evoluam para contaminações sistêmicas amplas.
A ausência de heterogeneidade estatística suporta a estabilidade do efeito biológico, contudo, é prudente reconhecer que a variabilidade institucional nos protocolos de dissecção e anastomose introduz certa heterogeneidade clínica. Assim, o procedimento constitui um recurso protetor suplementar que não substitui os princípios fundamentais de uma anastomose bem vascularizada e isenta de tensão.
Em resumo, a confecção do envoltório omental resulta em uma diminuição objetiva na taxa e na gravidade das fístulas anastomóticas pós-esofagectomia. A preservação do benefício biológico ao longo da transição para os acessos minimamente invasivos e robóticos reforça a validade desta manobra técnica na rotina cirúrgica moderna, consolidando a omentoplastia como uma etapa adjunta segura e recomendável na otimização da reconstrução do trânsito.
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O que podemos levar para casa?
O uso de coberturas próprias do paciente é sem dúvida uma das melhores escolhas na prevenção de complicações. Não é apenas o bloqueio mecânico, mas também todo o metabolismo que possuem as estruturas abdominais. No entanto não é milagroso e as boas práticas devem continuamente serem praticadas.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Felipe Victer
Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Cirurgia Geral (2007) e Cirurgia Geral - Programa Avançado (2009) pela mesma instituição. Membro Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e Sobracil. Coordena área de esôfago/estômago com ênfase em cirugia minimanente invasiva do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da UFRJ.
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