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Cirurgia5 agosto 2026

Uso de Omento previne fístulas de esofagectomia?

Revisão sistemática e meta-análise avaliou o impacto do reforço com omento após a esofagectomia.
Por Felipe Victer

A fístula anastomótica permanece como uma das complicações cirúrgicas de maior gravidade após a esofagectomia, estando diretamente associada ao prolongamento da internação, ao aumento da utilização de recursos de terapia intensiva e a uma morbimortalidade expressiva na recuperação pós-operatória. Historicamente, o uso do omento para reforçar a anastomose esofagogástrica tem sido investigado como uma tática para diminuir o risco de deiscência, oferecendo aporte vascular, suporte mecânico e propriedades angiogênicas locais.

Embora o racional fisiológico da omentoplastia seja consolidado, a literatura apresentava limitações metodológicas e concentrava-se predominantemente em séries de cirurgias abertas convencionais. Com a transição para técnicas modernas, existia uma lacuna evidente sobre a eficácia deste envoltório biológico anatômico quando aplicado em plataformas robóticas e minimamente invasivas, exigindo atualização das evidências. O artigo publicado na revista de doenças do esôfago, revisita este tema. 

Leia também: Anastomose primária sem estomia em cirurgia de urgência do cólon esquerdo

Uso de Omento previne fístulas de esofagectomia?

Imagem de ArtPhoto_studio/freepik

Métodos utilizados

Revisão sistemática e metanálise desenhada sob as normativas PRISMA e delineada pela estratégia PICO. A estratégia de busca englobou as bases de dados PubMed, Embase e Web of Science até dezembro de 2025, focando em ensaios clínicos randomizados e estudos de coorte comparativos que avaliaram o reparo com retalho omental frente à anastomose padrão não reforçada em pacientes adultos submetidos à esofagectomia oncológica.

O desfecho primário definido foi a ocorrência de fístula anastomótica. Secundariamente, analisou-se a incidência de fístulas graves com necessidade de intervenção, o desenvolvimento de estenoses e a mortalidade operatória. A qualidade metodológica foi aferida pelas ferramentas Cochrane Risk-of-Bias 2 e Newcastle-Ottawa Scale.

Principais achados

A metanálise integrou nove estudos comparativos envolvendo 2.227 pacientes, dos quais 1.170 foram alocados para o reforço omental e 1057 compuseram o braço controle. A incidência global de fístula foi de 4,7% no grupo de intervenção contra 12,6% nos controles, traduzindo-se em uma redução absoluta de risco de 7,9% e um número necessário para tratar de 13 pacientes.

O reforço reduziu a falha anastomótica com uma razão de risco de 0,32 e intervalo de confiança de 95% entre 0,23 e 0,44. O teste de diferenças de subgrupo não demonstrou interação estatística, confirmando que o efeito protetor é consistente tanto nas anastomoses cervicais quanto intratorácicas (p = 0,78), assim como na comparação entre o acesso laparotômico tradicional e as vias minimamente invasivas ou robóticas (p = 0,79). Nas análises restritas apenas aos ensaios randomizados, a eficácia foi ainda mais pronunciada, com razão de risco de 0,21.

Em relação aos parâmetros secundários, a omentoplastia diminuiu os vazamentos graves de grau III que exigem reoperação, com razão de risco de 0,22 e intervalo de confiança de 95% entre 0,09 e 0,52. As taxas de estenose cicatricial e mortalidade pós-operatória foram numericamente inferiores no grupo reforçado, mas não alcançaram diferença estatística.

Discussão

Os dados demonstram que a mobilização do pedículo omental atenua a incidência e a repercussão clínica das deiscências esofagogástricas, prevenindo falhas estruturais catastróficas que impõem reintervenções de urgência. A superação das limitações de metanálises anteriores, que excluíam ensaios metodologicamente relevantes devido a cortes arbitrários de tamanho amostral, confere maior robustez a esta análise.

Um ponto de extrema relevância para a prática cirúrgica atual é a comprovação de que as restrições espaciais e técnicas inerentes à videocirurgia e à robótica não comprometem a viabilidade ou a eficácia do envoltório, replicando os graus de proteção observados na cirurgia aberta. A adesão tecidual e a perfusão contínua do retalho atuam no selamento de microperfurações antes que evoluam para contaminações sistêmicas amplas.

A ausência de heterogeneidade estatística suporta a estabilidade do efeito biológico, contudo, é prudente reconhecer que a variabilidade institucional nos protocolos de dissecção e anastomose introduz certa heterogeneidade clínica. Assim, o procedimento constitui um recurso protetor suplementar que não substitui os princípios fundamentais de uma anastomose bem vascularizada e isenta de tensão.

Em resumo, a confecção do envoltório omental resulta em uma diminuição objetiva na taxa e na gravidade das fístulas anastomóticas pós-esofagectomia. A preservação do benefício biológico ao longo da transição para os acessos minimamente invasivos e robóticos reforça a validade desta manobra técnica na rotina cirúrgica moderna, consolidando a omentoplastia como uma etapa adjunta segura e recomendável na otimização da reconstrução do trânsito. 

Leia também: Esofagectomia no câncer de esôfago: aberta, laparoscópica ou robótica?

O que podemos levar para casa?

O uso de coberturas próprias do paciente é sem dúvida uma das melhores escolhas na prevenção de complicações. Não é apenas o bloqueio mecânico, mas também todo o metabolismo que possuem as estruturas abdominais. No entanto não é milagroso e as boas práticas devem continuamente serem praticadas.

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.

Autoria

Foto de Felipe Victer

Felipe Victer

Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Cirurgia Geral (2007) e Cirurgia Geral - Programa Avançado (2009) pela mesma instituição. Membro Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e Sobracil. Coordena área de esôfago/estômago com ênfase em cirugia minimanente invasiva do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da UFRJ.

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Referências bibliográficas

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