Os cistos pancreáticos não têm, a princípio, grande associação ao câncer de pâncreas: ao contrário, a associação com a doença é baixa. No entanto, as neoplasias malignas pancreáticas são bastante temidas, principalmente devido à sua grande morbidade cirúrgica e ao prognóstico oncológico incerto após a cirurgia. Devido ao aumento da capacidade dos métodos de imagem, a incidência de cistos pancreáticos aumentou ao longo das décadas. O dilema é: como lidar com estes cistos na prática?
O trabalho diagnóstico e o manejo dos cistos pancreáticos são baseados em diretrizes, publicados pela grandes sociedades de especialidade. É uma forma de balancear o risco-benefício entre a cirurgia e o acompanhamento de lesões císticas pancreáticas com eventual potencial maligno. Uma revisão publicada na Jama Surgery faz uma comparação entre as cinco grandes sociedades que publicaram guidelines sobre o tema: Associação Americana de Gastroenterologia (AGA), Colégio Americano de Gastroenterologia (ACG), Colégio Americano de Radiologia (ACR), Guideline Europeu baseado em evidências e Associação Internacional de Pancreatologia (IAP).
Para a revisão, foi realizada uma comparação entre as guidelines anteriormente publicadas pelas sociedades citadas anteriormente, com suas respectivas recomendações. Cada guideline possui uma especificidade e, portanto, não poderiam ser diretamente comparados entre eles em todos os aspectos.
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Categorizando os cistos pancreáticos
As lesões císticas do pâncreas podem ser divididas grosseiramente em duas categorias: as produtoras de mucina e as que não produzem mucina. Dentre aquelas que não produzem mucina, os tumores neuroendócrinos císticos e as neoplasias psudopapilares são as que necessitam de maior atenção no acompanhamento. Isso porque os cistoadenomas serosos possuem uma taxa de malignização menor que 1% e, além disso, os pseudocistos de pâncreas são processos inflamatórios que não evoluem para a malignização.
Por outro lado, quando tratamos dos tumores produtores de mucina, as neoplasias intrapapilares produtoras de mucina são as que apresentam maior variabilidade de conduta. Elas podem ser classificadas em de ducto principal ou de ducto secundário. Por conta de seu potencial de malignização, o tumor cístico produtor de mucina também deve ser acompanhado.
Mesmo com todo o avanço da imagenologia por cortes axiais, tanto a ressonância quanto a tomografia possuem uma acurácia não ideal na definição diagnóstica. Dessa forma, em determinados casos, se faz necessário o uso da ultrassonografia endoscópica. Esta, além de poder determinar o tipo de lesão pela aparência sonográfica, pode, também, nos casos de dúvida, realizar a coleta da amostra para análise bioquímica e/ou citológica, o que aumenta (em muito) o rendimento do método.
Guidelines e recomendações
As recomendações apresentadas pelos guidelines possuem um baixo nível de evidência quanto aos aspectos de acompanhamento, tanto no pré-operatório quanto no seguimento pós-operatório.
Uma questão interessante é que, na maioria dos casos, mesmo com o uso de punção por agulha fina, não é possível determinar com segurança o grau de displasia presente na amostra. Na análise de algumas peças de IPMN de ducto secundário, foram identificadas alto grau de displasia que não havia suspeição no pré-operatório. O uso de agulhas que permitam a obtenção de amostras para o histopatológico pode, talvez, amenizar esta dúvida. No entanto, diversas displasias podem apresentar-se em mosaico, o que diminui a representatividade da amostra.
O artigo publicado na Jama Surgery conclui que, devido ao baixo grau de evidências das recomendações, é imperativo que um paciente com lesão cística do pâncreas seja acompanhado por um centro de referência. Dessa forma, é possível que as condutas sejam definidas de forma assertiva, devido à grande diversidade de detalhes em cada caso.
Veja a tabela abaixo e saiba mais:
Sociedade |
Achados de preocupação que podem indicar cirurgia
|
AGA | Cisto > 3,0 cm
Ducto pancreático principal dilatado Componente sólido cístico Citologia com displasia de alto-grau ou câncer invasivo |
ACG | Diabete de início recente
Icterícia secundária ao cístico Pancreatite aguda secundária ao cístico CA 19-9 elevado Crescimento do cisto > 3mm/ano Componente mural/sólido no cisto Dilatação do ducto principal > 5mm Dilatação segmentar do ducto principal em suspeita de IPMN de ducto principal IPMN ou Neoplasia mucinosa > 3,0 cm Citologia com displasia de alto-grau ou câncer invasivo |
ACR |
Cisto maior que 3,0 cm em diâmetro Parede do cisto espessada/realçada Nódulo mural não captante de contraste Ducto principal > 7mm
Icterícia secundária ao cisto Nódulo mural captante de contraste Ducto principal > 10mm na ausência de obstrução Citologia com displasia de alto-grau ou invasiva |
Européia |
Taxa de crescimento > 5mm/ano CA 19-9 > 37 U/mL Ducto principal 5-9 mm Diâmetro do cisto > 4 cm Diabete de início recente; pancreatite causada por IPMN Nódulo mural captante < 5mm Citologia com displasia de alto-grau ou câncer invasivo Massa sólida Icterícia secundária ao cisto Nódulo mural captante de contraste > 5mm Ducto principal > 10 mm |
IAP |
Ducto principal > 10 mm Icterícia Nódulo Mural > 5mm Citologia com displasia de alto-grau ou câncer invasivo
Ducto principal > 10 mm ou envolvimento do ducto principal Icterícia Nódulo Mural > 5mm Citologia com displasia de alto-grau ou câncer invasivo |
Para levar para a prática
O acompanhamento de lesões císticas do pâncreas requer atenção e atualização constantes do profissional que atende. Devido a grandes nuances de cada caso, este acompanhamento deve ser dinâmico, pois o mesmo parâmetro analisado pode ser indicativo de cirurgia em um pacientes e em outro não. Saber optar pelo melhor método diagnóstico, e até o momento ideal para indicar a cirurgia, usualmente requer uma discussão em conjunto entre as diversas especialidades do centro de tratamento.
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