O câncer de cabeça e pescoço do trato aerodigestivo alto inclui tumores malignos primários de lábio, cavidade oral, orofaringe, laringe, hipofaringe e nasofaringe, são em sua maioria carcinomas espinocelulares (escamosos) e se originam na mucosa de revestimento dessas estruturas.
Segundo o National Cancer Institute (NCI), essas canceres correspondem a cerca de 4% de todos os tumores malignos diagnosticados nos Estados Unidos, sendo mais de duas vezes mais frequentes em homens e predominando após os 50 anos de idade.
Reconhecer precocemente os sinais e sintomas é determinante para o prognóstico: quando diagnosticado em estágio inicial, o tratamento tem taxas de sucesso muito superiores às observadas em doença avançada.
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Principais fatores de risco do câncer de cabeça e pescoço
O tabagismo e o etilismo são, isoladamente e em associação, os principais fatores de risco para os carcinomas de cavidade oral, hipofaringe e laringe. O uso combinado de tabaco e álcool tem efeito exponencial e não apenas somatório sobre o risco de desenvolvimento tumoral, conforme documentado pelo NCI. O tabagismo passivo e as formas de tabaco sem fumaça (rapé, fumo de mascar) também aumentam esse risco.
A infecção por tipos oncogênicos do papilomavírus humano (HPV), especialmente o HPV-16, é hoje reconhecida como a principal causa de câncer de orofaringe (tonsilas palatinas e base de língua) em países desenvolvidos, respondendo por cerca de três quartos dos casos, com incidência crescente mesmo em pacientes sem histórico de tabagismo ou etilismo.
Já o câncer de nasofaringe tem perfil epidemiológico distinto: está fortemente associado à infecção pelo vírus Epstein-Barr (EBV), à ascendência asiática (particularmente chinesa) e à exposição ocupacional à poeira de madeira.
Para câncer de lábio, a exposição solar recorrente sem fotoproteção constitui o principal fator de risco.
Outros fatores de risco conhecidos são exposição ocupacional a poeiras de madeira, níquel e formaldeído (tintas e solventes) para tumores de seios paranasais. Exposição à radiação prévia em cabeça e pescoço para tumores de glândulas salivares e tireoide. Já má higiene oral, dentição em mau estado e próteses dentarias mal-ajustadas causando trauma de repetição em cavidade oral, dieta rica em alimentos conservados em sal (especialmente na infância) e alto consumo de açúcar são associados a câncer de cavidade oral.
Quais sinais e câncer de cabeça e pescoço merecem atenção
A apresentação clínica varia conforme a subsítio anatômico e deve-se manter alto índice de suspeição diante de sintomas persistentes por mais de duas a três semanas, mesmo em pacientes jovens ou sem fatores de risco clássicos.
Cavidade oral e lábio: mancha branca (leucoplasia) ou vermelha (eritroplasia) persistente na mucosa, língua ou gengiva; úlcera ou ferida que não cicatriza; sangramento ou dor bucal inexplicada; mobilidade dentária ou desajuste de prótese sem causa aparente; massa ou espessamento palpável.
Orofaringe e hipofaringe: odinofagia (dor à deglutição) persistente; disfagia progressiva; otalgia reflexa (dor no ouvido sem doença otológica local); sensação de globus ou corpo estranho na garganta; e, muito frequentemente, nódulo cervical indolor e persistente que pode ser um linfonodo com acometimento secundário que pode ser a primeira e única manifestação de um tumor de orofaringe associado ao HPV.
Laringe: rouquidão ou mudança de voz com duração superior a duas semanas é o sintoma cardinal, especialmente em tumores glóticos, e deve ser sempre investigada. Especial atenção em tabagistas e etilistas acima dos 40 anos. Achado de dispneia, estridor e tosse crônica sugerem doença mais avançada.
Nasofaringe: obstrução nasal unilateral persistente, epistaxe recorrente, otite média serosa unilateral em adulto (por obstrução tubária), cefaleia e, eventualmente, paralisias de nervos cranianos quando há extensão à base do crânio em casos mais avançados.
No exame físico, o médico deve realizar palpação cervical bilateral sistemática à procura de linfonodomegalias, inspeção da cavidade oral com boa iluminação e abaixador de língua e avaliação da mobilidade da língua e da articulação temporomandibular. Qualquer lesão suspeita ou sintoma persistente exige encaminhamento rápido ao cirurgião de cabeça e pescoço para avaliação especializada.
Como diagnosticar o câncer de cabeça e pescoço?
O diagnóstico definitivo de neoplasia sempre é histopatológico, obtido por biópsia incisional da lesão suspeita, podendo ser feita ambulatorialmente em uma boa parcela dos casos com anestesia tópica.
Na avaliação inicial, o especialista realiza nasofibrolaringoscopia (endoscopia flexível) ou vídeo laringoscopia (telescópio rígido), exame essencial e indolor que complementa o exame físico e permite a visualização direta de nasofaringe, orofaringe, hipofaringe e laringe. Exames de imagem com contraste como a tomografia computadorizada (TC) e ressonância magnética (RM) de pescoço, além de PET-CT em casos selecionados são utilizados para avaliação da extensão tumoral local, comprometimento linfonodal e estadiamento.
Testes complementares incluem a pesquisa de p16/HPV por imuno-histoquímica em tumores de orofaringe (marcador de infecção por HPV, com alto valor prognóstico) e a sorologia ou PCR para EBV em suspeita de carcinoma de nasofaringe.
Importante: não existe, até o momento, método de rastreamento populacional validado para câncer de cabeça e pescoço; a estratégia mais eficaz de diagnóstico precoce continua sendo o exame clínico diante de uma queixa do paciente, levando em consideração seus fatores de risco, que podem estar presentes ou não.
Prevenção com evidência comprovada
As medidas com comprovação científica mais robusta na redução do risco de câncer de cabeça e pescoço do trato aerodigestivo alto são:
- Cessação do tabagismo, em todas as suas formas — o abandono do cigarro reduz o risco em até 50% entre cinco e nove anos após a interrupção, aproximando-se do risco de não fumantes após duas décadas.
- Redução ou eliminação do consumo de álcool, especialmente relevante em associação ao tabagismo, dado o efeito sinérgico entre os dois fatores.
- Vacinação contra o HPV — a vacina nonavalente (Gardasil 9) tem aprovação da FDA para prevenção de câncer de orofaringe relacionados a tipos oncogênicos de HPV, sendo indicada dos 9 aos 45 anos.
- Exames odontológicos e médicos regulares, que permitem identificação precoce de lesões suspeitas na cavidade oral.
- Evitar exposições ocupacionais desprotegidas a poeira de madeira, níquel, formaldeído e amianto, quando aplicável.
- Evitar exposição solar desprotegida em lábio, usando protetores solares labiais, evitar horários críticos de sol e avaliação precoce de lesões labiais persistentes.
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O que podemos levar para a prática?
O reconhecimento e valorização de sintomas persistentes, como rouquidão, úlcera oral que não cicatriza, massa cervical, odinofagia ou obstrução nasal unilateral, associados ou não aos fatores de risco (tabaco, álcool, HPV, EBV) é a principal ferramenta de diagnóstico precoce disponível hoje, na ausência de programas de rastreamento validados.
Ouvir o paciente, sua queixa e avaliá-lo com exame físico direcionado e garantir referenciamento adequado e rápido é a pedra angular para diagnóstico precoce e tratamento precoce com impacto direto no prognóstico desses pacientes.
O encaminhamento oportuno ao especialista em cirurgia de cabeça e pescoço, diante de qualquer suspeita clínica, permanece a conduta mais custo-efetiva para reduzir a morbimortalidade dessas neoplasias.
Os principais fatores de risco para câncer de cabeça e pescoço são todas passíveis de intervenção e modificação ao longo da vida, cabe ao médico orientar os pacientes de forma preventiva, incluindo a importância da higiene oral regular, a importância de avaliação periódica com dentista, evitar tabagismo e etilismo, evitar consumo de alimentos ricos em açúcares e sal em excesso, incentivar e prescrever a vacina contra HPV, orientar sobre a prevenção de riscos ocupacionais e como mitigá-los e orientar e incentivar sobre fotoproteção ao longo da vida.
Autoria

Gustavo Borges Manta
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela FAMEMA, Cirurgião de Cabeça e Pescoço pelo HC-FMUSP e Pós-graduação em Cirurgia Robótica em Cirurgia de Cabeça e Pescoço pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Além do Afya atua como Cirurgião de Cabeça e Pescoço do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP HC-FMUSP), como Cirurgião Geral em Pronto Atendimento do Hospital Israelita Albert Einstein.
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