A comissão científica do American College of Surgeons (ACS) Clinical Congress (ACSCC 2021), pelo quinto ano consecutivo, abre espaço para ensaios clínicos randomizados que apresentem algum resultado significativo e relevante, seja apresentado no congresso. Assim, foram selecionados seis ensaios em diferentes áreas da cirurgia e apresentados nesta mesa. A seguir foram selecionados alguns tópicos desta sessão.
Cisto pilonidal
O primeiro estudo foi resultado de um trabalho holandês que comparou o tratamento do cisto pilonidal, entre a cirurgia radical, considerado o tratamento com melhores resultados a longo prazo, com a fenolização do sinus. Já conhecido que a fenolização apresenta melhores resultados a curto prazo, porém a longo prazo ainda existiam dados imprecisos e portanto foi o objetivo do estudo. O tempo de observação foi de pelo menos dois anos após o procedimento, com objetivo de detectar recorrência e qualidade de vida. Não houve diferença na taxa de recorrência nem na qualidade de vida entre os grupos no longo prazo. Por apresentarem resultados semelhantes, os autores sugerem que o tratamento com fenolização deve ser a primeira opção de tratamento, por ser menos mórbida e o paciente tolerar melhor.
Íleo pós-operatório
O íleo pós-operatório corresponde a uma morbidade que significativamente aumenta o tempo de internação, podendo desencadear situação de ameaça à vida como broncoaspiração. Não há um exame de imagem que possa predizer se um paciente irá desenvolver algum grau de gastroparesia. O estudo da Universidade de Filadélfia avaliou se o uso de ultrassonografia na beira do leito pode auxiliar este manejo em pacientes submetidos a cirurgia colorretal.
O uso do POCUS, já é validado para avaliação gástrica, e os pacientes eram submetidos ao exame imediatamente após a intubação e no D1 pós-operatório. Os pacientes poderiam ser enquadrados em estômago cheio ou vazio de acordo com o resultado do exame no D1. Apenas o médico que realizou o exame possuía acesso ao resultado desta ultrassonografia, e portanto a condução de todos os envolvidos, seguiu o protocolo ERAS normalmente. Ao analisar o resultado, aqueles que foram classificados com estômago cheio, apresentaram maior tempo para recuperar as funções intestinais e uma tendência a maior internação hospitalar. Ainda é um estudo preliminar, mas pode representar um complemento ao exame físico em pacientes no pós-operatório.
Cateterismo
O uso de cateter vesical durante a correção de hérnia inguinal por vídeo é opcional e fica a critério do cirurgião. Alguns estudos sugeriram que o cateterismo pode diminuir a taxa de retenção urinária. O estudo multicêntrico, randomizou pacientes submetidos a correção laparoscópica de hérnia entre com cateterismo e sem cateterismo. Antes do procedimento todos os pacientes eram orientados a urinar para o esvaziamento completo da bexiga. Não houve diferença no quesito retenção urinária entre os grupos, no entanto ocorreram algumas lesões relacionadas ao cateterismo. Os autores concluíram que não se deve utilizar o cateter vesical de rotina em pacientes submetidos a correção cirúrgica de hérnia inguinal por vídeo, desde que eles esvaziam a bexiga antes do procedimento.
Hérnias ventrais
As hérnias ventrais são extremamente comuns assim como as cirurgias para correção das mesmas. Quanto maiores são as hérnias e a complexidade envolvida na sua correção, maiores são as discussões de qual a melhor abordagem de tratamento. Uma das questões que ainda não se tem uma resposta conclusiva é qual seria a melhor tela para ser utilizada. O trabalho selecionado avaliou o uso de telas sintéticas e telas biológicas em pacientes submetidos a reconstruções complexas da parede abdominal. Importante salientar que em 243 envolvidos no estudo, ocorreram 7 (2,9%) de óbitos em até 30 dias da cirurgia, o que reflete a complexidade desta patologia. Os autores, demonstraram que a tela biológica apresentou resultados promissores comparadas as telas sintéticas, no entanto a observação ainda é preliminar sem um resultado conclusivo.
Para levar para casa
Questões bastante práticas foram abordadas nesta sala, como o tratamento do cisto pilonidal e até o cateterismo para hérnia inguinal. No entanto, se mostrou bastante promissor o uso do POCUS no manejo de pacientes em pós-operatório imediato.
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Referências bibliográficas:
- Pronk AA, Smakman N, Furnee EJB. Short-term outcomes of radical excision vs. phenolisation of the sinus tract in primary sacrococcygeal pilonidal sinus disease: a randomized-controlled trial. Tech Coloproctol. 2019 Jul;23(7):665-673. doi: 10.1007/s10151-019-02030-w. Epub 2019 Jul 5. PMID: 31278458.
- Wilson S, et al. Implementation of a Frailty Assessment and Targeted Care Interventions and Its Association with Reduced Postoperative Complications in Elderly Surgical Patients. J Am Coll Surg. 2021 Aug 23:S1072-7515(21)01925-6. doi: 10.1016/j.jamcollsurg.2021.08.677. Epub ahead of print. PMID: 34438081.
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