O ácido tranexâmico (ATX) é um agente anti-fibrinolítico que atua na estabilização da matriz de fibrina reduzindo a lise do coágulo. Seu principal mecanismo é a inibição competitiva do receptor de lisina no plasminogênio. Tem aplicabilidade em sangramento menstrual intenso, prevenção de sangramentos em algumas situações em hemofilia. Seu uso também vem sendo estudo em cirurgias com alto potencial de sangramento, como cirurgias oncológicas.
O uso do ATX é oficialmente recomendado pelo Advanced Trauma Life Support (ATLS) 10ª edição em grandes traumas em que há hemorragia importante, com indicação de transfusão maciça de hemoderivados. A administração do ATX deve ser realizada em até 3 horas do trauma e uma dose de reforço após 8 horas.
Um ensaio clínico randomizado, Perioperative Ischemic Evaluation-3 (POISE-3) avaliou a eficácia e a segurança do ATX em pacientes submetidos à cirurgia geral e outros tipos de cirurgia, com exceção de cirurgias cardíacas, visando avaliar o potencial do TXA em reduzir eventos hemorrágicos maiores sem aumentar os ristromboos cardiovasculares.
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Métodos e resultados
O estudo contou com 9.535 pacientes que foram randomizados em 2 grupos: grupo que recebeu ATX (1g no início e 1g no final da cirurgia) e grupo que recebeu placebo. Os pesquisadores identificaram redução da incidência de sangramento no grupo ATX em relação ao placebo, com taxa evento hemorrágico em 9,1% nos pacientes do grupo ATX e 11,7% nos pacientes do grupo placebo com uma razão de risco de 0,76 (IC de 95%, 0,67 a 0,87; P < 0,001). Um subgrupo direcionado a pacientes submetidos à cirurgia geral apresentou razão de risco de 0,74, apontando redução de eventos hemorrágicos estatisticamente significativa no grupo ATX (IC de 95%, 0,59-0,93; P = 0,01).
Um fator preocupante com uso do ATX são os eventos cardiovasculares associados ao TXA, representados no estudo por acidente vascular cerebral não hemorrágico, trombose arterial periférica e tromboembolia venosa. No entanto, a análise do POISE-3 identificou taxas semelhantes de eventos cardiovasculares nos grupos TXA e placebo, com razão de risco 1,02 (IC de 95%, 0,92 a 1,14).
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Ponderações
Apesar de o subgrupo cirurgia geral no POISE-3 ter apresentado redução no risco de sangramento existem ressalvas que devem ser ponderadas. Há, por exemplo, uma dúvida se os benefícios observados foram, de fato, devidos à redução da trombólise ou por algum outro mecanismo diferente, ainda não identificado. Dados obtidos de tromboelastograma poderiam auxiliar na resolução dessa questão.
Ainda não é possível elencar tipos específicos de cirurgias em que o ácido tranexâmico pode, de fato, reduzir os riscos de eventos hemorrágicos. Recentemente o uso do ATX foi avaliado em cirurgias hepáticas, mas seu benefício não pôde ser comprovado com segurança. Além disso, os benefícios possivelmente apontados em um tipo de cirurgia não, necessariamente, será o mesmo em áreas cirúrgicas diferentes.
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