A doença hepática crônica avançada (DHCA) e a hipertensão portal clinicamente significativa (HPCS) trazem consigo a propensão ao fenômeno da hiperfibrinólise, em que a degradação enzimática acelerada do coágulo de fibrina pode agravar os quadros de hemorragia digestiva alta (HDA). A HDA é um diagnóstico sindrômico e, ao mesmo entre os cirróticos, ao contrário do que se imagina, não está, necessariamente, atrelada à hipertensão portal, como exposto na tabela abaixo.
Causas de hemorragia digestiva alta em cirróticos | |
Relacionadas com hipertensão portal |
Não relacionadas com hipertensão portal |
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Em RCT publicado em agosto/2024 na revista Hepatology, por Kumar e colaboradores, foi avaliada a eficácia e segurança do ácido tranexâmico (ATX), um agente antifibrinolítico, na HDA entre cirróticos Child-Pugh-Turcotte B ou C, uma descompensação aguda que implica em mortalidade de até 30% em 6 semanas.
Em 4 meta-análises pregressas, realizadas entre 2012 e 2022, a evidência para o uso do ATX na HDA foi considerada inconclusiva, e o medicamento, aparentemente, não se associa a benefício clínico. Contudo, a população cirrótica, particularmente susceptível à hiperfibrinólise, havia sido subrepresentada e não adequadamente estadiada, apontando para uma lacuna a ser explorada: o ácido tranexâmico (ATX) pode ser útil na HDA entre cirróticos avançados?
Pergunta PICO | ||
População |
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Randomização (1:1) |
Intervenção |
Controle |
Grupos | ATX (300 pacientes) | Placebo (300 pacientes) |
Outcomes |
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Os pacientes foram recrutados entre outubro/2020 e novembro/2022, com taxa de alocação de 75% (600 entre 794 avaliados para elegibilidade). O cálculo amostral, pautado em presunção de falência terapêutica de 15% no grupo placebo e 7,5% no grupo ATX, permitiu um poder estatístico de 80% com a inclusão de um total de 558 pacientes, número que foi superado.
Os grupos não diferiram quanto aos principais aspectos demográficos e nem em relação à abordagem da HDA entre cirróticos:
Terapia padrão da HDA (distribuição homogênea entre os grupos) |
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A idade média dos pacientes foi de 52 anos, com predomínio do sexo masculino (85%), com predomínio da etiologia alcoólica e MASLD (perfazendo, em conjunto, 80% do total) e alta prevalência de HDA varicosa (⅓ dos casos). Mais da metade dos participantes encontrava-se em uso de betabloqueadores. Houve ponderação equânime na gravidade, expressa pela classificação de MELD, Child-Pugh-Turcotte e gradiente de pressão venosa hepática.
O tempo porta-endoscópio médio foi de 180 minutos, sendo as principais etiologias de HDA a varicosa esofágica (70%), varicosa gástrica (10%) e úlceras esofágicas pós-ligadura elástica (5%). O sangramento ativo foi observado à endoscopia digestiva alta (EDA) em ¼ dos casos. O principal método hemostático foram as ligaduras elásticas (70%), com média de 6 bandas elásticas/procedimento, seguidas por escleroterapia e cianoacrilato.
A intervenção consistiu em administração de ATX:
- Ataque: 1 g (2 ampolas de 500 mg) diluído em 100 mL de NaCl 0,9% e administrado em 10 minutos;
- Manutenção: 3 g (6 ampolas) diluídos em 1.000 mL de NaCl 0,9% em infusão contínua por 24 horas.
O cegamento duplo dos pacientes e profissionais de saúde foi garantido pela farmácia clínica, que preparava as soluções de ácido tranexâmico (ATX) e placebo de forma semelhante.
O desfecho primário, pautado em falha terapêutica, foi definido por: estase gástrica de sangue vivo de ao menos 100 mL a partir de 2 horas de instituição de intervenção terapêutica; choque hipovolêmico ou queda da hemoglobina em 3 g/dL em um período de 24 horas.
Principais resultados | |||
Desfecho |
ATX |
Placebo |
P |
Falha terapêutica em 5 dias |
19/300 (6,3%) |
40/300 (13,3%) |
0,006 |
Demanda por nova ligadura elástica em 5 dias |
11/222 (4,9%) |
27/225 (12%) |
0,005 |
Falha em prevenção de ressangramento após 5 dias |
36/300 (12%) |
64/300 (21,3%) |
0,002 |
TIPS ou obliteração de varizes gástricas preemptivos |
5/300 (1,6%) |
4/300 (1,3%) |
0,736 |
Evento trombótico |
1/300 (AIT) |
0 |
1,0 |
Mortalidade em 5 dias |
11 (3,7%) |
17 (5,7%) |
0,333 |
Mortalidade em 6 semanas |
62 (20,7%) |
84 (28%) |
0,046 |
As principais limitações do estudo foram a unicentricidade (Instituto de Ciências do Fígado e Vias Biliares da Nova Delhi/Índia), que impede a generalização dos resultados; a alta prevalência de sangramento pós-ligadura elástica, que foi superior à média encontrada em outros estudos, o que pode estar associado à seleção de uma amostra de pacientes mais graves: MELD médio de 18, ⅓ deles com injúria renal aguda e mais de 20% com infecção à apresentação; a trombose portal e de vasos esplâncnicos, um desfecho de segurança importante, não foi avaliada de forma sistemática no momento da alocação e no seguimento em 6 semanas.
A redução da falha terapêutica e ressangramento no grupo ATX parece estar associada à prevenção de sangramento no sítio das ligaduras elásticas previamente realizadas, evento que tem como fatores de risco a realização do procedimento em contexto de urgência e a gravidade da DHCA.
Conclusão e mensagens práticas: ácido tranexâmico (ATX) na HDA
- O emprego de ácido tranexâmico na hemorragia digestiva alta entre cirróticos Child B ou C reduziu, de forma significativa, a falha terapêutica em 5 dias.
- O ponto forte do estudo é a adoção da intervenção de forma específica entre cirróticos Child B ou C, o que não havia sido avaliado em estudos precedentes.
- A principal ressalva reside no fato de se tratar de estudo unicêntrico e a ausência de avaliação sistemática de trombose venosa esplâncnica, uma complicação trombótica a que o cirrótico encontra-se particularmente susceptível.
- É importante a validação dos dados em outros cenários antes da adoção da intervenção como medida rotineira.
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