Um relógio inteligente pode registrar uma alteração no ritmo cardíaco em um momento em que o paciente está longe do consultório. Pode acompanhar a frequência cardíaca ao longo do dia, identificar padrões de atividade física e sono e, em alguns modelos, até realizar um traçado semelhante ao eletrocardiograma. Mas o que fazer quando o dispositivo vibra no pulso e avisa que há algo diferente?
A resposta não é transformar cada notificação em uma consulta de urgência, nem ignorá-la. Para a cardiologista Dra. Isabela Abud Manta, o caminho está em entender que o wearable é uma ferramenta de monitoramento, e não um médico de bolso.
“Quando ocorre um alerta nesses dispositivos, ele não deve ser interpretado como um diagnóstico, mas deve chamar a atenção para a necessidade de avaliação médica”, explica. Segundo ela, embora os dispositivos tenham boa capacidade para detectar algumas alterações, também podem produzir resultados falso-positivos ou falso-negativos. Por isso, uma arritmia, por exemplo, precisa ser confirmada por eletrocardiograma ou outro método diagnóstico validado.
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Quando o alerta do wearable realmente importa
Entre as alterações cardiovasculares que os wearables conseguem identificar com maior confiabilidade está a fibrilação atrial, uma arritmia que pode ser silenciosa e intermitente. Como nem sempre ela está presente durante uma consulta médica, o registro feito pelo próprio paciente pode ajudar a revelar episódios que passariam despercebidos.
Esse é um dos principais ganhos da tecnologia: transformar momentos do cotidiano em informações que podem complementar a avaliação médica. Os dispositivos conseguem acompanhar frequência cardíaca, ritmo, atividade física, sono e saturação de oxigênio. Alguns também oferecem estimativas de pressão arterial e registros eletrocardiográficos.
“Os wearables podem identificar precocemente algumas alterações que seriam silenciosas, como a fibrilação atrial, que pode levar a complicações graves potencialmente evitáveis, como um AVC”, afirma Dra. Isabela.
Mas isso não significa que qualquer alteração registrada pelo relógio tenha o mesmo peso. Taquicardias supraventriculares, flutter atrial e extrassístoles, por exemplo, ainda apresentam limitações de detecção. A identificação de sinais de isquemia também é restrita, assim como a estimativa da pressão arterial e de alterações relacionadas à descompensação da insuficiência cardíaca.
Além disso, fatores aparentemente simples podem interferir no resultado. Posicionamento inadequado do dispositivo e artefatos no sinal podem gerar notificações incorretas ou inconclusivas.
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O perigo de transformar dado em diagnóstico
O excesso de informação também pode produzir um efeito contrário ao desejado. Um alerta falso pode gerar ansiedade, consultas desnecessárias e uma sequência de exames que, ao final, não confirma nenhuma doença. Por outro lado, ignorar uma notificação relevante pode fazer com que uma alteração verdadeira deixe de ser investigada.
Por isso, a recomendação da cardiologista é não interpretar cada número ou aviso de forma isolada. A frequência cardíaca, por exemplo, pode variar naturalmente ao longo do dia e de acordo com a atividade, o estresse e o estado físico do indivíduo.
“O objetivo não deve ser monitorar obsessivamente cada dado, mas utilizá-los para reconhecer tendências e mudanças persistentes que necessitem de avaliação médica”, orienta.
Essa diferença entre alerta e diagnóstico é fundamental. O dispositivo pode indicar que algo merece atenção, mas cabe ao profissional determinar se aquela alteração é clinicamente relevante.
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O relógio não substitui o consultório
Na prática, os dados dos wearables devem ser incorporados ao histórico do paciente, ao exame físico e aos exames convencionais. Para pessoas que já têm uma doença cardíaca, informações como frequência, duração e quantidade de episódios de arritmia podem ajudar o cardiologista a acompanhar a evolução e até orientar decisões terapêuticas.
O benefício também pode ser relevante para pacientes que apresentam palpitações ou suspeita de arritmia, mas nunca tiveram a alteração registrada durante uma consulta ou em um eletrocardiograma convencional. Nesses casos, o dispositivo pode funcionar como uma extensão do monitoramento fora do ambiente médico.
“É importante conseguir identificar os dados relevantes e entender as limitações dos dispositivos e incorporar esses novos dados ao raciocínio clínico tradicional”, afirma Dra. Isabela.
Essa nova realidade também exige mudanças na própria prática médica. Com cada vez mais pacientes levando informações do relógio para o consultório, o cardiologista precisa saber quais dados têm valor clínico, como foram obtidos e quais são as possibilidades de erro. O desafio não é apenas interpretar mais informações, mas separar o que importa do que é ruído.
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Do alerta à prevenção
O próximo passo pode ser ainda mais sofisticado. A associação entre dispositivos vestíveis e inteligência artificial tem potencial para identificar mudanças nos padrões individuais antes que um evento cardiovascular se torne evidente. Como os wearables produzem dados continuamente, algoritmos podem comparar o comportamento atual com o padrão habitual daquela pessoa e detectar alterações mais sutis.
Essa possibilidade já é estudada especialmente em contextos como fibrilação atrial e insuficiência cardíaca. Para chegar ao uso seguro em larga escala, porém, ainda será necessário garantir qualidade dos dados, validação dos algoritmos em diferentes populações, segurança da informação, privacidade e definição clara sobre o que fazer quando um sistema identificar uma possível alteração.
No fim, a tecnologia não elimina a necessidade do médico. Ela pode aproximar o consultório da vida real do paciente, oferecendo informações que antes simplesmente não estavam disponíveis.
“Os dispositivos vestíveis devem ser usados com responsabilidade como ferramentas de prevenção, monitoramento e apoio à decisão, não como substitutos do médico ou dos métodos diagnósticos tradicionais”, resume Dra. Isabela. Para ela, o dispositivo deve funcionar como uma ponte: o paciente participa mais ativamente do próprio cuidado, enquanto o médico passa a contar com informações do cotidiano que complementam a avaliação tradicional.
A discussão integrou o Afya Summit 2026, realizado no Parque Ibirapuera, em São Paulo, no dia 29 de agosto, com o tema “Onde o futuro encontra quem vive a medicina”. O evento reuniu profissionais para discutir como a inovação pode transformar a prática médica sem abrir mão da segurança e do cuidado. Para acompanhar os próximos debates sobre o futuro da Medicina, o convite fica para o Afya Summit do ano que vem.
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