Quatro em cada dez médicos participantes de um estudo nacional relataram diagnóstico de algum transtorno mental. A presença dessas condições foi o fator mais fortemente associado à pior percepção de qualidade de vida, superando, nos modelos analisados, as contribuições de sexo, idade, região do país e estágio da carreira.
Publicado na PLOS One, o levantamento avaliou 2.005 médicos brasileiros e identificou uma carga particularmente elevada de depressão e ansiedade entre mulheres e profissionais mais jovens. Os resultados também apontam para a relação entre sofrimento psíquico, jornadas extensas, insatisfação com o sistema de saúde e prejuízos percebidos no exercício profissional.
Mais do que descrever a frequência de burnout, a pesquisa examina como saúde mental, desigualdades estruturais e condições de trabalho se combinam na percepção de bem-estar dos médicos. O desenho transversal, entretanto, não permite concluir que esses fatores causaram os desfechos observados.

Transtornos mentais foram relatados por 39,8% dos médicos
Entre os participantes, 39,8% informaram ter recebido diagnóstico de algum transtorno mental. Ansiedade foi a condição mais frequentemente relatada, por 33,5% da amostra, seguida de depressão, mencionada por 22,1%. Burnout foi informado por 6,7%, enquanto 6,3% relataram outras condições psiquiátricas.
A prevalência agrupada de transtornos mentais foi maior entre as mulheres, alcançando 46,8%, ante 33,5% entre os homens. Também foi mais elevada na faixa dos 26 aos 35 anos, na qual 49,6% dos médicos relataram algum diagnóstico.
Ansiedade e depressão foram mais frequentes entre as médicas
A diferença entre os sexos foi particularmente evidente nos relatos de ansiedade e depressão.
Ansiedade foi informada por 39,9% das mulheres e 25,1% dos homens. Para depressão, os percentuais foram de 25,3% e 17,7%, respectivamente. O estudo não encontrou diferenças estatisticamente significativas entre homens e mulheres para burnout e outras condições psiquiátricas.
Esses dados, porém, não equivalem a uma estimativa obtida por rastreamento clínico padronizado. Os pesquisadores utilizaram perguntas autorreferidas sobre sintomas ou diagnósticos, sem aplicar instrumentos como PHQ-9, GAD-7 ou DASS-21.
Na interpretação clínica, essa característica exige cautela: os resultados descrevem diagnósticos e experiências relatadas pelos participantes, e não a prevalência confirmada por entrevista psiquiátrica estruturada.
Saúde mental apresentou a associação mais forte com qualidade de vida
A qualidade de vida foi medida pelo WHOQOL-BREF, instrumento de 26 itens que avalia quatro domínios: físico, psicológico, relações sociais e ambiente.
Após a ponderação da amostra, os escores médios foram:
| Domínio | Escore médio, de 0 a 100 |
| Físico | 62,2 |
| Psicológico | 55,5 |
| Relações sociais | 56,5 |
| Ambiente | 63,6 |
| Média global calculada pelos autores | 59,5 |
Nos modelos multivariáveis, a presença de transtorno mental foi o principal fator associado à medida global de qualidade de vida.
Médicos com algum transtorno mental apresentaram, em média, dez pontos a menos no domínio psicológico e nove pontos a menos na medida global, em comparação com aqueles que não relataram transtorno. Os tamanhos de efeito foram de moderados a elevados: d de Cohen de −0,70 e −0,65, respectivamente.
As diferenças se estenderam aos demais domínios, com cerca de cinco pontos a menos nos escores físico e ambiental e quatro pontos a menos em relações sociais. Como a coleta ocorreu em um único momento, porém, não é possível determinar a direção da relação: o transtorno mental pode comprometer a percepção de qualidade de vida, mas condições de vida e trabalho desfavoráveis também podem alimentar o sofrimento psíquico.
Diferenças pequenas nos escores podem ocultar desigualdades relevantes
Os homens apresentaram escores discretamente superiores nos domínios físico e psicológico.
As mulheres, por outro lado, registraram escore seis pontos mais alto no domínio de relações sociais, com tamanho de efeito também pequeno. Esse resultado coexistiu com maior frequência de ansiedade, depressão e transtornos mentais agrupados entre as médicas.
Essa combinação impede uma leitura linear segundo a qual um único escore de qualidade de vida resumiria todo o impacto da desigualdade de gênero. Uma pessoa pode perceber suporte social satisfatório e, simultaneamente, conviver com adoecimento psíquico, sobrecarga ou dificuldades ocupacionais.
Renda por hora também diferiu entre homens e mulheres
A renda líquida mensal média informada foi de R$ 21.273. Entre as mulheres, a média foi de R$ 18.343, enquanto entre os homens chegou a R$ 24.960.
Parte dessa diferença ocorreu em um contexto de jornadas médias distintas: os homens relataram mais horas semanais de trabalho. No entanto, a desigualdade persistiu após a consideração do tempo trabalhado.
A renda líquida média por hora foi de R$ 113,80 entre as mulheres e R$ 137,80 entre os homens, uma diferença média de R$ 24 por hora, estatisticamente significativa.
O estudo não demonstra que a diferença remuneratória tenha causado os transtornos mentais. Os dados, contudo, acrescentam uma dimensão econômica às disparidades observadas na saúde e na experiência profissional das médicas.
Estresse foi relacionado a desempenho e erros autorreferidos
O impacto percebido do estresse também foi mais frequente entre as mulheres.
Prejuízo sobre o desempenho profissional foi relatado por 65,9% das médicas e 52,6% dos médicos. Erros médicos relacionados ao estresse foram mencionados por 34,1% das mulheres e 29,7% dos homens.
Entre as mulheres, 77,2% disseram que o estresse prejudicava relações pessoais, ante 64% dos homens. O aumento do estresse no ano anterior foi percebido por 49% e 44,1%, respectivamente.
Esses achados merecem atenção, mas não representam auditoria de prontuários, análise objetiva de eventos adversos ou comprovação de nexo entre sofrimento mental e erro assistencial. Tratam-se de percepções relatadas pelos próprios participantes.
Para o médico experienteo dado sinaliza uma possível repercussão da sobrecarga sobre a prática, mas não permite estimar a incidência real de erros nem atribuir causalidade ao estresse.
Carga de trabalho e sistema de saúde aparecem entre os principais estressores
A jornada média foi de 50,9 horas semanais. Entre os homens, alcançou 54,3 horas; entre residentes, 65,7 horas.
Os médicos exerciam suas atividades, em média, em 2,6 locais diferentes. Quase um quarto da amostra informou trabalhar entre 60 e 74 horas por semana, enquanto parcelas menores relataram jornadas ainda superiores.
A demanda excessiva de trabalho foi o fator mais frequentemente associado pelos participantes ao burnout, mencionado por 67,2% daqueles que relataram a síndrome. A sobrecarga também foi relacionada à ansiedade por 55,3% e à depressão por 53,5%.
A insatisfação com o sistema de saúde foi apontada por:
- 52,2% dos participantes com burnout;
- 48,1% daqueles com ansiedade;
- 47,9% dos que relataram depressão.
Também apareceram entre os fatores percebidos o investimento público insuficiente, a burocracia, as condições precárias de trabalho, a violência no ambiente profissional, a falta de reconhecimento e a remuneração considerada inadequada.
O levantamento não quantificou a contribuição causal de cada estressor. Ainda assim, a recorrência desses fatores sugere que o debate sobre burnout médico e condições de trabalho não se limita à capacidade individual de enfrentar pressão ou organizar a rotina.
Profissionais mais jovens concentraram maior vulnerabilidade
Os médicos de 26 a 35 anos apresentaram a maior frequência de transtorno mental autorreferido, de 49,6%.
Na avaliação de qualidade de vida, profissionais mais jovens também tiveram escores inferiores nos domínios físico e ambiental em comparação com os grupos de maior idade.
Médicos com até cinco anos de prática registraram escores físicos três a quatro pontos menores que aqueles com mais de 20 anos de carreira. Não foram encontradas diferenças significativas por estágio profissional nos demais domínios nem na medida global de qualidade de vida.
As análises gráficas indicaram uma trajetória não linear ao longo da idade, com pior percepção de qualidade de vida no início e no meio da vida profissional e melhora em faixas etárias mais avançadas.
Apesar desse padrão, idade e tempo de carreira explicaram apenas uma parte limitada da variação dos resultados. O estágio profissional teve contribuição desprezível nos modelos ajustados, enquanto transtorno mental permaneceu como o principal fator associado aos desfechos psicológico e global.
Isso significa que ser jovem ou estar no início da carreira não explica isoladamente o adoecimento. A interpretação deve considerar simultaneamente contexto ocupacional, renda, autonomia, local de trabalho, condições regionais e características não avaliadas pela pesquisa.
O tema se conecta à discussão sobre saúde mental na residência médica, período marcado por carga assistencial intensa e crescente responsabilidade profissional.
Diferenças regionais existiram, mas tiveram pequena magnitude
A análise por macrorregião identificou diferenças nos domínios físico e ambiental, embora com tamanhos de efeito pequenos.
No domínio físico, os menores escores foram observados no Norte. No ambiental, a média variou de 59,2 no Norte a 65,5 no Sul.
Não houve diferenças regionais estatisticamente significativas para relações sociais ou para a medida global de qualidade de vida. As variações encontradas, portanto, não sustentam uma divisão simples entre regiões de maior e menor bem-estar médico.
Além disso, profissionais de áreas rurais e regiões com menor acesso digital podem ter sido sub-representados, o que limita a avaliação de desigualdades territoriais mais específicas.
Hábitos saudáveis foram relatados por uma parcela limitada da amostra
Pouco mais da metade dos médicos, 55,7%, informou consumir mais alimentos frescos que processados. Atividade física regular, definida como pelo menos 150 minutos semanais, foi relatada por 41,7%.
Apenas 36,8% disseram corresponder às próprias expectativas de desenvolvimento profissional. Participação em atividades voluntárias foi informada por 11,4%, e 6% relataram praticar meditação ou mindfulness regularmente.
Menor atividade física, pior qualidade da alimentação, frustração com o desenvolvimento profissional e menor engajamento social estiveram associados à maior frequência de desfechos adversos de saúde mental, mostrando que saúde mental e estilo de vida se relacionam.
Como o estudo foi conduzido
A pesquisa transversal e nacional foi realizada pela internet entre 2 de julho e 6 de agosto de 2024 com médicos com registro ativo em um dos 27 Conselhos Regionais de Medicina e experiência prévia de uso ou assinatura de uma plataforma digital nacional de saúde. Os convites foram enviados por e-mail, notificações no aplicativo e redes sociais.
A amostra não foi probabilística. Para aproximá-la da distribuição nacional da população médica, os autores aplicaram ponderação pós-estratificação por sexo, macrorregião e faixa etária, com base na Demografia Médica no Brasil 2025.
Dos 2.005 participantes, 56,1% eram mulheres. Quase metade atuava na região Sudeste e 20,2% no Sul. Na formação, 30,5% eram médicos sem especialização concluída, 7,7% cursavam residência, 12,7% faziam pós-graduação e 49% eram especialistas.
O que limita a interpretação dos resultados
O estudo apresenta uma amostra ampla, uso de instrumento validado, ponderação estatística e modelos destinados a separar a contribuição de diferentes variáveis. Esses pontos fortalecem a análise, mas não eliminam limitações importantes.
Desenho transversal
Exposição e desfecho foram medidos no mesmo período. Assim, não é possível determinar o que ocorreu primeiro nem estabelecer relações de causa e efeito.
Seleção digital e amostra não probabilística
Todos os participantes já haviam utilizado uma plataforma digital de saúde. Médicos com menor acesso digital podem estar sub-representados.
Diagnósticos e erros autorreferidos
Transtornos mentais, impacto do estresse e erros médicos foram informados pelos próprios participantes.
Ausência de instrumentos psiquiátricos padronizados
Não foram aplicadas escalas diagnósticas específicas para depressão, ansiedade ou burnout.
Confundidores não avaliados integralmente
Comorbidades clínicas, diferenças entre trabalho público e privado e distribuição de carga horária por especialidade não foram completamente capturadas.
Baixo poder explicativo dos modelos
Os valores de R² foram baixos. Esse resultado indica que sexo, idade, região, fase da carreira e transtorno mental explicam somente parte da variação da qualidade de vida.
Escore global não padronizado
Os autores calcularam uma medida global como média dos quatro domínios do WHOQOL-BREF. Essa não é a forma-padrão de apresentação do instrumento, o que exige cautela em comparações com outras pesquisas.
O que os dados acrescentam à discussão sobre saúde mental dos médicos
O achado mais importante não é a proporção de médicos que relataram ansiedade, depressão ou burnout, mas o retrato de como esse adoecimento anda junto com outras coisas: diferenças de gênero, jornadas extensas, múltiplos vínculos, insatisfação com o sistema e a sensação de que o próprio trabalho é prejudicado. O sofrimento psíquico, nesse estudo, não aparece isolado — aparece enredado nas condições em que a medicina é exercida.
Esse adoecimento também não se distribui por igual. Mulheres e médicos mais jovens concentraram a maior carga de transtornos; os mais velhos pontuaram melhor em parte dos domínios de qualidade de vida. Mas os dados resistem a leituras simples. As mulheres tiveram mais morbidade psiquiátrica e, ao mesmo tempo, melhor escore em relações sociais. O estágio de carreira, associado a alguns resultados físicos, quase desapareceu nos modelos ajustados. Região e idade pesaram pouco. O que permaneceu forte, do começo ao fim, foi a associação entre transtorno mental e pior qualidade de vida.
É por isso que o estudo aponta menos para o esforço individual e mais para o ambiente. Programas de bem-estar que colocam sobre o médico a tarefa de “administrar o estresse” tratam o sintoma e ignoram a jornada, a remuneração desigual e a insatisfação com o sistema — justamente os fatores que os participantes mais citaram. Cuidar da saúde mental de quem cuida exige mexer nessas estruturas, não apenas ensinar o profissional a resistir a elas.
O desenho transversal não permite dizer o que veio antes, nem qual intervenção funciona. O que o estudo entrega é a dimensão do problema e a direção do próximo passo: acompanhar médicos ao longo do tempo e testar mudanças institucionais com desfechos que se possam medir. Enquanto isso não acontece, seus números já bastam para deslocar a pergunta — de “como tornar o médico mais resistente” para “o que, no exercício da medicina, está adoecendo quem a pratica”.
Autoria

Ester Ribeiro
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