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Carreira6 março 2026

Saiba mais sobre o burnout médico e as condições de trabalho na prática clínica

Relatório da OMS expõe riscos à saúde mental dos médicos e acende alerta para o Brasil

Ler que médicos e enfermeiros têm cinco vezes mais probabilidade de apresentar sintomas de depressão do que a população em geral é uma informação que deveria causar desconforto em todos nós, que atuamos nesta área. Ver que mais de 10% deles tiveram pensamentos suicidas deveria nos exigir uma pausa ainda maior para pensar sobre que caminho de carreira estamos construindo para seguir.

Esses dados fazem parte de um relatório da Organização Mundial da Saúde (2025), que avaliou a saúde mental e as condições de trabalho de mais de 100 mil médicos e enfermeiros na União Europeia, Islândia e Noruega. Números elevados de casos de ansiedade, depressão e ideação suicida foram lidados a jornadas excessivas, trabalho noturno, violência no ambiente profissional e vínculos com contratos pouco previsíveis.

Embora o levantamento seja europeu, a realidade descrita ecoa fortemente na prática clínica brasileira.

 O que revela o relatório MeND sobre burnout médico

O relatório Mental Health of Nurses and Doctors survey in the European Union, Iceland and Norway (MeND) procurou entender como nós, médicos, e enfermeiros estamos cuidando do nosso próprio bem-estar emocional e quais características do ambiente de trabalho funcionam como fator de risco ou proteção para essas condições.

Principais achados

  • Cerca de 1 em cada 3 médicos e enfermeiros apresenta sintomas de ansiedade ou depressão

  • Mais de 10% relatam pensamentos suicidas ou de automutilação

  • A prevalência de sintomas depressivos é cinco vezes maior do que na população geral (32% vs. 6%)

  • Um em cada quatro médicos trabalha mais de 50 horas por semana

  • Jornadas prolongadas e turnos noturnos estão diretamente associados a pior saúde mental

Leia mais: Veja como promover bem-estar dos intensivistas e prevenir burnout na UTI

Violência no trabalho e sofrimento psíquico

A pesquisa também evidencia o impacto da violência institucional:

  • Um terço dos profissionais sofreu bullying ou ameaças no último ano

  • Cerca de 10% relataram violência física ou assédio sexual

  • Entre os expostos a violência, assédio ou bullying, o sofrimento psíquico chega a ser até duas vezes maior

Esses fatores contribuem de forma direta para o desenvolvimento de burnout médico, agravando o esgotamento emocional e a perda de sentido no trabalho.

E o cenário brasileiro?

No Brasil, os dados caminham na mesma direção. O estudo Qualidade de Vida dos Médicos (2024), conduzido pelo Afya Research Center, também aponta elevada prevalência de adoecimento mental entre médicos em atividade.

Resultados relevantes

  • 39,8% dos médicos apresentam algum transtorno mental

  • 49,6% dos profissionais entre 25 e 35 anos estão adoecidos

  • 3,6% já precisaram de internação psiquiátrica nos últimos 12 meses

  • Jornada média de trabalho: 50,9 horas semanais

  • Médicos homens trabalham, em média, 6,2 horas a mais por semana do que médicas

Esses dados reforçam que o burnout médico não é exceção, mas consequência de um modelo de trabalho amplamente difundido.

Saiba mais: Cerca de 40% dos médicos apresentam quadros de doença mental

A cultura da normalização do excesso

Quem é médico em início de carreira entende bem isto. No começo dos plantões, aceitamos quase tudo, independentemente das condições de trabalho ou da extensão dos turnos seguidos, um após outro sem intervalos de descanso, pois esse é um ritual de passagem para o recém-formado.

Na residência médica, as 60 horas formais de trabalho escondem muitas outras horas dentro do hospital que não entram na conta, mas que são assim agora porque também eram na época dos preceptores, e nada mudou.

Falar de saúde mental na medicina era um tema que não cabia nas conversas dentro da profissão. Nessa cultura, durante muito tempo, confundimos cansaço extremo com comprometimento e o sofrimento emocional foi, muitas vezes, silenciado.

O medo de ser visto como frágil ou incompetente e a falta de espaços de acolhimento contribuíram para que o problema fosse ignorado por aqueles que cuidam dos outros, mas abriam mão de cuidar de si mesmos. E ainda continuamos ignorando boa parte disso e repetindo os alguns erros.

O que podemos aprender com esses dados?

Tanto o relatório europeu quanto o brasileiro deixam claro que esse modelo como a carreira médica é gerida hoje cobra um preço bem alto. No entanto, o estudo da OMS apontou alguns caminhos:

  • Ambientes em que há apoio frequente de colegas e supervisores apresentam taxas significativamente menores de ansiedade e depressão.
  • Estruturas institucionais voltadas à proteção do trabalhador, especialmente com medidas de prevenção da violência, estão associadas à redução de cerca de 50% nos indicadores de adoecimento mental.

Além disso, reduzir jornadas excessivas de trabalho, oferecer maior previsibilidade dos vínculos, fortalecer lideranças médicas, criar políticas de tolerância zero à violência e garantir acesso estruturado ao suporte em saúde mental, sem estigmas, são outras soluções que podem melhorar esses resultados. Muitas delas já vêm sendo debatidas pelas instituições, mas ainda andamos com passos lentos.

O que precisamos considerar com urgência é que cuidar da saúde mental dos médicos não vai fragilizar a profissão. Na verdade, é o que permite que sigamos cuidando dos pacientes com segurança e responsabilidade em sistemas de saúde cada vez mais complexos.

Hoje o adoecimento do médico faz, sim, parte do modelo de trabalho que construímos e agora precisamos ter coragem para repensá-lo.

Autoria

Foto de Juliana Karpinski

Juliana Karpinski

Editora médica assistente de Carreira da Afya. Médica e Jornalista formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). MBA em Gestão Estratégica pela UFPR.

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Referências bibliográficas

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