O médico que está na linha de frente do atendimento costuma ser um dos principais afetados quando uma ferramenta de inteligência artificial ou um prontuário eletrônico não funciona no momento necessário.
É o profissional que absorve a frustração provocada pelo sistema que gera informações depois que o paciente já deixou o serviço ou que exige etapas adicionais de autenticação durante uma consulta agitada.
Essas situações foram frequentemente atribuídas à dificuldade de diferentes plataformas trocarem informações entre si nos sistemas de saúde, problema relacionado à interoperabilidade.
No entanto, um artigo de opinião publicado no JAMA, em 2026, por Kannarkat et al., propõe uma reflexão: o problema pode não estar apenas na falta de acesso aos dados, mas também na impossibilidade de utilizá-los efetivamente dentro do fluxo real do trabalho clínico.

Por que esse debate sobre saúde digital é importante?
Os sistemas de saúde digital que o médico utiliza ao longo da vida profissional foram desenvolvidos em contextos regulatórios, econômicos e técnicos que afetam diretamente suas condições de trabalho.
Identificar quando uma dificuldade decorre de um problema de design ou de política — e não da falta de habilidade com tecnologia — tornou-se uma competência cada vez mais necessária.
Para médicos mais experientes e profissionais em posições de gestão, compreender esse debate também é fundamental para decidir quais sistemas adotar, exigir melhorias dos fornecedores e defender condições de trabalho mais adequadas para as equipes clínicas.
Antes de abordar a discussão proposta por Kannarkat et al. (2026), é importante compreender alguns dos principais conceitos envolvidos.
O que é interoperabilidade na saúde?
Interoperabilidade é a capacidade de diferentes sistemas de tecnologia em saúde, como prontuários eletrônicos, plataformas de gestão hospitalar e aplicativos clínicos, trocarem informações padronizadas entre si.
Considere um paciente com hipertensão e diabetes que faz acompanhamento em uma unidade básica de saúde, passou por uma internação hospitalar e, posteriormente, procura um cardiologista no setor privado.
Em um cenário com interoperabilidade, o cardiologista consegue acessar, pelo prontuário utilizado no consultório, o histórico da internação e das consultas realizadas na atenção básica.
Na prática, porém, o paciente muitas vezes chega com uma pilha de documentos impressos — quando traz algum registro — ou relata de memória os medicamentos que utiliza e os exames que realizou.
O que significa bloqueio de informações?
O bloqueio de informações, ou information blocking, descreve situações em que organizações de saúde ou fornecedores de tecnologia dificultam ou impedem o acesso a dados eletrônicos de saúde para proteger interesses comerciais.
Entre os exemplos citados por Kannarkat et al. (2026) estão:
- contratos que restringem o compartilhamento de dados entre plataformas concorrentes;
- documentação técnica incompleta de APIs;
- exigências contratuais desproporcionais para a integração de aplicativos de terceiros;
- tratamento desigual de solicitações de integração feitas por diferentes desenvolvedores.
O que são APIs?
Uma API, sigla de Application Programming Interface ou Interface de Programação de Aplicações, funciona como uma ponte que permite que dois sistemas se comuniquem automaticamente, sem que o usuário precise acessar cada plataforma separadamente.
Na saúde digital, as APIs podem permitir que um aplicativo clínico busque informações do prontuário eletrônico em tempo real, sem exigir novos logins.
Quando essas pontes são mal construídas, a comunicação entre os sistemas fica comprometida.
O que é bloqueio do fluxo de trabalho clínico?
Esse é o ponto central da discussão apresentada por Kannarkat et al. (2026).
Os autores argumentam que, mesmo após a redução do bloqueio de informações por meio de regulamentações que garantam o acesso aos dados, outro problema prejudicial pode persistir: o workflow blocking, traduzido neste texto como bloqueio do fluxo de trabalho.
Ele ocorre quando uma ferramenta digital consegue acessar os dados do prontuário, mas não consegue utilizá-los de forma integrada ao cuidado no momento em que ele acontece.
Nesse contexto, ter o dado disponível não significa necessariamente conseguir agir com base nele durante a consulta.
O impacto da documentação na rotina médica
Uma revisão publicada por Olakotan et al. (2025) analisou 28 estudos sobre os desafios de usabilidade dos prontuários eletrônicos e seus impactos na carga de documentação e no fluxo clínico.
Nos Estados Unidos, profissionais de saúde chegam a passar entre um terço e metade da jornada de trabalho interagindo com o prontuário eletrônico. Segundo a revisão, isso representa uma perda anual superior a US$ 140 bilhões em capacidade de cuidado.
Embora esses dados sejam norte-americanos, a lógica é reconhecível para médicos brasileiros que já precisaram completar evoluções após o fim do plantão ou aguardar o carregamento de um sistema durante uma emergência.
Principais problemas dos prontuários eletrônicos
A revisão identificou dificuldades que, quando aplicadas ao contexto brasileiro, ajudam a descrever situações frequentes nos serviços de saúde.
Alternância constante entre tarefas
Em setores de urgência e unidades de terapia intensiva, os profissionais mudam de tarefa dentro do prontuário, em média, 1,4 vez por minuto.
Essa alternância fragmenta a atenção e pode aumentar o risco de erros.
Sobrecarga cognitiva
Interfaces confusas, menus com muitos níveis de navegação, excesso de alertas e grandes volumes de dados sem organização exigem esforço mental adicional e podem comprometer o raciocínio clínico.
Desalinhamento entre o sistema e o fluxo de trabalho
Quando o prontuário não acompanha a forma como o cuidado acontece, os profissionais desenvolvem estratégias alternativas para compensar suas limitações.
Entre elas estão:
- anotar informações em papel para transcrevê-las posteriormente;
- utilizar planilhas para organizar listas de pacientes;
- copiar informações de evoluções anteriores para economizar tempo.
Fragmentação das informações clínicas
Resultados de exames laboratoriais, laudos de imagem e listas de medicamentos podem permanecer em módulos ou sistemas diferentes.
Como consequência, o médico precisa abrir múltiplas janelas para construir uma visão completa do paciente.
Como reduzir o bloqueio do fluxo de trabalho?
Com base nas questões apresentadas, Kannarkat et al. (2026) propõem três movimentos que deveriam ser incorporados às políticas de saúde digital.
1. Diferenciar acesso aos dados de usabilidade clínica
É necessário reconhecer que um acesso somente para leitura ou disponibilizado após o término do atendimento pode ser insuficiente para ferramentas destinadas a apoiar decisões em tempo real.
2. Ampliar a neutralidade nos caminhos de integração
Aplicativos desenvolvidos por diferentes empresas deveriam ter condições técnicas comparáveis para funcionar dentro dos fluxos clínicos.
3. Aumentar a transparência sobre as barreiras
Indicadores e relatórios podem tornar o bloqueio do fluxo de trabalho mais visível para reguladores, hospitais e profissionais de saúde.
Atualmente, esses agentes têm acesso limitado a informações estruturadas sobre as barreiras técnicas enfrentadas diariamente.
Saúde digital precisa funcionar no momento do cuidado
A interoperabilidade é uma condição importante para a transformação digital da saúde, mas não resolve isoladamente os problemas enfrentados pelo médico.
Para que uma tecnologia contribua efetivamente para o cuidado, não basta que os dados estejam disponíveis. Eles precisam aparecer no sistema adequado, no momento necessário e de maneira compatível com a tomada de decisão clínica.
Sob essa perspectiva, avaliar uma solução de saúde digital exige observar não apenas sua capacidade de trocar informações, mas também sua integração com a rotina real dos profissionais.
Autoria

Juliana Karpinski
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