Contar histórias é uma das formas mais antigas e poderosas de se comunicar, influenciar, ensinar ou inspirar alguém. As histórias cabem em praticamente qualquer conversa e, quando usadas com a intenção correta, podem se tornar uma ferramenta para orientar e engajar pacientes.
Quantas vezes você explicou um diagnóstico e entregou a prescrição ao paciente e ele retornou à consulta sem ter iniciado o tratamento? Algumas vezes julgamos isso como falta de interesse, mas o que pode estar acontecendo é a falta de conexão ou de compreensão da mensagem em meio a uma consulta correndo contra o tempo, com excesso de informação e jargões técnicos.
Quando você conta uma história para o seu paciente em vez de apenas informar números, porcentagens ou descrições, transmite a informação acompanhada de valores e significado, representando experiências de um personagem, a forma como ele lidou com o problema e as escolhas que fez.
O storytelling na prática clínica transforma dados técnicos em narrativas com significado. Ao ouvir uma história, o paciente tem tempo para refletir, se reconhecer na experiência apresentada e conectar a informação à própria realidade.

O que é storytelling?
O storytelling é a técnica de organizar as informações em forma de narrativa, que seja envolvente e persuasiva para quem a está escutando, vendo ou lendo.
Contar uma história ajuda a transformar conhecimento técnico transmitido pelo médico em algo que o paciente consegue aplicar na sua realidade de vida.
Mas aplicar o storytelling na prática clínica não significa só sair por aí contando historinhas para o paciente. É necessário ter planejamento da comunicação para organizar as informações em forma de narrativa, com personagens, desafios, contexto e propósito. Eles precisam ser capazes de dar sentido ao que o paciente deve entender e ativar áreas do cérebro ligadas à emoção, à memória e à tomada de decisão.
Por que usar storytelling na prática clínica?
Nagarkar et al. (2025) mostram que a técnica de contar histórias costuma gerar resultados melhores do que a educação em saúde tradicional. Isso é ainda mais forte em comunidades vulneráveis ou em grupos em que já há tradição de contação de histórias.
Isso acontece porque as histórias são informações mais fáceis de lembrar e ajudam o paciente a se enxergar nos personagens, imaginando como reagiria em situações parecidas. Quando o paciente se envolve com uma história, tende a ser menos resistente à mensagem que ela traz e isso acaba influenciando a como essa pessoa entende e cuida da própria saúde.
Goddu, Raffel e Peek (2015), também comentam que a narrativa influencia o comportamento ao simplificar as informações entre pacientes com menor alfabetização em saúde. Segundo eles, por meio da contação de histórias, os pacientes descobrem novas autopercepções ou pontos fortes, constroem confiança e conexões com seus pares, conseguem sustentar mudanças de comportamento, motivando ações futuras e geram mudanças de comportamento em grupos com histórico de desconfiança médica.
Independente de qual a forma da narrativa, seja em histórias contadas ou escritas, apresentações teatrais, depoimentos, dramas em rádio ou filmes, entre outros, uma das explicações para que a narrativa seja uma técnica eficaz está na teoria de Larkey e Hecht (2010), que defendem que o envolvimento e a inserção cultural com a narrativa impactam a mudança de comportamento por meio de três mediadores. Veja abaixo:
1. Transporte: O paciente se sente imerso na história, aumentando a abertura à mensagem.
2. Identificação: Ele se reconhece no personagem e aprende pelo exemplo.
3. Proliferação social: A história é compartilhada, ampliando o impacto e reforçando comportamentos.
Como aplicar storytelling na prática clínica
Ao se comunicar com o paciente, o médico deve pensar também na construção de histórias de impacto, capazes de motivar as pessoas, sem deixar a ética de lado. O primeiro passo para isso é compreender informações básicas como: quem é o meu paciente? Com o que o meu paciente se importa? Quais os objetivos e o que ele está tentando alcançar?
Tendo essas respostas como ponto de partida, a seguir você confere como estruturar suas histórias para melhorar a comunicação com os pacientes.
- Pense no tratamento como uma jornada
Em vez de apresentar uma lista de orientações, convide seu paciente a se colocar como protagonista para entender onde ele está, quais obstáculos pode encontrar, quais ferramentas terá à disposição e como será possível avançar etapa por etapa. - Use histórias semelhantes de outros pacientes
Sempre preservando o sigilo, quando contamos sobre um paciente que enfrentou a mesma condição e conseguiu resultados concretos ao seguir o plano terapêutico, criamos identificação para o paciente - Construa narrativas personalizadas
Escutar antes de orientar é o que garante que a narrativa seja verdadeira, ética e útil, porque o paciente quer ouvir algo que esteja próximo da realidade dele é aplicável a sua condição de vida. - Mostre o antes, o durante e o depois
Deixe claro na sua narrativa o que pode acontecer se paciente não seguir o tratamento conforme a orientação, o que esperar nas primeiras semanas e como poderá ser a vida após o controle da doença. - Utilize linguagem clara e humana
Os jargões médicos são uma barreira em qualquer circunstância da comunicação entre médicos e pacientes, então evite usá-los também nas suas histórias. Prefira a linguagem simples com clareza e rigor científico.
Autoria

Juliana Karpinski
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