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Carreira3 janeiro 2026

Quando a ciência encontra a prática: repensando diretrizes médicas

A nossa tendência é tratar diretrizes clínicas como se fossem mapas perfeitos, mas talvez ignoramos que a paisagem real muda sempre
Por Ester Ribeiro

Imagine estar diante de um paciente cuja condição desafia o que está nos protocolos. Você consulta a diretriz mais recente — extensa, rigorosa, tecnicamente impecável — mas, no fundo, sente que ela não encaixa. Não por falta de evidência, mas por excesso de distância da realidade. Como em um tratamento que diminui mortalidade, mas o paciente está com muitos efeitos colaterais e qualidade de vida muito pior.

Muitas vezes a nossa tendência é tratar diretrizes clínicas como se fossem mapas perfeitos, mas talvez estejamos ignorando que a paisagem real muda o tempo todo.

A Medicina Baseada em Evidências nos trouxe rigor, sim — e isso é inegociável – e excelente ao que se propõe. Mas será que, na ânsia de seguir o melhor caminho, não estamos esquecendo de olhar para o terreno em que pisamos?

Este ensaio propõe um olhar crítico (e honesto) sobre como desenvolvemos e aplicamos diretrizes clínicas hoje. Não se trata de jogar fora o que conquistamos, mas de abrir espaço para discutir o que ficou de fora — e quem ficou de fora — nesse processo. Porque, no fim das contas, evidência sem contexto pode virar armadilha. E nenhum de nós quer isso na prática. Afinal, sem o contexto e o olhar humano, qualquer máquina lógica faria o que fazemos.

 

O que propõe o artigo?

Um artigo do Journal of Evaluation in Clinical Practice joga luz sobre essa discussão. Os autores propõem algo simples na essência, mas poderoso na prática: integrar modelos analíticos de decisão ao desenvolvimento de diretrizes clínicas.

A ideia é somar à expertise e às evidências uma estrutura matemática que ajude a tornar o raciocínio mais transparente, replicável e centrado no que realmente importa: o paciente.

 

Por que isso importa?

Mesmo com metodologias robustas como o GRADE, boa parte das recomendações ainda depende da intuição dos especialistas. Isso traz dois problemas importantes:

  1. Decisões em “caixa-preta” — Não sabemos exatamente como se chegou àquela conclusão.
  2. Desfechos isolados — Muitas vezes, os efeitos adversos, custos e preferências do paciente ficam fora da equação.

E, sejamos honestos: quem consegue tomar boas decisões lendo páginas de tabelas de evidência sob pressão?

A proposta na prática

Os modelos analíticos de decisão utilizam o formato PICO e incorporam dados já presentes nas tabelas SoF, permitindo calcular uma métrica de utilidade clínica líquida (ΔEU) — ou seja, o saldo real de benefício de uma intervenção.

O resultado? Uma recomendação baseada em múltiplos desfechos integrados (benefício, risco, custo) em vez de uma análise fragmentada. E o melhor: o modelo pode ser construído em cerca de 10 minutos. Nada de utopia acadêmica — é algo viável.

 

Vantagens reais para a prática

  • Mais clareza sobre como chegamos a uma decisão.
  • Mais agilidade na construção e revisão de diretrizes.
  • Mais confiança para quem aplica as recomendações no dia a dia.
  • Mais conexão com a realidade clínica e com o que o paciente valoriza.

E os desafios?

Claro, eles existem:

  • É preciso capacitação técnica para construir e interpretar esses modelos.
  • Mudanças geram resistência, especialmente quando questionam métodos já estabelecidos.
  • A qualidade dos modelos depende da disponibilidade de dados clínicos confiáveis.

 

Conclusão: e agora, o que fazer?

Chegamos a um ponto em que já não basta perguntar “o que diz a diretriz?”. É hora de questionar também “como ela foi construída?”. Se quisermos diretrizes mais úteis, mais humanas e mais conectadas à prática, precisamos mudar a forma como elas são desenvolvidas.

Isso exige ação.

  • Para quem elabora diretrizes: vale explorar seriamente a incorporação de modelos de decisão.
  • Para sociedades médicas: é hora de investir em formação e ferramentas que facilitem essa transição.
  • Para médicos assistenciais: mesmo que não participem diretamente da construção, entender como esses modelos funcionam é uma forma de usar a evidência com mais segurança e senso crítico.

A medicina que queremos — precisa, sensível, personalizada — depende de diretrizes à altura desse desafio. E a boa notícia é que já temos o caminho. Falta agora dar o próximo passo.

 

Autoria

Foto de Ester Ribeiro

Ester Ribeiro

Graduada em Medicina pela PUC  de Campinas. Médica Nefrologista pelo Hospital Santa Marcelina de Itaquera. Título em Nefrologia pela Sociedade Brasileira de Nefrologia.

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