Imagine estar diante de um paciente cuja condição desafia o que está nos protocolos. Você consulta a diretriz mais recente — extensa, rigorosa, tecnicamente impecável — mas, no fundo, sente que ela não encaixa. Não por falta de evidência, mas por excesso de distância da realidade. Como em um tratamento que diminui mortalidade, mas o paciente está com muitos efeitos colaterais e qualidade de vida muito pior.
Muitas vezes a nossa tendência é tratar diretrizes clínicas como se fossem mapas perfeitos, mas talvez estejamos ignorando que a paisagem real muda o tempo todo.
A Medicina Baseada em Evidências nos trouxe rigor, sim — e isso é inegociável – e excelente ao que se propõe. Mas será que, na ânsia de seguir o melhor caminho, não estamos esquecendo de olhar para o terreno em que pisamos?
Este ensaio propõe um olhar crítico (e honesto) sobre como desenvolvemos e aplicamos diretrizes clínicas hoje. Não se trata de jogar fora o que conquistamos, mas de abrir espaço para discutir o que ficou de fora — e quem ficou de fora — nesse processo. Porque, no fim das contas, evidência sem contexto pode virar armadilha. E nenhum de nós quer isso na prática. Afinal, sem o contexto e o olhar humano, qualquer máquina lógica faria o que fazemos.

O que propõe o artigo?
Um artigo do Journal of Evaluation in Clinical Practice joga luz sobre essa discussão. Os autores propõem algo simples na essência, mas poderoso na prática: integrar modelos analíticos de decisão ao desenvolvimento de diretrizes clínicas.
A ideia é somar à expertise e às evidências uma estrutura matemática que ajude a tornar o raciocínio mais transparente, replicável e centrado no que realmente importa: o paciente.
Por que isso importa?
Mesmo com metodologias robustas como o GRADE, boa parte das recomendações ainda depende da intuição dos especialistas. Isso traz dois problemas importantes:
- Decisões em “caixa-preta” — Não sabemos exatamente como se chegou àquela conclusão.
- Desfechos isolados — Muitas vezes, os efeitos adversos, custos e preferências do paciente ficam fora da equação.
E, sejamos honestos: quem consegue tomar boas decisões lendo páginas de tabelas de evidência sob pressão?
A proposta na prática
Os modelos analíticos de decisão utilizam o formato PICO e incorporam dados já presentes nas tabelas SoF, permitindo calcular uma métrica de utilidade clínica líquida (ΔEU) — ou seja, o saldo real de benefício de uma intervenção.
O resultado? Uma recomendação baseada em múltiplos desfechos integrados (benefício, risco, custo) em vez de uma análise fragmentada. E o melhor: o modelo pode ser construído em cerca de 10 minutos. Nada de utopia acadêmica — é algo viável.
Vantagens reais para a prática
- Mais clareza sobre como chegamos a uma decisão.
- Mais agilidade na construção e revisão de diretrizes.
- Mais confiança para quem aplica as recomendações no dia a dia.
- Mais conexão com a realidade clínica e com o que o paciente valoriza.
E os desafios?
Claro, eles existem:
- É preciso capacitação técnica para construir e interpretar esses modelos.
- Mudanças geram resistência, especialmente quando questionam métodos já estabelecidos.
- A qualidade dos modelos depende da disponibilidade de dados clínicos confiáveis.
Conclusão: e agora, o que fazer?
Chegamos a um ponto em que já não basta perguntar “o que diz a diretriz?”. É hora de questionar também “como ela foi construída?”. Se quisermos diretrizes mais úteis, mais humanas e mais conectadas à prática, precisamos mudar a forma como elas são desenvolvidas.
Isso exige ação.
- Para quem elabora diretrizes: vale explorar seriamente a incorporação de modelos de decisão.
- Para sociedades médicas: é hora de investir em formação e ferramentas que facilitem essa transição.
- Para médicos assistenciais: mesmo que não participem diretamente da construção, entender como esses modelos funcionam é uma forma de usar a evidência com mais segurança e senso crítico.
A medicina que queremos — precisa, sensível, personalizada — depende de diretrizes à altura desse desafio. E a boa notícia é que já temos o caminho. Falta agora dar o próximo passo.
Autoria

Ester Ribeiro
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