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Carreira24 setembro 2026

Inteligência artificial no pronto-socorro alivia a carga, mas não o tempo

Inteligência artificial no pronto-socorro não reduziu significativamente o tempo, mas melhorou a experiência dos médicos na revisão de prontuários.
Por Ester Ribeiro

A inteligência artificial não economizou tempo no pronto-socorro, mas os médicos sentiram que sim. E os dois resultados podem estar corretos.

Em um pronto-socorro de um hospital acadêmico de alta complexidade, muitas pessoas precisam ser avaliadas em pouco tempo. Entre elas, estão pacientes já conhecidos pelo serviço, mas com histórias clínicas espalhadas por dezenas de notas de evolução em um prontuário eletrônico que se transformou em um labirinto de texto.

O médico lê rapidamente e sob pressão, sabendo que uma informação importante pode estar enterrada em um parágrafo que talvez não tenha tempo de abrir.

Foi para enfrentar essa dificuldade que pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego testaram uma ferramenta de inteligência artificial integrada ao prontuário eletrônico. A tecnologia utilizava grandes modelos de linguagem para gerar resumos automáticos das notas clínicas.

O estudo foi publicado em junho de 2026 no JAMA Network Open. Seu resultado chama atenção justamente por não confirmar a expectativa mais otimista sobre o uso de inteligência artificial no pronto-socorro.

IA no pronto-socorro não reduziu significativamente o tempo

O estudo acompanhou dez médicos emergencistas. Cada profissional foi observado diretamente durante três plantões com a ferramenta de IA e três sem ela.

Ao todo, foram analisados 60 plantões, com pacientes reais e quadros graves. Um observador cronometrava o tempo efetivamente dedicado à revisão dos prontuários.

O tempo médio de revisão caiu de aproximadamente 19 para 17,7 minutos por plantão. Por paciente, passou de 2,11 para 1,92 minuto.

A diferença, entretanto, não foi estatisticamente significativa. Dentro do rigor do método, portanto, não é possível afirmar que a inteligência artificial economizou tempo.

Seis dos dez médicos ficaram mais rápidos, enquanto quatro ficaram mais lentos. Um deles demorou 53% mais para revisar os prontuários com a ferramenta.

O resultado do cronômetro, porém, não encerra a discussão.

Médicos perceberam menos dificuldade na revisão dos prontuários

Antes do estudo, os participantes estimavam gastar 6,5 minutos por paciente revisando o prontuário. Depois da experiência com a ferramenta, essa estimativa caiu para 4,7 minutos.

A percepção de dificuldade da tarefa também diminuiu. Em 80% das respostas coletadas após os plantões, os médicos classificaram os resumos como fáceis de usar e úteis.

Eles também relataram:

  • revisão mais rápida dos prontuários;
  • maior agilidade na elaboração das notas;
  • identificação de informações que poderiam ter passado despercebidas.

O cronômetro mudou pouco, mas a experiência de trabalho se modificou.

A questão levantada pelo estudo é relevante: quando o médico sente que uma tarefa ficou mais leve, mas o relógio não confirma essa impressão, qual medida representa melhor o benefício da ferramenta?

Provavelmente, as duas estão medindo resultados reais, mas diferentes.

Carga cognitiva também influencia a eficiência médica

O tempo não é a única variável relevante durante a revisão de um prontuário. Existe também a carga cognitiva, ou seja, o esforço mental necessário para localizar, filtrar e determinar quais informações são clinicamente importantes.

Dois médicos podem gastar os mesmos dois minutos em uma revisão. Um deles pode estar procurando informações de forma ansiosa em grandes blocos de texto. O outro pode ler um resumo e utilizar o tempo disponível para confirmar os pontos-chave.

O tempo é semelhante. A experiência, o desgaste e a margem para erro, não.

Demorar mais pode significar investigar melhor

Há ainda uma possível interpretação contraintuitiva para os quatro médicos que ficaram mais lentos com a ferramenta.

O tempo adicional pode não representar necessariamente perda de eficiência. Um bom resumo pode levantar uma hipótese diagnóstica que o médico ainda não havia considerado.

Uma nova hipótese gera novas perguntas, exames a verificar e aspectos da história clínica que precisam ser aprofundados. Nesse cenário, os minutos adicionais são investidos em raciocínio clínico, e não na procura de informações fragmentadas.

Informações que poderiam passar despercebidas

Um dos achados mais relevantes do estudo foi o relato de que a ferramenta permitiu identificar informações que poderiam ter sido perdidas durante a revisão convencional.

Um resumo pode ajudar o médico a localizar um dado registrado em uma nota de semanas anteriores, como uma alergia, um exame prévio ou uma internação capaz de modificar a conduta.

Nesse caso, o possível benefício da inteligência artificial no pronto-socorro não está apenas na velocidade, mas na capacidade de tornar informações clínicas relevantes mais visíveis.

Leia mais: Entenda como a IA pode apoiar a prática clínica com segurança

Limitações ajudam a explicar o resultado

Os autores reconhecem limitações importantes.

A ferramenta resumia apenas notas em texto livre. Dados estruturados, como resultados laboratoriais e sinais vitais, não eram incluídos, embora sejam informações que também exigem tempo de busca.

O comando utilizado para gerar os resumos era fixo e a janela de contexto era limitada. Isso fazia com que a ferramenta priorizasse a documentação mais recente.

Além disso, os médicos nunca haviam utilizado o sistema antes do estudo. A análise, portanto, registrou o primeiro contato dos profissionais com a tecnologia.

Mesmo sem acessar todos os dados e sendo utilizada por médicos ainda pouco familiarizados com seu funcionamento, a ferramenta produziu uma percepção consistente de utilidade e uma tendência, embora não significativa, de redução do tempo.

Ganhos objetivos podem se tornar mais evidentes à medida que os médicos se familiarizem com o sistema e a integração com o prontuário seja aprimorada.

Leia mais: Entenda se a IA interpreta prontuários médicos com precisão

O ganho que o cronômetro não mede

Alguns médicos relataram que passaram a escrever suas notas mais rapidamente com o apoio da ferramenta.

Quando o profissional não precisa reconstruir toda a história clínica desde o início, pode dedicar menos atenção à tela enquanto o paciente fala.

A tecnologia que reduz o tempo diante do teclado não economiza apenas digitação. Ela também pode devolver ao médico a possibilidade de olhar para a pessoa à sua frente.

Na prática clínica, presença não é um luxo. É parte do cuidado.

Leia mais: Diagnósticos por IA na emergência: apoio à decisão ou risco ao raciocínio clínico?

Como avaliar a inteligência artificial na medicina

Ferramentas de inteligência artificial tendem a ser apresentadas com a promessa de economizar determinados minutos por paciente. O estudo mostra por que métricas isoladas devem ser interpretadas com cautela.

Um tempo de atendimento semelhante pode esconder ganhos relacionados à segurança, à carga mental e à capacidade de localizar informações relevantes.

O paciente pode se beneficiar por caminhos que o cronômetro não identifica. Da mesma forma, o médico pode considerar uma ferramenta útil mesmo quando ela não reduz objetivamente o tempo de trabalho.

Esses resultados precisam ser avaliados separadamente.

Neste estudo, o principal ganho talvez não tenha ocorrido em minutos, mas no que a ferramenta permitiu ao médico enxergar, sentir e evitar.

A pesquisa não respondeu definitivamente a essa questão. No entanto, mostrou que, ao avaliar a inteligência artificial no pronto-socorro, talvez seja necessário medir mais do que o tempo.

#Conteúdo otimizado com o auxílio de IA e revisado pela equipe do Portal Afya.

Autoria

Foto de Ester Ribeiro

Ester Ribeiro

Editora médica na Afya. Médica pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Camp), com residência médica em Clínica Médica e Nefrologia pelo Hospital Santa Marcelina (2016). Além da atuação na Afya, também atenda em consultório particular e clínica de diálise.

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