Ninguém pode negar o quanto estudamos para alcançar o título de médico e, mais ainda, para manter o de bom médico. Cursinho, graduação, residência, mestrado, doutorado… Provavelmente, em algum momento dessas etapas da formação, alguém ensinou, de forma explícita ou não, que médico bom é médico que sabe.
Não importa se foi durante uma apresentação de caso clínico no corredor da residência ou pela postura de um preceptor que nunca pausava diante de uma dúvida. A mensagem era a mesma: competência se demonstra mais com respostas do que com perguntas.
O que poucos ensinam é como lidar com aquilo que não se sabe. Acabamos aprendendo, também sem que alguém precise dizer, a contornar as lacunas de conhecimento, respondendo com o que parece suficiente ou seguindo em frente como se a certeza já estivesse presente.
A dificuldade de reconhecer as próprias limitações cobra um custo que vai além de uma lacuna pontual de conhecimento clínico. A ciência começa a medir esse impacto sobre a incerteza na prática médica.
Um editorial publicado por Sani e O’Brien (2026) no Journal of General Internal Medicine colocou essa questão no centro de uma discussão que já não é apenas filosófica. O artigo comenta um estudo de Battistone et al. (2025), realizado com 12 médicos de um centro universitário norte-americano, todos supervisores de residentes e estudantes de medicina.
Os achados desafiam o que muitos profissionais aprenderam a acreditar sobre autoridade clínica.

O que é humildade intelectual na medicina?
Humildade intelectual é a capacidade de reconhecer os limites do próprio conhecimento e a possibilidade de que as próprias crenças estejam erradas (Porter e Schumann, 2017).
Parece uma habilidade simples — e esse é justamente o problema. A medicina foi construída em uma cultura que historicamente penaliza quem admite não saber, embora a prática clínica exija, diariamente, decisões tomadas em cenários de incerteza.
A cultura da certeza e a autoridade clínica
Battistone et al. (2025) documentaram essa tensão ao entrevistar 12 médicos hospitalistas. Os participantes descreveram dois objetivos permanentes e conflitantes:
- demonstrar competência;
- reconhecer os próprios limites.
Segundo os relatos, a colisão entre esses objetivos gera ansiedade profissional.
No editorial, Sani e O’Brien (2026) apontam que revelar uma limitação diante de residentes pode ser interpretado como fragilidade, em vez de modelagem profissional. Por isso, muitos médicos escolhem o silêncio.
Reconhecer esse risco oferece um argumento para praticar a humildade intelectual de maneira intencional.
O que médicos considerados excelentes fazem de forma diferente?
Outro estudo qualitativo, publicado por Wadhwa e Mahant (2022) no BMC Medical Education, entrevistou 13 médicos indicados pelos próprios pares como excelentes em um centro universitário de Toronto.
Nenhuma pergunta do roteiro mencionava humildade. Mesmo assim, o tema surgiu espontaneamente como um elemento relevante para o conceito de excelência clínica.
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Reconhecimento interno dos próprios limites
Os médicos descreveram a humildade a partir de duas perspectivas. Internamente, eles:
- reconheciam os próprios limites;
- calibravam a confiança sem arrogância;
- mantinham abertura à evolução do conhecimento científico.
Abertura à equipe e ao paciente
Externamente, esses profissionais:
- reconheciam o valor coletivo da equipe;
- ouviam o paciente como fonte ativa de aprendizado;
- reduziam barreiras hierárquicas que bloqueavam a comunicação.
Eles não descreveram a humildade como um estado passivo. Saber o que não se sabe era o que mantinha acesa a curiosidade pela profissão.
Em outras palavras, a lacuna de conhecimento era usada como motor para melhorar, não como motivo de vergonha.
Dizer “eu não sei” diante de residentes e pacientes
O estudo de Battistone et al. (2025) documentou como a humildade intelectual aparece — ou deixa de aparecer — no cotidiano de quem supervisiona equipes. Os autores também registraram que essa postura tende a se tornar mais natural com a experiência.
Modelar a humildade para médicos mais jovens tem um valor formativo que dificilmente pode ser reproduzido por uma aula formal.
Um médico que demonstra publicamente não saber uma resposta e a busca de forma transparente com a equipe não necessariamente enfraquece sua autoridade clínica. Ele revela que a incerteza existe mesmo entre profissionais experientes e que há caminhos para enfrentá-la.
Segurança psicológica e liderança médica
A segurança psicológica do ambiente determina, em grande parte, se a humildade intelectual pode ser expressa. Isso coloca médicos em posições de liderança como responsáveis diretos por esse clima.
Diante disso, cabe uma pergunta: qual foi a última vez que você disse “eu não sei” a um paciente ou residente sem tentar compensar a admissão com uma série de informações?
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Incerteza calibrada como parte da excelência clínica
Os estudos apresentados indicam que médicos considerados excelentes reconhecem a humildade como um pilar da prática, enquanto investigações sobre supervisão clínica mostram o valor educacional de admitir limites.
Dizer “eu não sei” pode ser um ato de sabedoria dentro da medicina. O desafio é ter confiança suficiente para fazê-lo.
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Autoria

Juliana Karpinski
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