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Carreira6 agosto 2026

IA na documentação clínica libera o médico ou apenas amplia a produtividade?

Inteligência artificial na documentação clínica reduz o tempo gasto com registros e pode ampliar a capacidade de atendimento médico.

A carga de trabalho associada ao preenchimento de documentos permanece como um dos principais desafios da prática médica. Parte relevante da jornada profissional é dedicada aos registros eletrônicos, muitas vezes em detrimento do tempo disponível para a assistência ao paciente.

Dados apresentados no estudo indicam que médicos podem gastar até 2,3 horas de um turno de oito horas com o registro eletrônico. Quando essa atividade se estende para além do expediente, há uma relação estabelecida com o burnout entre profissionais da assistência.

A disponibilização de transcritores humanos representa uma alternativa tradicional, mas apresenta custos elevados e limitações de escalabilidade. Nesse contexto, a inteligência artificial na documentação clínica pode viabilizar a transcrição de consultas, exames e procedimentos com maior custo-efetividade e aplicação em escala populacional.

Embora diferentes modelos já sejam empregados nessa função, ainda há necessidade de quantificar sua usabilidade e seus efeitos sobre o estresse, a sobrecarga de trabalho e o burnout dos profissionais de saúde.

Estudo avalia assistentes de IA em cinco instituições

O estudo avaliou o impacto de transcritores baseados em IA sobre o tempo destinado ao preenchimento de registros eletrônicos e documentos clínicos, além de examinar possíveis repercussões na atividade assistencial.

Foram analisadas cinco instituições de saúde dos Estados Unidos. A amostra incluiu profissionais de medicina ambulatorial e atenção primária, médicos assistentes, profissionais de prática avançada e médicos residentes.

Ao todo, foram avaliados 8.518 médicos e outros profissionais, dos quais 1.809 utilizaram ferramentas de transcrição por IA.

Perfil dos profissionais avaliados

A composição da amostra apresentou as seguintes características:

  • 74% eram médicos assistentes;
  • 54% eram do sexo feminino;
  • aproximadamente 25% atuavam na atenção primária;
  • 13% trabalhavam em especialidades cirúrgicas;
  • os demais participantes pertenciam a especialidades clínicas.

IA reduz tempo dedicado aos registros eletrônicos

A implementação dos assistentes de inteligência artificial esteve associada a ganhos mensuráveis na documentação e na capacidade de atendimento.

Entre os principais resultados, foram observados:

  • redução de 13,4 minutos no tempo total gasto com os Registros Eletrônicos de Saúde;
  • redução de 16 minutos no tempo destinado à elaboração de documentos;
  • possibilidade de realizar 0,49 consulta adicional por semana;
  • associação com receita adicional de US$ 167 por médico ao mês.

Os efeitos foram mais expressivos entre médicas, profissionais de prática avançada, especialistas em atenção primária e participantes que utilizaram a tecnologia em pelo menos metade dos atendimentos.

Leia mais: ACP 2025: como a inteligência artificial pode reduzir a sobrecarga do médico

Resultados reforçam o potencial operacional da tecnologia

O uso da IA como apoio ao preenchimento de documentos é uma aplicação intuitiva. No entanto, a mensuração dos resultados é necessária para validar a tecnologia e ampliar sua aceitação entre os profissionais.

Segundo o estudo, os benefícios da ferramenta superaram seus custos, uma vez que o sistema liberou tempo para outras atividades e reduziu o período dedicado à documentação fora do expediente.

Médicas e profissionais da atenção primária foram os grupos que apresentaram os maiores benefícios.

Leia também: Entenda como a inteligência artificial pode otimizar a gestão médica

Limitações exigem cautela na interpretação

Apesar dos resultados favoráveis, o estudo apresenta limitações que devem ser consideradas na interpretação dos achados:

  • desenho observacional, sem randomização;
  • diferenças na implementação das ferramentas entre as instituições;
  • concentração da análise em centros acadêmicos, que geralmente apresentam menor volume de atendimentos;
  • ausência de avaliação direta do burnout;
  • período curto de acompanhamento após a adoção da tecnologia.

Esses fatores impedem conclusões definitivas sobre todos os efeitos da inteligência artificial na documentação clínica, especialmente sobre o esgotamento profissional e os resultados de longo prazo.

O que os dados representam para a prática médica

O estudo oferece uma perspectiva favorável sobre o emprego de assistentes de IA na rotina médica. Os resultados indicam redução do tempo destinado à documentação e possível ampliação da capacidade de atendimento.

A pesquisa, entretanto, não avaliou todas as variáveis envolvidas na implementação desse tipo de ferramenta. Seus achados devem ser interpretados como evidências iniciais sobre viabilidade e impacto operacional, além de reforçarem a necessidade de estudos mais robustos.

Autoria

Foto de Gabriel Quintino Lopes

Gabriel Quintino Lopes

Editor médico na Afya, em B2B. Cardiologista com MBA em Gestão em Saúde pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Combina prática clínica de alta complexidade — coordenou o serviço de cirurgia cardíaca da Santa Casa de Barra Mansa, onde liderou redução de mortalidade perioperatória de 30% para 5% em três anos — com governança em operadora de saúde (conselheiro administrativo da Unimed Barra Mansa) e empreendedorismo em modelos novos de cuidado, como idealizador da Zure Saúde, primeira clínica de atenção primária por assinatura do Sul Fluminense.

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