No Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, o debate sobre diversidade na saúde ganha contornos que vão além do acesso ao cuidado. Ele alcança também quem produz esse cuidado. Em um sistema historicamente marcado por exclusões, a presença (ainda rara) de profissionais transexuais na medicina e nas demais áreas da saúde expõe entraves estruturais, mas também aponta caminhos possíveis para uma prática mais ética, plural e coerente com os princípios do SUS.
Para a médica de Família e Comunidade Bia Selles, que atua na atenção primária e tem longa trajetória de defesa dos direitos LGBTQIAPN+, a baixa presença de pessoas trans na medicina não é fruto de falta de interesse ou capacidade individual, mas consequência direta de um percurso educacional profundamente desigual. “As instituições de ensino e a sociedade como um todo ainda são muito violentas com pessoas trans”, afirma.
Dados recentes indicam que a maioria dessa população enfrenta agressões verbais ainda na escola e que uma parcela significativa sofre violência física, o que contribui para evasão escolar precoce e dificulta o acesso ao ensino superior, especialmente em cursos tidos como mais “elitizados”, como a Medicina.
Nesse contexto, políticas afirmativas, como cotas para pessoas trans em universidades, surgem como instrumentos importantes, ainda que insuficientes, para alterar um cenário historicamente excludente. “Alcançar a universidade ainda é uma realidade distante para muitas pessoas trans”, ressalta a médica, apontando que o debate sobre diversidade precisa ser estrutural, e não pontual.

Preconceito como barreira silenciosa
Mesmo quando conseguem acessar a formação e o mercado de trabalho, pessoas trans enfrentam obstáculos persistentes. Segundo Dra. Bia, o preconceito segue sendo o principal fator de exclusão, muitas vezes de forma velada. “Ainda estamos presos a normas rígidas sobre como alguém deve ser ou viver sua identidade, como se isso tivesse relação com competência profissional”, observa. A ruptura com padrões cisheteronormativos continua sendo vista, em muitos ambientes, como um desvio – e não como expressão legítima da diversidade humana.
Essa percepção também aparece no relato de Rafa Braga, fisioterapeuta trans masculino. Ele conta que seu maior receio ao iniciar a transição foi perder o emprego ou pacientes. A experiência prática, no entanto, revelou nuances importantes.
No ambiente de trabalho, o uso do nome social foi respeitado e incluído nos cadastros institucionais, ainda que escorregadas com pronomes persistam, inclusive por parte de colegas e chefias. Entre pacientes, especialmente idosos, o desafio maior tem sido a adaptação, muitas vezes mais ligada à dificuldade do que à hostilidade explícita.
Rafa percebe, inclusive, que hoje é mais ouvido e reconhecido profissionalmente por pacientes que não sabem que ele é trans, o que evidencia como o preconceito pode operar de forma inconsciente, moldando relações de confiança e autoridade no cuidado em saúde.
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Formação médica, cultura institucional e responsabilidade coletiva
Para Dra. Bia Selles, uma das raízes do problema está na formação em saúde. A ausência de conteúdos estruturados sobre gênero, sexualidade, raça e outras dimensões sociais nos currículos médicos limita a capacidade de profissionais reconhecerem o sujeito que está sendo cuidado. “Discutir essas pautas deveria ser transversal a todas as disciplinas”, defende. Reconhecer singularidades, segundo ela, amplia o repertório clínico, fortalece a empatia e reduz julgamentos que se traduzem em práticas excludentes.
A responsabilidade, no entanto, não deve recair sobre profissionais trans. “Educar colegas é uma escolha individual; respeitar identidades é uma obrigação institucional”, afirma a médica. Rafa reforça esse ponto ao relatar o cansaço de ser constantemente cobrado a ter paciência diante de atitudes transfóbicas, como se coubesse a ele acolher a violência, e não o contrário.
Ambientes de saúde mais seguros exigem ações contínuas: mecanismos claros de combate à transfobia, educação permanente das equipes, revisão de fluxos burocráticos e infraestrutura pensada para a diversidade – algo que ainda falha em aspectos básicos, como o acesso a banheiros adequados.
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Visibilidade que transforma o cuidado
A presença de profissionais transexuais nos serviços de saúde não tem impacto apenas simbólico. Ela transforma o cuidado. Para Rafa, equipes diversas enriquecem as relações de trabalho e qualificam o acolhimento dos pacientes. Para Dra. Bia, a atenção primária, especialmente no SUS, é um espaço privilegiado para produzir uma medicina integral, centrada na pessoa e comprometida com a redução das iniquidades.
Essa visão é atravessada também por sua vivência pessoal como mãe de um adolescente trans, experiência que ampliou seu entendimento sobre autonomia, vínculo e responsabilidade ética. “Não basta estar disponível para acolher; é preciso construir ativamente conhecimento e práticas que reconheçam a identidade de gênero como determinante social da saúde”, afirma.
No Dia Nacional da Visibilidade Trans, a mensagem que emerge é clara: garantir espaços seguros e dignos para profissionais trans não é apenas uma questão de diversidade no mercado de trabalho. É uma exigência ética da medicina. “Respeitar a identidade de gênero não assegura apenas o direito à saúde”, conclui a médica. “Assegura o direito de existir”.
Autoria

Redação Afya
Produção realizada por jornalistas da Afya, em colaboração com a equipe de editores médicos.
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