Em uma sala de cirurgia, a divisão de tarefas não está escrita em nenhum quadro, mas todos sabem o que fazer: o cirurgião opera, o instrumentador entrega os instrumentos e o anestesista cuida do sono e da dor. Cada profissional sabe onde termina sua função e começa a do outro.
Quando essa fronteira está clara, a equipe flui de forma harmônica. Quando não está, pode haver confusão — e quem sai perdendo é o paciente.
A inteligência artificial entrou na medicina sem uma definição prévia de quem faz o quê. Ela está presente nos prontuários, nos laudos de imagem, nos sistemas de prescrição e até nos plantões noturnos dos residentes, mas sem que tenha sido estabelecido claramente o papel de cada agente na tomada de decisão.
A questão central é: em uma consulta ou em um diagnóstico, onde termina o trabalho da máquina e começa o trabalho médico?
Em 2026, a revisão A scoping review of human-AI collaboration patterns and task divisions in healthcare applications, publicada na npj Digital Medicine, tentou responder exatamente a essa pergunta.
You e Li analisaram 85 estudos sobre o trabalho colaborativo entre humanos e IA na saúde e mapearam, tarefa por tarefa, como essa divisão vem ocorrendo na prática clínica. O resultado não é um manual rígido, mas um retrato que ajuda a compreender como médicos e sistemas de IA têm trabalhado juntos.

Como ocorre a divisão de trabalho entre médicos e IA
A conclusão central é que a divisão de trabalho entre médicos e IA acompanha o risco inerente e o grau de automação de cada tarefa.
Quanto maior o risco clínico e menor a possibilidade de automação, mais o médico permanece no controle. Já tarefas de baixo risco e facilmente automatizáveis são delegadas principalmente à máquina. Entre esses extremos, existem atividades colaborativas e complementares.
Tarefas de alto risco e baixa automação
Decisões relacionadas a tratamentos invasivos permanecem sob controle médico. Nesses casos, a IA atua apenas como geradora de propostas.
Adotar uma sugestão produzida pelo sistema significa assumir a decisão como própria.
Tarefas de baixo risco e alta automação
Atividades como preencher prontuários, anotar imagens ou segmentar automaticamente estruturas em exames podem ser executadas, em grande parte, pela IA.
O médico entra posteriormente no processo para revisar e corrigir o que for necessário.
Tarefas intermediárias e automação parcial
Classificação, detecção e diagnóstico inicial ocupam uma posição intermediária. Nesses casos, a IA amplia o alcance do médico, mas o resultado final ainda depende de supervisão humana.
O sistema pode, por exemplo, apontar regiões suspeitas em uma lâmina de patologia. Cabe ao patologista decidir o que esse achado significa para aquele paciente.
Da mesma forma, a IA pode sugerir rótulos diagnósticos, enquanto o médico revisa especialmente os casos incertos e alimenta o modelo com suas correções.
Em geral, You e Li resumem que “a IA domina operações intensivas em dados, enquanto os médicos focam na experiência e supervisão”.
A máquina é rápida no processamento de grandes volumes de informação. O humano se destaca no julgamento clínico e na adaptação a cada caso.
Responsabilidade médica no uso da inteligência artificial
Em todas as tarefas de alto risco, o médico retém o controle final. Afinal, quem tem CRM também mantém a responsabilidade pela decisão.
Ao seguir uma sugestão da IA, o profissional não está simplesmente delegando uma escolha. Ele assume aquela decisão como sua.
Esse ponto fica evidente nos estudos analisados. Quando a IA apresenta uma sugestão incorreta ou enviesada, nem sempre o médico consegue filtrar o erro.
O trabalho humano não consiste apenas em executar ou corrigir. Consiste em julgar.
O raciocínio clínico, construído caso a caso e nutrido pela experiência, não é algo que a máquina entrega pronto. Se o estudante abre mão desse processo desde o início da formação, pode perder justamente a parte do trabalho que não deve ser transferida à IA.
Leia mais: Diagnósticos por IA na emergência: apoio à decisão ou risco ao raciocínio clínico?
Consultar a IA antes ou depois da avaliação médica?
Entre os sete modos de colaboração descritos pela revisão, destaca-se o chamado AI-later aid. Nesse modelo, o médico chega primeiro a uma conclusão independente e só depois consulta a sugestão da IA.
À primeira vista, o processo pode parecer ineficiente. Por que não verificar logo o que o algoritmo indica?
A lógica é que, ao ver primeiro a resposta da IA, o pensamento do médico pode se ancorar naquela sugestão pronta e deixar de explorar outras possibilidades.
Decidir primeiro preserva o raciocínio independente e transforma a IA em uma segunda opinião, não na primeira voz.
A ordem da consulta pode influenciar o diagnóstico
Não por acaso, esse padrão aparece associado principalmente a tarefas diagnósticas. Evitar a ancoragem é relevante em situações nas quais o viés de sugestão pode ter consequências importantes.
Os estudos, no entanto, não são unânimes sobre qual ordem produz melhores resultados.
Em diagnósticos por imagem, como radiografias de joelho ou eletrocardiogramas, apresentar a sugestão da IA primeiro mostrou-se mais eficaz. Já no diagnóstico de dor abdominal aguda, os médicos que decidiram primeiro e consultaram a IA depois obtiveram melhores resultados.
A lição não é escolher uma única sequência para todas as situações. É reconhecer que a ordem em que o médico consulta a IA pode influenciar a qualidade da decisão.
Esse processo deve ser definido conscientemente, e não deixado ao acaso ou à configuração do sistema.
Leia mais: IA na prática médica: apoio ao raciocínio ou risco de conforto cognitivo?
O paciente ainda é pouco considerado nos estudos
Um ponto importante destacado pela revisão é que poucos dos estudos analisados consideraram a perspectiva do paciente.
Foram avaliados fatores como acurácia, tempo de decisão e carga cognitiva do médico. No entanto, ainda se sabe pouco sobre a confiança e a aceitação do paciente diante de um diagnóstico assistido por IA.
A confiança importa. Como apontam os autores, a baixa confiança do paciente na IA pode prejudicar a adesão ao tratamento ou a satisfação, mesmo quando o desempenho técnico do sistema é elevado.
Uma divisão de tarefas pode parecer eficiente na teoria, mas perder valor clínico se enfraquecer o vínculo que sustenta o tratamento.
O que permanece sob responsabilidade do médico
Em última análise, a IA leva a medicina a reafirmar uma pergunta antiga: o que é insubstituivelmente humano na prática clínica?
A resposta emergente da pesquisa é consistente. À máquina ficam o processamento de dados e as tarefas repetitivas. Ao médico permanecem o julgamento clínico, a supervisão cuidadosa e a responsabilidade de cuidar de outra vida.
A divisão de trabalho observada em uma sala de cirurgia nunca precisou ser escrita porque foi aprendida ao longo de gerações.
A divisão de trabalho entre médicos e IA, por sua vez, está sendo definida agora, em tempo real, por cada profissional e cada estudante que decide o que pode delegar e o que deve preservar.
Essa escolha deve ser intencional. O CRM em jogo continua sendo o do médico.
#Conteúdo otimizado com o auxílio de IA e revisado pela equipe do Portal Afya.
Autoria

Ester Ribeiro
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