Quando Dona Marta entrou no consultório, sem pressa e com o sorriso de sempre no rosto, o celular já estava em sua mão. Sentou-se inquieta e, antes mesmo que eu pudesse perguntar como estava, virou a tela na minha direção para mostrar uma mensagem enviada pela irmã no grupo da família.
O texto, sem autoria e sem data, afirmava que a estatina prescrita na última consulta, após exames alterados, “destrói o fígado em silêncio” e que os médicos não contam isso porque a “indústria não deixa”.
Ela ainda não havia suspendido o medicamento, mas veio me perguntar, com muito receio e simplicidade, se eu poderia trocar a estatina por algo mais natural.
Aquele texto mal formatado e cheio de negritos estratégicos havia sido compartilhado com Dona Marta por alguém conhecido, provavelmente com a boa intenção de protegê-la. Era um exemplo de desinformação em saúde embrulhada em formato de afeto.
E isso não acontece apenas com Dona Marta.
Um artigo publicado no Journal of General Internal Medicine discute que as atuais estratégias populacionais de combate à desinformação em saúde, que vão do monitoramento em tempo real às parcerias com plataformas, apresentam eficácia limitada e não alcançam os grupos mais vulneráveis (Lim, Dunn e Ng, 2025).
O médico geralmente chega ao encontro com o paciente com pouco tempo e nem sempre se sente preparado para conduzir uma conversa sobre desinformação em saúde, mesmo quando a oportunidade aparece.
O paciente, por sua vez, pode chegar à consulta em um silêncio estratégico. Evita mencionar o que pesquisou ou recebeu por mensagem por medo de ser julgado pela busca de informações online, de ouvir que o assunto é irrelevante ou de perceber que o médico não tem tempo para explicá-lo.
Os autores do artigo propõem uma estrutura inspirada nos níveis clássicos de prevenção em saúde pública. Aplicados à desinformação em saúde, esses quatro níveis redefinem o papel do médico antes e depois do momento em que o paciente vira o celular em sua direção.

Prevenção primordial da desinformação em saúde
O nível mais profundo de atuação procura evitar que o paciente desenvolva fatores de risco para acreditar em desinformação, entre eles baixa literacia em saúde, desconfiança na ciência e pensamento conspiratório.
O médico pode contribuir recomendando fontes confiáveis de informação e produzindo materiais educativos de qualidade.
Construir uma relação de confiança com o paciente ao longo do tempo também faz parte dessa estratégia. Isso inclui ser honesto sobre efeitos adversos e estar disposto a dizer o que ainda não sabemos, quando for o caso.
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Prevenção primária antes da exposição a informações falsas
Nesse nível, entram o que os autores chamam de inoculação e as estratégias de pré-desmistificação.
A proposta é antecipar, durante a consulta, os mitos mais comuns sobre determinada medicação ou condição clínica. É diferente de esperar que o paciente apresente uma informação errada para somente então corrigi-la.
O médico pode explicar, por exemplo, que o paciente provavelmente encontrará nas redes sociais informações de que determinado medicamento faz mal ao fígado. Em seguida, pode esclarecer de onde vem essa ideia e por que os dados não a sustentam.
A antecipação não elimina a desinformação em saúde, mas ajuda a reduzir seu efeito quando ela aparecer, muitas vezes embalada pela voz de alguém próximo em quem o paciente confia.
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Prevenção secundária para identificar a desinformação na consulta
Quando o paciente já foi exposto, o trabalho é identificar a informação falsa e intervir antes que o dano aconteça.
Isso exige perguntar sobre os hábitos de busca de informações em saúde como parte natural da anamnese, e não como um interrogatório.
Perguntar se o paciente pesquisou algo sobre o medicamento antes da consulta ou se alguém enviou alguma informação sobre sua condição pode abrir uma janela clínica importante.
O esclarecimento precisa ser feito com comunicação personalizada, reconhecendo que a preocupação do paciente é legítima, mesmo quando a fonte da informação não é.
Prevenção terciária para manejar as consequências clínicas
A não adesão intencional ao tratamento e o uso inadequado de terapias sem comprovação são, segundo os autores, complicações da desinformação já instalada.
Para manejá-las, o médico deve adotar uma postura sem julgamento e estar disposto a discutir os benefícios e os riscos de cada opção, inclusive das alternativas não baseadas em evidências.
Sempre que possível, a tomada de decisão deve ser compartilhada. Manter o paciente vinculado ao cuidado é mais importante do que vencer o debate.
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A desinformação em saúde não vai diminuir
Os grupos de mensagens continuarão encaminhando textos sem autoria. As pessoas continuarão confiando mais em links desconhecidos enviados por quem conhecem do que em informações baseadas em evidências produzidas por quem não conhecem.
O que podemos mudar é nossa postura diante disso.
Como propõem Lim et al. (2025), é necessário assumir que cada encontro clínico também é um ato de saúde informacional. Essa não é uma tarefa exclusiva das plataformas digitais ou dos órgãos de saúde.
Mesmo com o aumento da desinformação no ambiente digital, o paciente ainda confia no médico mais do que em qualquer outra fonte de informação em saúde. Essa confiança é um recurso clínico que pode ser utilizado com a mesma seriedade e responsabilidade com que usamos um estetoscópio.
Dona Marta, depois de uma explicação atenta sobre o que os estudos realmente mostram a respeito da segurança hepática das estatinas, saiu com o mesmo medicamento prescrito, na mesma dose e, espero, com um pouco mais de critério para avaliar as próximas mensagens compartilhadas no grupo da família.
Autoria

Juliana Karpinski
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