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Carreira23 julho 2026

Comunicação de riscos ao paciente: números esclarecem ou confundem decisões?

Comunicação de riscos ao paciente exige contexto. Veja três comparações numéricas que tornam benefícios, riscos e opções mais claros na consulta.

Uma informação médica comunicada corretamente pode não ser suficiente para que o paciente tome uma decisão clara sobre sua saúde. Esse aspecto deve ser considerado antes de o médico compartilhar estatísticas, probabilidades ou estimativas de risco durante a consulta.

Por mais informações e dados que sejam utilizados para explicar uma condição médica ou um tratamento, pode existir uma lacuna entre o que o profissional comunica e o que o paciente realmente compreende e consegue usar para tomar uma decisão sobre sua saúde.

Essa dificuldade está relacionada ao conceito de literacia em saúde, definido como a capacidade do paciente de processar e compreender informações básicas de saúde para tomar decisões adequadas.

O mesmo se aplica à numeracia em saúde, uma dimensão da literacia que envolve a capacidade de compreender, interpretar e utilizar números. Na medicina, informações numéricas estão presentes em estimativas de risco, benefícios terapêuticos, resultados de exames e probabilidades de eventos clínicos.

A dificuldade é que informações médicas apresentadas apenas por meio de números nem sempre têm um significado claro para os pacientes. Quando o médico utiliza comparações numéricas de forma intencional, o dado deixa de ser apenas uma estatística e passa a apoiar uma decisão mais consciente e compartilhada.

Um artigo publicado por Peters e Jennings no JAMA, em abril de 2026, parte desses fundamentos da comunicação em saúde e defende que médicos utilizem comparações numéricas ao comunicar riscos e opções terapêuticas.

A comunicação centrada na pessoa proposta pelos autores considera que os pacientes avaliam as informações de maneira diferente quando elas são apresentadas isoladamente ou em conjunto com outras alternativas.

Leia também: Aprenda a comunicar riscos ao paciente de forma clara, ética e segura.

Por que usar comparações na comunicação de riscos ao paciente?

Os pacientes podem ter dificuldade para compreender dados numéricos de saúde quando eles são comunicados sem contexto. Quando esses dados são associados a uma comparação, tornam-se mais úteis para a tomada de decisão e podem contribuir para mudanças de comportamento.

Peters e Jennings reconhecem que o tempo disponível durante a consulta é limitado para explicações muito detalhadas. Ainda assim, recomendam que o médico priorize informações expressas em riscos absolutos, em vez de apresentar apenas riscos relativos.

Por exemplo, é preferível informar que 40% dos pacientes se beneficiam com o tratamento A, enquanto 20% se beneficiam com o tratamento B. Essa apresentação tende a ser mais fácil de interpretar do que afirmar apenas que o tratamento A é duas vezes mais eficaz.

Três formas de apresentar comparações numéricas

1. Não apresente uma informação numérica isoladamente

Ao explicar que 45% dos pacientes entram em remissão com uma terapia combinada, em comparação com 15% dos que recebem monoterapia, o médico permite que o paciente identifique as diferenças entre as opções.

Essa comparação contribui mais para a decisão do que informar apenas que 45% dos pacientes entram em remissão com a terapia combinada, sem apresentar uma alternativa.

2. Compare o que acontece com e sem a intervenção

Não realizar uma intervenção também representa uma escolha. Comparar o que pode acontecer com e sem determinada conduta ajuda o paciente a dimensionar a decisão que precisa tomar.

Por exemplo, informar que uma vacina reduz o risco de gripe de 21% para 11% oferece mais contexto do que dizer apenas que pacientes vacinados apresentam risco de 11% de desenvolver a doença.

A comparação apresenta simultaneamente o risco inicial e o possível benefício da intervenção.

3. Compare o risco individual com o de outros pacientes

Comparar o risco individual com o observado em outro grupo também pode facilitar a compreensão.

Dizer a um paciente com diabetes que seu risco de acidente vascular cerebral é de 11%, em comparação com 4% na população geral, oferece mais contexto sobre a magnitude do risco do que informar apenas o percentual individual de 11%.

Leia mais: Aprenda estratégias de comunicação médica para alinhar expectativas do paciente.

Comparações numéricas como apoio à decisão compartilhada

A comunicação de riscos ao paciente não depende apenas da precisão dos dados apresentados. Também exige que esses números sejam organizados de maneira compreensível e relacionados às alternativas disponíveis.

Ao comparar tratamentos, apresentar os possíveis resultados de realizar ou não uma intervenção e contextualizar o risco individual, o médico transforma informações estatísticas em elementos mais úteis para a tomada de decisão compartilhada.

O objetivo não é simplificar excessivamente a informação médica, mas oferecer referências que permitam ao paciente compreender melhor as diferenças entre riscos, benefícios e opções de cuidado.

Autoria

Foto de Juliana Karpinski

Juliana Karpinski

Editora-assistente médica na Afya. Médica e Jornalista formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com MBA em Gestão Estratégica pela mesma instituição (2022).

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Referências bibliográficas

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