As pesquisas médicas vêm produzindo uma quantidade crescente de dados numéricos para descrever riscos de mortalidade, probabilidades de benefício ou malefício e efeitos adversos. Esse avanço é positivo para a tomada de decisão em saúde, mas ampliou a dependência da interpretação adequada desses números, criando um descompasso entre a informação disponível e a capacidade do paciente de compreendê-la.
Para nós, médicos, comunicar riscos não se limita a apresentar estatísticas durante a consulta. Trata-se de construir uma estratégia capaz de dar sentido aos números, de modo que a conversa seja acessível e sustente a confiança necessária para uma decisão compartilhada.
O desafio de dar significado aos números
O que significa para um paciente ouvir que há 4% de chance de complicações após uma cirurgia? Ou que a probabilidade de um efeito colateral grave é de 2%? Números isolados dizem pouco se não forem contextualizados na realidade individual do paciente.
Na prática, diante da decisão por um procedimento ou tratamento, muitos pacientes não compreendem, ignoram ou distorcem essas informações, recorrendo a relatos pessoais ou a fontes da internet para embasar suas escolhas.
Quem nunca percebeu, durante uma consulta, o receio de um paciente porque um vizinho passou mal com determinado medicamento ou porque um conhecido teve complicações em uma cirurgia semelhante?
Existem estratégias específicas para que os médicos superem a complexidade desse desafio da comunicação médica. Pensando nisso, Peters et al compartilharam no artigo Communicating Numeric Risk Information to Patients, publicado no Journal of General Internal Medicine, a perspectiva sobre alguns desses desafios, como superá-los e sugerem boas práticas para comunicar informações sobre riscos aos pacientes.

Por que comunicar riscos é tão difícil?
Diversos fatores tornam esse processo complexo. Um deles é a tendência de comunicadores — incluindo médicos — de usar descrições verbais ou qualitativas, como “raro” ou “comum”, em vez de números. O problema é que essas expressões são interpretadas de forma muito variável e frequentemente levam à superestimação de riscos.
Além disso, muitos pacientes têm baixa familiaridade com números e dificuldade de compreender até estatísticas simples. Mesmo quando entendem o valor numérico, nem sempre conseguem atribuir significado prático. A diferença entre 16% e 20% de mortalidade, por exemplo, pode parecer irrelevante para alguns e alarmante para outros.
Somam-se a isso os atalhos mentais usados na tomada de decisão, como valorizar experiências pessoais de amigos ou familiares mais do que evidências científicas. Outro ponto crítico é a incerteza inerente aos dados, baseados em populações específicas e nem sempre diretamente aplicáveis a um paciente individual. Há ainda o risco de o médico presumir compreensão de termos técnicos ou estatísticos que, na realidade, são mal interpretados.
Estratégias para comunicar melhor os riscos
No artigo Communicating Numeric Risk Information to Patients, publicado no Journal of General Internal Medicine, Peters et al. discutem estratégias práticas para enfrentar esses desafios.
A primeira é, sempre que possível, usar números em vez de palavras. Dizer que há “7% de chance de dor de cabeça” costuma ser mais claro do que afirmar que o efeito é “comum”.
Outra recomendação é reduzir o esforço cognitivo do paciente, apresentando apenas os dados mais relevantes, já calculados e contextualizados, evitando sobrecarga de informações.
Também é fundamental dar significado aos números, por meio de comparações e referências. O médico pode explicar, por exemplo, que um risco de 6% costuma ser considerado alto ou que o risco individual do paciente é de 6%, enquanto a média populacional é de 12%. Além disso, é importante esclarecer que estimativas são aproximações, variáveis conforme características individuais, usando expressões como “em torno de”, “aproximadamente” ou mostrando intervalos de confiança.
Testar a compreensão: etapa essencial
Como estratégia final, Peters et al. recomendam testar a comunicação por meio do ensino reverso. Pedir ao paciente que repita, com suas próprias palavras, o que entendeu permite identificar falhas de compreensão e corrigi-las antes que levem a decisões equivocadas.
Mais do que precisão científica, o médico exerce também o papel de educador e tradutor do conhecimento médico. Comunicar riscos é um processo que exige linguagem acessível, contextualização, empatia e estratégias de alfabetização em saúde. Quando bem conduzida, essa comunicação fortalece a autonomia do paciente, a confiança na relação médico-paciente e a qualidade das decisões compartilhadas no cuidado.
Autoria

Juliana Karpinski
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.