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Carreira18 agosto 2026

Como aplicar a tomada de decisão compartilhada na consulta médica

Tomada de decisão compartilhada integra evidências, experiência clínica e preferências do paciente para orientar escolhas mais alinhadas durante a consulta.

“Você tem alguma dúvida?” Muitas vezes, essa é a última pergunta de uma consulta médica. Quase automática e feita sem que se espere uma resposta positiva, ela costuma surgir depois que o diagnóstico já foi estabelecido e a conduta definida pelo médico. Ao paciente, cabe apenas ouvir e seguir as orientações.

Esse modelo paternalista, baseado na transmissão de informações e com pouca participação de quem recebe a mensagem, sustentava a ideia de que o conhecimento médico seria suficiente para determinar o que é melhor para o paciente.

Mais recentemente, passamos a reconhecer que o conhecimento científico, isoladamente, não garante que as decisões sejam as mais adequadas para cada pessoa. O paciente tem valores, crenças, prioridades de vida e diferentes compreensões sobre o que significa estar bem.

A experiência profissional permite identificar a doença e orientar o tratamento, mas não revela o que cada paciente está disposto a aceitar ou recusar. O que faz sentido para a vida que ele leva é algo que o médico só pode conhecer ao perguntar. É com base nessa perspectiva que se desenvolve o conceito de tomada de decisão compartilhada.

decisão médica em conjunto com o paciente

O que é tomada de decisão compartilhada?

O professor Robert Veatch, do Instituto Kennedy de Ética, descreveu a ideia da tomada de decisão compartilhada há mais de 50 anos. Desde então, o conceito tem recebido definições mais amplas.

A tomada de decisão compartilhada pode ser entendida como uma colaboração entre médico e paciente que combina ciência, experiência clínica e preferências individuais na comparação das opções disponíveis, até que se chegue a uma decisão (Elwyn et al., 2025).

Também pode ser definida como o processo de comunicação pelo qual médico e paciente colaboram na escolha de exames, tratamentos e planos de cuidado mais alinhados aos valores individuais da pessoa atendida (Dennison Himmelfarb et al., 2023).

Tomada de decisão compartilhada e consentimento informado são diferentes

Quem está conhecendo o tema pode confundir tomada de decisão compartilhada com consentimento informado. Embora relacionados, os conceitos têm focos diferentes.

No consentimento informado, a atenção está na discussão dos riscos de uma intervenção proposta. O médico apresenta os riscos associados ao tratamento e, com base nessa conversa, o paciente autoriza ou recusa o procedimento. Em alguns casos, esse processo acaba reduzido à apresentação de riscos pelo profissional.

Na tomada de decisão compartilhada, o foco está na própria escolha. Médico e paciente colaboram para selecionar o curso de ação que melhor reflita as evidências disponíveis e o que mais importa para aquela pessoa.

O processo inclui a discussão sobre qual caminho seguir e a consideração das preferências do paciente durante toda a deliberação.

Quais são os pilares da tomada de decisão compartilhada?

Um grupo de pesquisadores coordenado por Glyn Elwyn identificou seis pilares da tomada de decisão compartilhada em trabalho publicado em 2025 no Journal of General Internal Medicine.

1. Convite explícito à participação

O convite explícito é o ponto de partida para que o paciente perceba que existem opções e que ele pode participar do processo decisório.

Sem esse convite, há o risco de que a pessoa nem sequer reconheça que uma escolha está sendo feita.

2. Garantia de não abandono

O paciente deve compreender que a colaboração não significa transferir para ele todo o peso da decisão. A tomada de decisão compartilhada representa uma parceria no cuidado, e não a retirada do suporte médico.

3. Participação de outras pessoas

Familiares, amigos e profissionais com diferentes habilidades e conhecimentos também podem participar da decisão.

As preferências do paciente precisam ser consideradas nas discussões realizadas pela equipe clínica, mesmo quando várias pessoas estão envolvidas no cuidado.

4. Continuidade do processo decisório

A tomada de decisão compartilhada raramente ocorre em uma única conversa.

Reconhecer seu caráter contínuo tem implicações para o agendamento das consultas, a continuidade do cuidado e o registro das informações discutidas.

5. Mapeamento dos objetivos do paciente

Identificar os objetivos do paciente em curto e longo prazo ajuda o médico a compreender suas preocupações e expectativas em relação à condição clínica e ao tratamento.

Essa etapa faz parte da definição da agenda da consulta e deve ocorrer antes da recomendação de uma conduta.

6. Deliberação conjunta

Na etapa de deliberação, o médico realiza uma escuta ativa e procura identificar pontos de vista, emoções, medos, prioridades e preferências das pessoas envolvidas.

O objetivo é construir em conjunto, sempre que possível, uma preferência pela opção considerada mais adequada naquele momento.

Leia mais: Aprenda como o TCLE protege o paciente e orienta a prática ética médica

Como as ferramentas de apoio à decisão podem ajudar?

Uma das principais tarefas do médico na tomada de decisão compartilhada é ajudar o paciente a reconhecer as opções disponíveis e compará-las por meio de informações confiáveis e compreensíveis.

As ferramentas de apoio à decisão foram desenvolvidas para facilitar a participação do paciente nesse processo. Elas apresentam informações sobre as alternativas disponíveis e ajudam a esclarecer os valores associados a cada uma delas.

Esses recursos podem assumir diferentes formatos, como:

  • folhetos;
  • vídeos;
  • plataformas interativas na internet.

Uma revisão publicada pela Cochrane, que reuniu mais de 100 ensaios clínicos randomizados, mostrou que os pacientes expostos a essas ferramentas apresentam maior conhecimento sobre suas condições, avaliam os riscos com mais precisão e relatam maior envolvimento nas decisões, sem aumento da ansiedade (Stacey et al., 2018).

Leia mais: Tudo que você precisa saber sobre o novo Estatuto dos Direitos do Paciente

Quais são as aplicações práticas da decisão compartilhada?

No campo cardiovascular, em que a adoção da tomada de decisão compartilhada tem crescido, os dados mostram que pacientes envolvidos nas decisões apresentam melhor adesão aos medicamentos e recorrem menos aos serviços de emergência.

Estudos sobre prevenção primária também indicaram melhora no conhecimento do paciente, na percepção de risco e na satisfação com o processo decisório, sem aumento da duração da consulta (Dennison Himmelfarb et al., 2023).

Leia mais: Aprenda a comunicar riscos ao paciente de forma clara, ética e segura

Como começar a praticar a tomada de decisão compartilhada?

Para médicos em formação ou no início da carreira, a tomada de decisão compartilhada pode parecer uma habilidade avançada. No entanto, sua aplicação começa com mudanças simples na condução da consulta:

  • deixar claro que existem opções e que o paciente tem um papel na escolha;
  • perguntar ativamente o que a pessoa mais teme, o que a incomoda e o que espera do tratamento;
  • apresentar uma recomendação somente depois de ouvir o paciente.

Há uma diferença importante entre perguntar “você tem alguma dúvida?” no final da consulta e criar espaço para que o paciente questione as opções e participe de uma deliberação estruturada.

Relembrar as ferramentas de apoio à decisão disponíveis para as condições mais frequentes e refletir criticamente sobre a própria comunicação são práticas que podem ser incorporadas à rotina médica.

#Conteúdo otimizado com o auxílio de IA e revisado pela equipe do Portal Afya.

Autoria

Foto de Juliana Karpinski

Juliana Karpinski

Editora-assistente médica na Afya. Médica e Jornalista formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com MBA em Gestão Estratégica pela mesma instituição (2022).

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Referências bibliográficas

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