O pedido chegou numa terça-feira, entre duas consultas já atrasadas. A secretária avisou ao Dr. Álvaro, clínico experiente, que o Sr. Renato insistia em falar com ele “por um minuto”.
Aos 64 anos, hipertenso, diabético e acompanhado no consultório havia quase duas décadas, Renato era daqueles pacientes que sabiam o nome dos filhos do médico, lembravam datas importantes e se sentiam parte da história do consultório.
“Doutor, o senhor me conhece. Preciso só de uma receita e de um atestado de três dias. Estou sem tempo para consulta. É só desta vez.”
O problema, como frequentemente ocorre na prática médica, não estava apenas na receita, mas no que ela representava.
Renato usava anti-hipertensivos e hipoglicemiante oral. Recentemente, segundo relatava por telefone, havia recebido de outro profissional a prescrição de um benzodiazepínico. Dizia estar muito ansioso, sem dormir, e pedia que o Dr. Álvaro “renovasse tudo”.
Além disso, solicitava um atestado retroativo porque havia faltado ao trabalho na véspera.
Não havia avaliação recente, exame físico, medida da pressão arterial, glicemia, revisão de interações medicamentosas ou registro clínico daquele episódio. Atender ao pedido nessas condições contrariaria princípios básicos da boa prática e da ética médica.

O vínculo longitudinal diante do limite ético
Para o residente que acompanhava a cena, a primeira tentação poderia ser enxergar rigidez onde havia prudência. Afinal, o paciente não era desconhecido. Havia vínculo, história e confiança.
Médicos mais experientes frequentemente mantêm relações duradouras com pacientes e famílias. Isso tem grande valor assistencial, pois favorece a adesão, a continuidade do cuidado, a compreensão do contexto e o reconhecimento precoce de mudanças sutis.
O vínculo longitudinal é uma das dimensões mais nobres da clínica. No entanto, vínculo não substitui ato médico, confiança não autoriza ficção documental e familiaridade não transforma uma exceção em conduta segura.
Quando a confiança passa a substituir critérios técnicos
O limite ético aparece exatamente nesse ponto: quando a confiança passa a ser usada, ainda que sem má-fé, como argumento para suspender critérios técnicos.
O Código de Ética Médica estabelece que o alvo da atenção do médico é a saúde do ser humano, em benefício da qual deve agir com zelo e capacidade profissional.
Também determina que o médico se responsabiliza pessoalmente por seus atos, inclusive quando solicitados ou consentidos pelo paciente, e veda a emissão de documento médico sem ato profissional que o justifique ou que não corresponda à verdade.
No capítulo dedicado aos documentos médicos, também é vedado atestar como forma de obtenção de vantagem. Exige-se, ainda, prontuário legível, cronológico e suficiente para a adequada condução do caso.
Esses pontos não são mera burocracia. São formas de proteção do paciente, do médico e da sociedade. Nessa relação, o prontuário constitui um dos principais respaldos profissionais.
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Como responder ao pedido sem romper o vínculo
A resposta ética não precisa ser fria nem punitiva.
Dr. Álvaro pediu que a ligação fosse transferida e falou diretamente com Renato. Começou reconhecendo a relação construída ao longo dos anos:
“Renato, justamente porque eu conheço você há tanto tempo, não posso fazer algo que possa lhe prejudicar.”
Em seguida, nomeou o limite sem agressividade. Não emitiria um atestado retroativo sem a avaliação correspondente nem renovaria uma medicação potencialmente sedativa sem revisar o quadro atual.
Alternativas proporcionais à situação clínica
Em vez de apenas negar o pedido, o médico ofereceu alternativas:
- encaixe no final do turno;
- teleatendimento, caso fosse clinicamente adequado e permitido pelas regras do serviço;
- orientação para atendimento presencial imediato diante de sinais de gravidade, como dor torácica, dispneia, confusão mental, hipoglicemia, pressão arterial muito elevada ou ideação suicida.
A conversa não foi confortável.
Renato respondeu com mágoa:
“Depois de tudo isso, o senhor vai me tratar como qualquer um?”
A frase resume o dilema. Um paciente antigo pode interpretar o limite técnico como abandono afetivo. Cabe ao médico demonstrar que a negativa não representa ruptura, mas cuidado e respaldo.
Dr. Álvaro respondeu:
“Não estou tratando você como qualquer um. Estou tratando como alguém cuja saúde me importa o suficiente para eu não assinar o que não examinei.”
A formulação preserva a dignidade do paciente e reafirma o papel profissional do médico.
Como dizer “não” sem humilhar o paciente
Na discussão com os residentes, o ponto central não era apenas aprender a dizer “não”, mas aprender a dizer “não” sem humilhar.
A medicina relacional não autoriza concessões indevidas. Ao contrário, exige comunicação mais cuidadosa justamente porque existe uma memória afetiva envolvida.
O médico pode acolher a urgência subjetiva do paciente, investigar a razão do pedido, reorganizar a agenda quando possível, acionar a rede de cuidado e registrar a situação em prontuário.
O que não pode fazer é produzir um lastro clínico inexistente para uma receita ou um atestado. Também não deve realizar um encaixe que prejudique outros pacientes da fila sem que exista critério assistencial.
Favor e cuidado não são sinônimos
Também é importante distinguir favor de cuidado.
O favor procura satisfazer uma demanda imediata, muitas vezes unilateral, transferindo o risco para o futuro.
O cuidado considera indicação, segurança, justiça, registro, verdade documental e continuidade assistencial.
Em algumas situações, renovar uma medicação crônica por um período curto até a consulta pode ser razoável, desde que existam avaliação mínima, registro, justificativa e baixo risco.
Em outras situações, como as que envolvem sedativos, opioides, antibióticos, corticoides, afastamentos laborais ou documentos retroativos, a margem ética é muito menor.
O critério não deve ser a intimidade com o paciente, mas a necessidade clínica, a segurança e a veracidade do ato.
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O desfecho do caso
O caso mostra que o vínculo é uma ponte, não uma autorização irrestrita.
Pacientes antigos podem pedir favores porque confiam. Médicos experientes podem ceder porque se sentem devedores da história compartilhada. A maturidade profissional, porém, consiste em sustentar limites sem perder a humanidade.
Ao final, Renato aceitou o encaixe. Chegou contrariado, mas foi avaliado.
A pressão arterial estava elevada, e a insônia vinha acompanhada de sintomas depressivos. O atestado emitido correspondeu ao que foi constatado na avaliação — não ao que havia sido pedido.
A relação sobreviveu porque o médico não confundiu vínculo com complacência. Também não cedeu à pressão de considerar que aquilo que o paciente pedia era necessariamente o que ele precisava.
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Autoria

Juliane Braziliano
Editora médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atuação na Afya e em consultório particular, além de telemedicina.
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