Apesar dos avanços significativos no tratamento do HIV, estudos mostram que pessoas que vivem com HIV (PVHIV) apresentam altas taxas de doença cardiovascular (DCV), com risco que varia entre 50-75% quando comparado a pessoas sem a infecção viral. O risco de DCV em pessoas com hepatite C é incerto, com estudos demonstrando um aumento no risco e outros não mostrando associação.
De qualquer modo, pouco se sabe sobre o risco de DCV em PVHIV que também tem hepatite C e na prática clínica essa coinfecção é muito comum (em torno de 10-30%). Assim, um estudo recente buscou identificar se a coinfecção pelo vírus da hepatite C (HCV) aumenta o risco de infarto agudo do miocárdio tipo 1 (MIT1) em PVHIV e se esse risco difere com a idade.
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Estudo
Foram usados dados da North American AIDS Cohort Collaboration on Research and Design (NA-ACCORD) de 31 de Dezembro de 2017 a 1º de Janeiro de 2020, de PVHIV entre 40-79 anos que haviam iniciado terapia antirretroviral contínua. O desfecho primário foi um evento MIT1. Os pacientes que iniciaram antiviral contra o HCV foram excluídos da análise.
Foram incluídos 23361 PVHIV e dessas, 4677 tinham coinfecção HCV, apresentando, o grupo com coinfecção, as seguintes características: mulher (23%), negros não hispânicos (47%), usuários de drogas injetáveis (53%), com histórico de abuso de álcool ou outra dependência química (36%), diabéticos (8%), anemia (60%), com histórico de doença definidora de AIDS (29%), uso de inibidor de protease (65%), com carga viral do HIV não suprimida (> 200 cópias/mL) no início do estudo (35%).
A coinfecção com HCV não foi associada a um aumento do risco de MIT1 (0,98 – IC95% 0,74-1,3) nesse estudo. Diversos estudos prévios mostraram um risco aumentado de infarto em pacientes com coinfecção HIV/HCV e uma possível explicação para esse resultado divergente seria que o estudo atual avaliou apenas MIT1, enquanto os outros incluíram também infartos do tipo2, que poderiam ser ocasionados também por infecções ou pelo uso de drogas.
No entanto, o risco de MIT1 aumentou com a idade e foi ainda maior nos pacientes coinfectados (1,30 – IC 95% 1,13-1,5). O envelhecimento é um fator de risco independente e significativo para DCV, a qual também é composta por fatores adicionais, como comorbidades. As PVHIV têm maior risco de apresentar início prematuro de comorbidades associadas à idade, o que, inclusive, se tornaram as causas mais frequentes de hospitalização e morte em PVHIV nos países ocidentais.
Conclusão
À medida que a população PVHIV envelhece, a redução do risco de DCV passa a ser um objetivo terapêutico primário e pacientes idosos com HIV e HCV tem maior risco de DCV. Assim, destaca-se a importância de manter a terapia antirretroviral contínua e promover estratégias de redução de risco de DCV, bem como iniciar o tratamento para hepatite C visando reduzir a inflamação crônica que pode contribuir ainda mais como fator de risco.
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