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Cardiologia20 outubro 2017

iECA vs BRA: as diferenças são clinicamente relevantes?

iECA vs BRA: diferenças no SRAA, mecanismos e possíveis impactos clínicos no tratamento da HAS e do DM2.
Por Ronaldo Gismondi

Durante a formação médica, é comum aprender que inibidores da ECA (iECA) e bloqueadores dos receptores de angiotensina (BRA) têm eficácia semelhante e podem ser usados de forma intercambiável.

No entanto, estudos mais recentes sugerem diferenças fisiopatológicas relevantes entre essas classes, com possível impacto clínico. Para entender isso, é essencial revisar o sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA).

O papel do SRAA na fisiopatologia

O SRAA está diretamente envolvido na lesão de órgão-alvo na hipertensão arterial sistêmica (HAS) e no diabetes mellitus (DM).

SRAA sistêmico e tissular

Tradicionalmente, o SRAA era visto como um sistema endócrino responsável por:

  • Regulação da pressão arterial
  • Equilíbrio hidrossalino

Atualmente, sabe-se que também existe um SRAA tissular, com ação:

  • Autócrina
  • Parácrina

Esse sistema participa de processos como:

  • Crescimento celular
  • Formação de matriz extracelular
  • Proliferação vascular
  • Função endotelial
  • Apoptose

A importância da renina

A renina é uma enzima central na ativação do SRAA, produzida pelo aparelho justaglomerular.

Etapas de formação

  • Preprorenina → prorenina → renina ativa

Embora inicialmente considerada inativa, a prorenina possui atividade biológica relevante, especialmente no SRAA tissular, contribuindo para:

  • Fibrose
  • Produção de colágeno
  • Nefropatia diabética

Formação da angiotensina II

A ativação clássica do SRAA ocorre da seguinte forma:

  • Angiotensinogênio → angiotensina I (pela renina)
  • Angiotensina I → angiotensina II (pela ECA)

A angiotensina II também pode ser formada por vias alternativas, como:

  • Quimases
  • Receptores de prorenina

Isso explica por que pacientes em uso de iECA ainda apresentam níveis detectáveis de angiotensina II.

Efeitos da angiotensina II

A angiotensina II atua principalmente no receptor AT1, promovendo:

  • Vasoconstrição sistêmica
  • Aumento da pressão intraglomerular
  • Reabsorção de sódio
  • Secreção de aldosterona

Consequências clínicas

  • Hipertensão arterial
  • Disfunção endotelial
  • Aterosclerose
  • Hipertrofia ventricular esquerda
  • Resistência insulínica

Além disso, está associada a:

  • Produção de radicais livres
  • Redução do óxido nítrico
  • Inflamação e fibrose

Vias alternativas do SRAA

O SRAA possui duas vias com efeitos opostos:

Via clássica (ECA – angiotensina II)

  • Vasoconstrição
  • Inflamação
  • Disfunção endotelial

Via alternativa (ECA-2 – angiotensina 1-7)

  • Vasodilatação
  • Ação anti-inflamatória
  • Melhora da função endotelial

A ECA também degrada a bradicinina, um potente vasodilatador.

Diferenças entre iECA e BRA

A principal distinção fisiopatológica é que:

iECA

  • Reduzem a formação de angiotensina II
  • Aumentam bradicinina e angiotensina (1-7)

BRA

  • Bloqueiam o receptor AT1
  • Não aumentam bradicinina

Essas diferenças podem ter implicações clínicas relevantes.

Evidências clínicas

Alguns estudos sugerem vantagens dos iECA:

  • Redução de mortalidade global e cardiovascular em pacientes diabéticos
  • Resultados favoráveis em meta-análises (incluindo análises bayesianas)
  • Ensaios clássicos positivos com iECA:
    • HOPE (ramipril)
    • EUROPA (perindopril)

Por outro lado:

  • Estudos observacionais sugerem benefício dos BRA em populações com aterosclerose
  • Esses dados são limitados por possível viés de confusão

E o sacubitril?

A relevância da via da bradicinina e da angiotensina (1-7) fundamenta, em parte, o uso de terapias como:

  • Sacubitril (inibidor da neprilisina), associado ao bloqueio do SRAA

Então, qual escolher?

Ainda não há uma resposta definitiva sobre superioridade entre iECA e BRA.

Na prática clínica

A escolha deve considerar:

  • Perfil do paciente
  • Tolerabilidade (ex: tosse com iECA)
  • Custo
  • Posologia
  • Adesão ao tratamento

Mensagem final

Embora tradicionalmente considerados equivalentes, iECA e BRA apresentam diferenças fisiopatológicas importantes que podem impactar desfechos clínicos. Até o momento, a escolha entre as classes deve ser individualizada, baseada no contexto clínico e nas características do paciente.

Autoria

Foto de Ronaldo Gismondi

Ronaldo Gismondi

Editor-chefe médico da Afya RJ ⦁ Pós-doutorado em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ⦁ Coordenador da Cardiologia do Niterói D’Or ⦁ Professor da Universidade Federal Fluminense (UFF)

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