Durante a formação médica, é comum aprender que inibidores da ECA (iECA) e bloqueadores dos receptores de angiotensina (BRA) têm eficácia semelhante e podem ser usados de forma intercambiável.
No entanto, estudos mais recentes sugerem diferenças fisiopatológicas relevantes entre essas classes, com possível impacto clínico. Para entender isso, é essencial revisar o sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA).
O papel do SRAA na fisiopatologia
O SRAA está diretamente envolvido na lesão de órgão-alvo na hipertensão arterial sistêmica (HAS) e no diabetes mellitus (DM).
SRAA sistêmico e tissular
Tradicionalmente, o SRAA era visto como um sistema endócrino responsável por:
- Regulação da pressão arterial
- Equilíbrio hidrossalino
Atualmente, sabe-se que também existe um SRAA tissular, com ação:
- Autócrina
- Parácrina
Esse sistema participa de processos como:
- Crescimento celular
- Formação de matriz extracelular
- Proliferação vascular
- Função endotelial
- Apoptose
A importância da renina
A renina é uma enzima central na ativação do SRAA, produzida pelo aparelho justaglomerular.
Etapas de formação
- Preprorenina → prorenina → renina ativa
Embora inicialmente considerada inativa, a prorenina possui atividade biológica relevante, especialmente no SRAA tissular, contribuindo para:
- Fibrose
- Produção de colágeno
- Nefropatia diabética
Formação da angiotensina II
A ativação clássica do SRAA ocorre da seguinte forma:
- Angiotensinogênio → angiotensina I (pela renina)
- Angiotensina I → angiotensina II (pela ECA)
A angiotensina II também pode ser formada por vias alternativas, como:
- Quimases
- Receptores de prorenina
Isso explica por que pacientes em uso de iECA ainda apresentam níveis detectáveis de angiotensina II.
Efeitos da angiotensina II
A angiotensina II atua principalmente no receptor AT1, promovendo:
- Vasoconstrição sistêmica
- Aumento da pressão intraglomerular
- Reabsorção de sódio
- Secreção de aldosterona
Consequências clínicas
- Hipertensão arterial
- Disfunção endotelial
- Aterosclerose
- Hipertrofia ventricular esquerda
- Resistência insulínica
Além disso, está associada a:
- Produção de radicais livres
- Redução do óxido nítrico
- Inflamação e fibrose
Vias alternativas do SRAA
O SRAA possui duas vias com efeitos opostos:
Via clássica (ECA – angiotensina II)
- Vasoconstrição
- Inflamação
- Disfunção endotelial
Via alternativa (ECA-2 – angiotensina 1-7)
- Vasodilatação
- Ação anti-inflamatória
- Melhora da função endotelial
A ECA também degrada a bradicinina, um potente vasodilatador.
Diferenças entre iECA e BRA
A principal distinção fisiopatológica é que:
iECA
- Reduzem a formação de angiotensina II
- Aumentam bradicinina e angiotensina (1-7)
BRA
- Bloqueiam o receptor AT1
- Não aumentam bradicinina
Essas diferenças podem ter implicações clínicas relevantes.
Evidências clínicas
Alguns estudos sugerem vantagens dos iECA:
- Redução de mortalidade global e cardiovascular em pacientes diabéticos
- Resultados favoráveis em meta-análises (incluindo análises bayesianas)
- Ensaios clássicos positivos com iECA:
- HOPE (ramipril)
- EUROPA (perindopril)
Por outro lado:
- Estudos observacionais sugerem benefício dos BRA em populações com aterosclerose
- Esses dados são limitados por possível viés de confusão
E o sacubitril?
A relevância da via da bradicinina e da angiotensina (1-7) fundamenta, em parte, o uso de terapias como:
- Sacubitril (inibidor da neprilisina), associado ao bloqueio do SRAA
Então, qual escolher?
Ainda não há uma resposta definitiva sobre superioridade entre iECA e BRA.
Na prática clínica
A escolha deve considerar:
- Perfil do paciente
- Tolerabilidade (ex: tosse com iECA)
- Custo
- Posologia
- Adesão ao tratamento
Mensagem final
Embora tradicionalmente considerados equivalentes, iECA e BRA apresentam diferenças fisiopatológicas importantes que podem impactar desfechos clínicos. Até o momento, a escolha entre as classes deve ser individualizada, baseada no contexto clínico e nas características do paciente.
Autoria

Ronaldo Gismondi
Editor-chefe médico da Afya RJ ⦁ Pós-doutorado em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ⦁ Coordenador da Cardiologia do Niterói D’Or ⦁ Professor da Universidade Federal Fluminense (UFF)
Prescreva medicação aos seus pacientes de forma gratuita e ilimitada
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.