É indiscutível o papel do ácido acetilsalicílico (AAS) na prevenção secundária de eventos cardiovasculares, isto é, em quem já teve IAM ou AVCi. Por outro lado, há um debate sobre o risco x benefício da droga na profilaxia primária. Um artigo de revisão recente da Medical Clinics of North America trouxe alguns aspectos a serem refletidos nesse assunto e vamos comentar criticamente os aspectos principais.

AAS na prevenção primária
Pensando em profilaxia primária, o primeiro passo é a estimativa do risco cardiovascular. Diversas calculadoras estão disponíveis, incluindo a da Sociedade Brasileira de Cardiologia, mas a mais utilizada mundialmente é o escore global de risco de Framingham. Atenção aqui: o escore original de Framingham estimava o risco de doença coronariana em 10 anos. O novo escore “global” estima o risco de AVC, IAM, doença arterial periférica e IC e, por ser mais completo, é o indicado e disponível no WB.
Além dos efeitos cardiovasculares, é importante ressaltar que o AAS reduz o risco de câncer de cólon e este efeito é levado em consideração no momento de estimar o risco x benefício do uso. Esse foi o principal ponto de diferença entre o estudo atual da USPSTF (U.S. Preventive Services Task Force), ligada à sociedade de clínica médica dos EUA (ACP), e o FDA. A agência regulatória americana, há alguns anos, não recomendava o AAS como prevenção primária, mas seus estudos só levaram em consideração os benefícios cardiovasculares – e não os neoplásicos.
A meta-análise realizada pela USPSTF é uma das evidências mais recentes e abrangentes, porém ainda insuficiente para responder a todas as perguntas. Há dois pontos “pacíficos”: o paciente de baixo risco não se beneficia do AAS e aquele do alto risco faz jus. Os problemas são: (1) identificar qual o ponto de corte baixo x alto risco; (2) manejo do paciente de risco intermediário; e (3) ponderar benefício x risco sangramento.
Indicador QALY
O indicador QALY (Quality-adjusted life year) foi o parâmetro escolhido para auxiliar nesta tomada de decisão. O quadro 1 reúne as principais indicações de AAS na profilaxia primária pela USPSTF e o Quadro 2 os fatores de risco para sangramento – quanto mais risco, menor o benefício.
Quadro 1: recomendações da USPSTF para profilaxia primária com AAS
| 50 a 59 anos Risco ≥ 10% (escore ASCVD) | AAS 81-100 mg
(nível evidência B) |
| 60 a 69 anos Risco ≥ 10% (escore ASCVD) | AAS 81-100 mg
(nível evidência C) |
Para pessoas com < 49a ou > 70a, a evidência científica não foi suficiente para uma recomendação. Além disso, as recomendações são as mesmas para ambos os sexos.
Quadro 2: fatores de risco para sangramento com AAS
| Idoso | HAS | Tabagismo |
| Sexo masculino | DM | Uso AINE |
| Hepatopatia | Trombocitopenia ou coagulopatia | Anticoagulação plena |
| Nefropatia | Obesidade | Dose e tempo de uso do AAS |
| Hospitalização doença gastrointestinal ou dor abdominal | ||
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Referências bibliográficas:
- https://www.ncbi.nlm.nih.gov/labs/articles/28577622/
- Guirguis-Blake JM, et al. Aspirin for the Primary Prevention of Cardiovascular Events: A Systematic Evidence Review for the U.S. Preventive Services Task Force. Ann Intern Med
. 2016 Jun 21;164(12):804-13. doi: 10.7326/M15-2113.
Autoria

Ronaldo Gismondi
Editor-chefe médico da Afya RJ. Pós-doutorado em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Coordenador da Cardiologia do Niterói D’Or. Professor da Universidade Federal Fluminense (UFF)
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