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Cardiologia5 janeiro 2026

Fatores de risco cardiovasculares em adultos com aquisição perinatal ao HIV 

Estudo investigou os fatores de risco cardiovascular e metabólico em uma coorte de adultos com HIV pediátrico

Apesar do grande avanço com a terapia antirretroviral (TARV), condições não relacionadas ao HIV seguem sendo uma importante causa de óbito em indivíduos que vivem com o vírus. Dentre estas, as doenças cardiovasculares são as principais. Provavelmente por mecanismos multifatoriais, pessoas vivendo com HIV (PVHIV) possuem risco maior de desenvolver doenças cardiovasculares do que pessoas sem infecção. Os fatores envolvidos envolvem tanto fatores clássicos, como inatividade física, ser do sexo masculino, tabagismo, quanto fatores associados ao HIV, como inflamação e ativação imune crônicas e toxicidade relacionada à TARV. Uma hipótese é de que, em adultos com aquisição perinatal ao HIV, os últimos sejam exacerbados pelo longo tempo de exposição. 

As calculadoras de risco cardiovascular tradicionais dão ênfase à idade cronológica, subestimando o risco em PVHIV, especialmente jovens adultos com aquisição perinatal. Estudos recentes têm demonstrado prevalência elevada de comorbidades não relacionadas ao HIV em adultos entre 18 e 30 anos nos EUA, incluindo diabetes mellitus, hiperlipidemia, hipertensão e doença renal crônica. 

Considerando esses dados, um grupo britânico procurou descrever a prevalência de hipertensão e síndrome metabólica em uma coorte de indivíduos com aquisição perinatal de HIV e estimar seu risco cardiovascular. 

Materiais e métodos 

Trata-se de um estudo retrospectivo com revisão de registros eletrônicos de um serviço de PVHIV com aquisição perinatal. Os participantes eram adultos entre 18 e 40 anos. 

Os desfechos primários foram a prevalência de hipertensão, síndrome metabólica e escore PDAY (Pathobiological Determinants of Atherosclerosisin Youth) elevado. O PDAY é uma ferramenta validada para estimar o risco de lesões ateroscleróticas em jovens adultos na artéria coronária e na aorta abdominal. Esse escore incorpora fatores de risco cardiovasculares clássicos e foi desenvolvido a partir de achados em jovens adultos sem HIV. Escores ≥ 1 em coronária e na aorta abdominal estão associados a uma chance 18% e 29% maior de lesões ateroscleróticas, respectivamente. Os fatores incluídos para o cálculo do PDAY são HDL, colesterol não-HDL, tabagismo, hipertensão, IMC > 30 kg/m² e controle glicêmico. 

Resultados 

Foram coletados dados referentes a 225 PVHIV com aquisição perinatal entre 18 e 40 anos. A maioria dos participantes se identificava como sendo negro e do sexo feminino. A mediana de idade foi 27 anos. A maioria (83%) estavam em supressão viral – definida como carga viral do HIV < 50 cópias/mL. Entre os com viremia, a mediana de carga viral foi 470 (IQR = 121 – 4090). As medianas de CD4 e de duração de TARV foram 634 células/mm³ e 19 anos, respectivamente. 

Entre os participantes, 21 (9%) apresentavam hipertensão segundo o critério da OMS (PA ≥ 140x 90mmHg em pelo menos 3 atendimentos). Destes, 62% tinham IMC ≥ 25 e 20%, síndrome metabólica. Os participantes com hipertensão eram mais velhos dos que os sem a doença, com diferença estatisticamente significativa. Onze (52%) tinham recebido esquema com inibidor de protease (IP) previamente, o que diferiu de forma significativa do grupo sem hipertensão. O grupo de indivíduos hipertensos também teve maior frequência de história de doença definidora de AIDS (p = 0,01). 

Pelo critério da American Heart Association (PAS ≥ 130×80 mmHg em pelo menos 3 atendimentos), o número de indivíduos com hipertensão foi 48 (21%). Aproximadamente 65% tinham IMC ≥ 25 e 13% tinham síndrome metabólica. Novamente, indivíduos com hipertensão eram mais velhos do que os sem hipertensão (p = 0,01). Comparando ambos os grupos — os com hipertensão e os sem hipertensão —, houve diferença significativa nos valores de nadir de células T-CD4, anos em TARV e história de doença definidora de AIDS. Além disso, mais indivíduos com hipertensão tinham sido expostos a esquemas com IP, assim como os expostos a abacavir. 

Dentro da coorte, 6 pessoas preenchiam os critérios para diagnóstico de síndrome metabólica. A prevalência de síndrome metabólica foi significativamente maior entre os com hipertensão, independente da definição utilizada (OMS ou AHA). 

Foi possível calcular os escores PDAY de 162 participantes. Para artéria coronária e para aorta abdominal, 92 (57%) e 82 (51%) tinham escore ≥ 1, respectivamente. Na análise univariada, sexo masculino, carga viral HIV, categoria CDC atual, uso atual de IP, uso de IP em qualquer momento e uso de lamivudina foram fatores que se associaram a escore de risco ≥ 1 em coronária. Na análise multivariada, sexo masculino, categoria C do CDC e uso de IP em qualquer momento permaneceram como estatisticamente significativos. Para PDAY em aorta abdominal, carga viral HIV > 5000 cópias/mL e categoria C do CDC estiveram relacionados a escore ≥ 1. 

Fatores de risco cardiovasculares em adultos com aquisição perinatal ao HIV 

Mensagens práticas: risco cardiovasculares e HIV perinatal

Quase um terço dos participantes apresentaram risco aumentado para a presença de lesões ateroscleróticas, apesar de serem jovens e de ter bom controle virológico. Esses achados sugerem que calculadoras tradicionais de risco cardiovascular podem subestimar o risco nessa população.

Saiba mais: Brasil elimina transmissão vertical do HIV e registra menor mortalidade em 32 anos

Autoria

Foto de Isabel Cristina Melo Mendes

Isabel Cristina Melo Mendes

Infectologista pelo Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) ⦁ Graduação em Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro

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