No primeiro dia do congresso da American College of Cardiology (ACC 2025) foi apresentado um trabalho que avaliou se poderíamos utilizar dose reduzida de apixabana em pacientes com trombose venosa profunda (TVP) e embolia pulmonar (EP) relacionada a câncer.
Pacientes com câncer tem maior risco de eventos tromboembólicos e maior risco de recorrência de eventos comparado a população em geral, sendo a recomendação atual de se manter o tratamento anticoagulante durante todo o período ativo do câncer ou enquanto durar o tratamento. A partir de 6 meses, o risco de recorrência de eventos trombóticos se reduz, porém não há grandes estudos que avaliaram a anticoagulação além desse período.
Além disso, pacientes com câncer também têm risco aumentado de sangramento em relação a população geral. Assim, foi feito o estudo API-CAT, com objetivo de avaliar se dose reduzida de apixabana seria não inferior e mais segura que a dose habitual para a prevenção de recorrência de eventos tromboembólicos em pacientes com câncer ativo após 6 meses iniciais de tratamento.
Métodos do estudo e população envolvida
Foi um estudo internacional de não inferioridade, prospectivo e duplo cego que incluiu pacientes com câncer ativo e TVP de veias proximais dos membros inferiores ou embolia pulmonar (EP) incidental ou sintomática em um segmento ou artéria pulmonar maior.
Os pacientes deveriam ter completado a anticoagulação por 6 meses com heparina de baixo peso molecular (HBPM), anticoagulante oral direto (DOAC) ou antagonista da vitamina K (AVK) e não poderiam ter recorrência de eventos documentados neste período.
A randomização ocorreu em uma razão 1:1 para os grupos baixa dose, que recebia apixabana na dose de 2,5mg 2x ao dia, e dose habitual, que recebia 5mg 2x ao dia por 12 meses.
O desfecho primário era recorrência de eventos tromboembólicos fatais ou não fatais em 12 meses de seguimento e o desfecho secundário era sangramento clinicamente relevante em 12 meses.
Resultados
Foram incluídos 1766 pacientes de 121 centros em 11 países. O grupo baixa dose foi composto por 866 pacientes e o grupo dose habitual por 900 pacientes. Os grupos tinham características semelhantes, com mediana de idade 69 anos, 43,4% eram do sexo masculino e a maioria tinha escore de performance-status ECOG 0 ou 1. Os cânceres mais comuns eram de mama, cólon ou reto, do sistema ginecológico e pulmonar.
Em relação a trombose inicial, 24,5% tinham história de TVP proximal de membros inferiores e 75,5% de EP com ou sem TVP proximal. O tratamento inicial foi com DOAC em 43,6%, HBPM em 54,8% e AVK em 1,2%.
O desfecho primário ocorreu em 18 pacientes (2,1%) no grupo dose reduzida e 24 (2,8%) no grupo dose habitual, com p=0,001 para não inferioridade. Sangramento clinicamente relevante ocorreu em 102 pacientes (12,1%) do grupo dose reduzida e 136 pacientes (15,6%) do grupo dose habitual, com p = 0,03 para superioridade. A mortalidade em 12 meses foi de 18,7%, sendo a maior parte relacionada ao câncer.
Comentários e conclusão
Este estudo avaliou a eficácia e segurança da utilização de dose reduzida de apixabana em pacientes com câncer e história de tromboembolismo após período de 6 meses de anticoagulação e mostrou que a mesma foi eficaz em prevenir recorrência de eventos tromboembólicos, com redução do risco de sangramento.
O estudo incluiu pacientes com diversos tipos de câncer e com características semelhantes a de outros estudos observacionais e randomizados prévios, o que faz com que os resultados possam ser generalizados para os pacientes com eventos tromboembólicos recebendo anticoagulação e muito provavelmente levarão a mudança de conduta na nossa prática clínica.
Dia 31/03, às 20h, acompanhe a live de resumo do congresso com a Afya Cardiopapers! Programe-se!
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