Paciente do sexo feminino, 52 anos, ASA 2, hipertensa controlada, sem outras comorbidades. Internada para realização de mastectomia radical por neoplasia mamária.
Ao exame apresentava-se lúcida e orientada no tempo e espaço, em bom estado geral, sem queixas, corada, hidratada, acianótica, anictérica, afebril com sinais vitais dentro dos limites da normalidade. Exames laboratoriais normais e jejum satisfatório.
Optou-se por realização de anestesia geral associada a bloqueio do plano eretor da espinha a nível de T4-T5 para uma boa analgesia pós-operatória.
O bloqueio foi realizado com a paciente em posição sentada com o auxílio do ultrassom e administração de 20 ml de ropivacaína a 0,5% no plano profundo do músculo eretor da espinha do lado direito e cirurgia transcorreu sem nenhuma intercorrência significativa. Paciente permaneceu estável durante todo o período.
Ao final da cirurgia paciente foi extubada e encaminhada a sala de recuperação anestésica onde permaneceu por trinta minutos quando começou a apresentar queixa de visão turva. Ao exame apresentava-se lúcida e orientada, respondendo adequadamente as solicitações verbais com ptose palpebral a direita, miose ipsilateral, leve anidrose facial com enoftalmia discreta e ausência de déficits ou alterações motoras ou cardiovasculares. Sinais vitais permaneceram estáveis sem evidências de instabilidade hemodinâmica ou complicações respiratórias.
Hipótese diagnóstica
Paciente submetida a bloqueio de plano eretor da espinha (BPEE) apresentando quadro de alterações visuais podemos pensar em Síndrome de Claude Bernard-Horner (SCBH) pós bloqueio.
A SCBH é uma condição neurológica caracterizada por ptose palpebral, miose, enoftalmia e anidrose facial, resultante da interrupção da via oculossimpática. Apesar de ser uma complicação rara, ela pode ocorrer após bloqueios regionais como o bloqueio de plexo braquial ou o BPEE. Essa síndrome surge quando o anestésico local se difunde cranialmente até os ramos pré ganglionares simpáticos entre os níveis T1-T3, afetando a cadeia simpática cervical.
Fatores que podem contribuir para o aparecimento dessa síndrome são volume elevado de anestésico local, nível do bloqueio torácico alto e variações anatômicas individuais.
Qual foi a conduta adotada?
O diagnóstico dessa síndrome é clínico e geralmente a sua evolução é benigna, autolimitada e transitória, não exigindo tratamento específico na maioria dos casos. Porém a capacidade de realizar um diagnóstico correto é fundamental para que não seja realizado investigações desnecessárias e para que se possa garantir a segurança do paciente.
Nesse caso específico foi realizado exame neurológico completo e confirmado a ausência de outras alterações centrais ou periféricas. A conduta adotada foi expectante, com monitorização clínica contínua e não houve necessidade de intervenção farmacológica. Os sintomas regrediram espontaneamente em aproximadamente 5 horas com resolução completa e sem sequelas.
Autoria

Gabriela Queiroz
Conteudista médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pós-Graduação em Anestesiologia pelo Ministério da Educação (MEC). Pós-Graduação em Anestesiologia pelo Centro de Especialização e Treinamento da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (CET/SBA). Membro da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA). Membro da American Academy of Pain Medicine.
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