Paciente feminina, 52 anos, ASA 2, sem queixas deu entrada no ambulatório de cirurgia geral para cirurgia de colecistectomia por videolaparoscopia. Relatava apenas hipertensão arterial controlada com losartana, sem outras comorbidades. Negava asma, bronquite, diabetes, alergia medicamentosa e qualquer intercorrência cirúrgica ou anestésica anterior.
Ao exame físico encontrava-se LOTE, em bom estado geral, acianótica, anictérica, afebril, enchimento capilar satisfatório com exames laboratoriais dentro da normalidade. PA 110×75 mmHg, FC 75bpm, SPO2 98% em ar ambiente. Jejum satisfatório de 12 horas.
Paciente relatou estar tranquila e não aceitou medicação pré-anestésica oferecida. Encaminhada ao centro cirúrgico. Equipe anestésica optou pela realização de anestesia geral balanceada com ventilação controlada.
Indução realizada com propofol, fentanila e rocurônio e manutenção com sevoflurano e oxigênio e ar comprimido. Intubação realizada na primeira tentativa, sem intercorrências. Paciente acoplada ao respirador, colocada em posição cirúrgica e iniciado o procedimento.
Durante a insuflação do pneumoperitôneo houve queda da pressão arterial PA 85X 50 mmHg que foi prontamente reestabelecida com diminuição da concentração do anestésico inalatório e aumento da hidratação.
Cerca de 20 minutos após paciente começou a apresentar aumento da frequência cardíaca 110bpm, aumento da pressão arterial PA 140×90 mmHg sem alteração de capnografia, o que foi interpretado como resposta ao estímulo cirúrgico.
Procedimento realizado sem intercorrências e após extubação paciente foi encaminhada a SRPA com Aldrete 9.
Na SRPA paciente relata ter ouvido vozes durante a cirurgia, sensação de sufocamento e ansiedade extrema.
Hipótese diagnóstica
Paciente em anestesia geral que subitamente apresenta aumento da frequência cardíaca e pressão arterial sem justificativa e após despertar relata queixa de ouvir vozes, sufocamento, imobilidade e grande ansiedade podemos pensar em despertar intraoperatório, principalmente quando houve alguma necessidade de diminuição de plano anestésico durante o procedimento.
Alguns fatores podem contribuir para o aparecimento dessa situação como redução excessiva de anestésico inalatório, uso de bloqueador neuromuscular que acaba impedindo o movimento e mascarando o plano anestésico superficial, ausência de monitorização de frequência cerebral (BIS) e ausência de realização de pré-anestésico com benzodiazepínicos.
Além disso existem os fatores de risco clássicos como tipo de cirurgia que leva a instabilidade hemodinâmica e necessidade de um plano anestésico mais superficial, pacientes jovens ou com alto consumo de álcool ou substâncias ilícitas, entre outros.
A consciência intraoperatória ocorre pela atividade cortical preservada com um estímulo nociceptivo presente e redução da ação anestésica.
Desfecho
Para prevenir esse evento é importante que seja realizado um pré-anestésico com benzodiazepínico, que irá levar a uma amnésia intraoperatória, mesmo que haja superficialização da consciência. Além disso, manter uma CAM adequada, considerar sempre que possível e disponível a utilização do BIS, evitar reduções abruptas do plano anestésico ou manter o paciente em plano superficial.
Em caso de suspeita de despertar intraoperatório deve-se imediatamente aumentar o anestésico e considerar a administração de propofol em bolus e uso de algum benzodiazepínico de meia vida curta como midazolan a fim de promover amnésia.
No pós-operatório, deve-se levar seriamente em consideração o ocorrido, escutar o paciente com atenção, explicar o ocorrido, documentar e muitas vezes encaminhar o paciente para suporte psicológico, pois o despertar intraoperatório pode gerar traumas profundos futuros com incapacidade de socialização.
A paciente em questão foi acolhida e encaminhada ao serviço de psicologia da unidade e teve alta para casa sem outras intercorrências.
Autoria

Gabriela Queiroz
Pós-Graduação em Anestesiologia pelo Ministério da Educação (MEC) ⦁ Pós-Graduação em Anestesiologia pelo Centro de Especialização e Treinamento da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (CET/SBA) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) ⦁ Membro da American Academy of Pain Medicine ⦁ Ênfase em cirurgias de trauma e emergência, obstetrícia, plástica estética reconstrutiva e reparadora e procedimentos endoscópicos ⦁ Experiência em trauma e cirurgias de emergência de grande porte, como ortopedia, vascular e neurocirurgia ⦁ Experiência em treinamento acadêmico e liderança de grupos em ambiente cirúrgico hospitalar ⦁ Orientadora acadêmica junto à classe de residentes em Anestesiologia ⦁ Orientadora e auxiliar em palestras regionais e internacionais na área de Anestesiologia.
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