A Sociedade Brasileira de Anestesiologia publicou uma nova atualização em maio deste ano sobre o manejo pré-operatório dos agonistas GLP1(semaglutida, liraglutida, dulaglutida) e dos coagonistas GLP1/GIP (tirzepatida).
A principal mudança foi uma abordagem mais individualizada, onde a recomendação anterior da suspensão rotineira para todos os pacientes, não seria mais necessário.
Essa atualização visa garantir uma segurança anestésica reduzindo os riscos de regurgitação e aspiração pulmonar em pacientes usuários dessas medicações sem expô-los desnecessariamente aos riscos da interrupção do tratamento.

Quais mudanças novidades podemos destacar de mais relevante para a prática?
Os principais pontos do novo protocolo são:
- Não suspender as medicações de forma rotineira: Pacientes estáveis, em uso crônico e sem sintomas gastrointestinais significativos podem, em muitos casos, manter a medicação. A decisão deve considerar risco de aspiração versus risco metabólico da interrupção do tratamento.
- Avaliação dos fatores de risco: Deve-se ter uma maior preocupação em pacientes que estão em escanolamento de dose, que apresentam ativamente sintomas de náuseas, vômitos, distensão abdominal ou saciedade precoce, pacientes com suspeita de gastroparesia e pacientes submetidos a procedimentos de maior risco anestésico.
- Dieta líquida por 24 horas: Para todos os pacientes em uso das medicações, a recomendação passou a incluir dieta líquida sem resíduos nas 24 horas anteriores ao procedimento, associada ao jejum habitual das diretrizes vigentes.
- Jejum pré-operatório: A nota enfatiza um jejum de aproximadamente 8 a 12 horas antes da anestesia quando indicado pelo profissional anestesista.
- Ultrassom gástrico à beira do leito (POCUS): Esse procedimento ganhou destaque como ferramenta para avaliar o conteúdo gástrico residual e auxiliar na definição de risco de aspiração e na orientação anestésica sobre prosseguir a cirurgia, modificar a técnica ou adiar o procedimento, principalmente em pacientes de alto risco. É recomendado que seja realizado de forma sistemática. São considerados pacientes de baixo risco, Perlas grau 0 e Perlas Grau 1.
- Termo de Consentimento específico: A SBA lançou um termo de consentimento específico para usuários de agonistas GLP1 e coagonistas GLP1/GIP que deve ser preenchido e assinado à parte do termo de consentimento geral de anestesia. Esse termo não substitui o anterior, devendo os dois serem incluídos no prontuário do paciente.
- Manejo intraoperatório: Quando não há condição de adiar o procedimento em pacientes de alto risco deve-se optar pela sequência rápida de indução, planejar uma proteção adequada das vias aéreas e evitar complacência baseada apenas no período de jejum.
- Suspensão da medicação: Apenas realizada em pacientes de alto risco pelo período de 7 dias em caso de medicações de longa duração e pelo período de 1 dia em caso de medicações de curta duração. Demais pacientes de baixo risco ou de uso crônico (acima de 12 semanas) e sem sintomas não há necessidade de suspensão.
- Discussão multidisciplinar: A SBA desenvolveu esse documento em conjunto com a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e a ABESO, reforçando a necessidade de um alinhamento entre a equipe anestésica, equipe cirúrgica e um endocrinologista.
Para levar para casa
A atualização de 2026 reconhece que é mais importante focar na estratificação de risco, identificando os pacientes de baixo e alto risco, do que apenas suspender de forma rotineira todas as medicações.
Pacientes considerados alto risco são os que estão em fase de aumento da dose, com sintomas gastrointestinais ativos, com suspeita de gastroparesia e com história de retenção gástrica significativa ou em uso de forma irregular, sem indicação clara e sem acompanhamento médico.
O foco deixa de ser o medicamento isoladamente e passa a ser uma avaliação real e individualizada de esvaziamento gástrico diminuído e risco de aspiração pulmonar.
Autoria

Gabriela Queiroz
Conteudista médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pós-Graduação em Anestesiologia pelo Ministério da Educação (MEC). Pós-Graduação em Anestesiologia pelo Centro de Especialização e Treinamento da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (CET/SBA). Membro da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA). Membro da American Academy of Pain Medicine.
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